top of page
  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“COMO AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS AFETARÃO A PRODUÇÃO DE VINHOS”

A chuva que caiu torrencialmente e deixou boa parte do Rio Grande do Sul inundado, alerta-nos sobre as mudanças climáticas e suas consequências.

O evento extremo que levou a uma das maiores tragédias climáticas da história do País foi provocado por um sistema de baixa pressão sobre o sul do Brasil, que trouxe grandes quantidades de chuva para a região, com áreas do estado acumulando mais de 200 mm de precipitação ao longo de três dias.


As tempestades que geraram chuva extrema são consequência de uma complexa situação atmosférica formada sobre o RS. Os contrastes entre a onda de calor no centro do Brasil e o ar frio de origem antártica ao sul, associado a ciclones extratropicais, favorecem eventos extremos em um planeta mais quente. Pelo trabalho de investigação em eventos extremos que pesquisadores estavam fazendo nos últimos 20 ou 30 anos no Rio Grande do Sul, já era previsto que a mudança climática se somasse aos fatores naturais, intensificando eventos climáticos e meteorológicos extremos no mundo e em especial no Sul do Brasil.

 

Sou mais um amante de vinhos a chamar a atenção para a necessidade de revitalizar a produção de vinhos no Rio Grande do Sul. Portanto #comprevinhogaucho

 

A pesquisadora Erika Coppola, integrante do The Abdus Salam International Centre for Theoretical Physics, da Itália, explica que o sudeste da América do Sul é uma das regiões do planeta onde tanto as tendências observadas no passado quanto as projeções climáticas futuras concordam que a intensidade e a frequência de eventos extremos de chuvas e inundações pluviais aumentaram e continuarão a aumentar até que cessem as emissões de combustíveis fósseis.


A temperatura média do Planeta Terra até a primeira metade do século XIX esteve em 14ºC. Contudo, com a consolidação da produção industrial, na segunda metade do século XIX, grandes fábricas tornaram-se territórios de produção intensiva de mercadorias. Esta nova relação social de produção exige grandes quantidades e diferentes tipos de matéria-prima, deste modo, modifica a natureza e determina a produção agrícola e pecuária mundial, conforme suas necessidades mercadológicas.


Esta forma de organização de produção industrial social está diretamente relacionada às mudanças climáticas, pois o aumento na emissão de gases de efeito estufa – dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O) – resulta na elevação da temperatura global. Ao mesmo tempo, os gases supracitados são oriundos de chaminés das fábricas, indústrias, meios de transporte; derrubada e queima de florestas; pecuária intensiva/extensiva e agricultura dependente de petróleo (máquinas e equipamentos que o utilizam como combustível).


Esta progressão na emissão de gases de efeito estufa elevou a temperatura média do planeta Terra de 14ºC para os atuais 15,2ºC, de tal modo que 70% dessa ascendência ocorreu a partir de 1950. As consequências já são sentidas (IPCC, 2022). A elevação em 1,2ºC está aquecendo moderadamente os extremos do nosso Planeta, principalmente no Polo Norte.


A intensidade das chuvas, as oscilações da temperatura e o aumento do nível dos oceanos já podem ser notadas e são respostas das alterações do clima, portanto, impactando populações em diferentes lugares do mundo, inclusive no Brasil.


Com base em dados e simulações realizadas em diversas regiões do Globo, o quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) destacou que o aquecimento global é inequívoco. Desde 1950, são observadas mudanças sem precedentes no período de décadas ou milênios: a atmosfera e o oceano aqueceram, as camadas de gelo e neve diminuíram e o nível dos oceanos subiu. Caso as emissões de gases de efeito estufa (GEE) sigam em elevação nas atuais taxas, a temperatura do planeta poderá aumentar 5,4 °C até 2100.


Como consequência, o nível do mar poderá subir até 82 cm e impactar grande parte das regiões costeiras. Para o Brasil e a América do Sul, os principais impactos previstos são:

 

♦ Extinção de habitat e de espécies, principalmente na região tropical.

♦ Substituição de florestas tropicais por savanas e de vegetação semiárida por árida.

♦ Aumento de regiões em situação de estresse hídrico, ou seja, sem água suficiente para suprir as demandas da população.

♦ Aumento de pragas em culturas agrícolas.

♦ Aumento de incidência de doenças como dengue e malária, além de migração de populações.

 

Nenhum modelo de pesquisa é capaz de simular com exatidão, mas em todos os cenários de emissão, projeta-se aquecimento para o Continente Sul-Americano. Esses cenários indicam a crescente vulnerabilidade dos sistemas agrícolas, que, associada ao aumento da demanda mundial por alimentos, água e energia, representa enorme desafio para a sustentabilidade da produção, dos ecossistemas terrestres e aquáticos e dos serviços à sociedade. Estudo utilizando um cenário de aumento de 3° C até 2050 identificou que, nessa situação, o Brasil teria como impacto uma redução de até 50% na produção agrícola.


A aplicação de conhecimentos e tecnologias que gerem inovações no setor agrícola poderá minimizar impactos negativos causados pela mudança do clima. Uma estratégia robusta de adaptação não pode prescindir de um planejamento de longo prazo focado no desenvolvimento de novos processos, práticas e tecnologias. Nesse contexto, novas castas, genes e sistemas produtivos, dependerão de tecnologias e práticas capazes de amenizar danos potenciais. As inovações tecnológicas devem ser capazes de incrementar a resiliência dos sistemas produtivos, ou seja, torná-los menos vulneráveis às mudanças do clima.

 

OS EFEITOS NA VITICULTURA - Mudanças climáticas vão alterar o conceito do que se considera um bom vinho? O aumento da temperatura média do planeta, por exemplo, pode interferir no ciclo de vida da videira, afetando diretamente a sua floração e desenvolvimento dos frutos.


As mudanças climáticas afetam diretamente o terroir, que é a interação única entre o solo, clima e a videira. Em 2019, uma matéria da National Geographic mostrou como a mudança climática provocou alterações de sabor em vinhos franceses, porque o amadurecimento mais rápido das uvas, favorecido pelo calor, provocou aumento na concentração de açúcar. Em regiões tradicionalmente mais frias, como a Borgonha na França ou a região de Mosel na Alemanha, o aumento das temperaturas tem, em alguns casos, beneficiado a maturação das uvas, mas em regiões mais quentes, como partes da Austrália ou da Califórnia, o excesso de calor pode levar produção de uvas super maduras e vinhos com alto teor alcoólico.


A irrigação poderá se tornar uma prática quase obrigatória em zonas quentes, até mesmo nos países europeus que hoje proíbem ou limitam esse expediente. O início da colheita será cada vez mais cedo. Novas zonas de produção de vinho, hoje situadas em áreas ainda muito frias para a exploração em grande escala da videira, serão provavelmente incorporadas ao mapa da viticultura global, como o sul da Inglaterra, onde o aumento do efeito estufa é o principal patrono da nascente indústria local de espumantes.


Algumas das atuais áreas ocupadas por vinhas poderão ter que mudar sua vocação agrícola, como as porções mais quentes da Califórnia ou o sul da Península Ibérica, que correm o risco de se tornar quentes demais para o cultivo da videira, pelo menos daquela destinada a vinhos de qualidade. Um estudo divulgado no ano passado afirma que, se o aquecimento global não for freado nas próximas décadas, menos de um quinto das áreas dos Estados Unidos hoje consideradas ideais para a produção de vinhos de alta qualidade ficarão quentes demais (terão muitos dias com temperaturas acima dos 35° C) e impróprias para a criação de rótulos de alta gama até o final do século 21.


Na África do Sul, alguns produtores estão tomando as escarpas até há pouco ocupadas pelas macieiras em busca de zonas menos tórridas. Na Espanha, Miguel Torres, um dos mais renomados vinhateiros locais, estuda a implantação de vinhedos nas partes baixas dos Pirineus, na divisa com a França. Enfim, a perspectiva de um maior aquecimento global faz o meio do vinho se mover, talvez ainda não da forma que deveria. Os mais vulneráveis são os que hoje estão em zonas já tidas como bastante quentes para a viticultura.


A adaptação das vinícolas à mudança climática tem efeitos para além da busca por manter as características que hoje provamos nos vinhos. Várias vinícolas pelo mundo adotaram estratégias como plantio de árvores e redução das emissões de carbono, o que contribui para o combate à mudança climática de forma geral.


Outras vinícolas estão adotando práticas agrícolas sustentáveis, como a viticultura orgânica e biodinâmica, para fortalecer o solo e as videiras, além de um investimento em pesquisa para o desenvolvimento de variedades de uvas mais resistentes ao calor e à seca. Diante desse cenário, investir em tecnologia e inovação é uma necessidade. Ferramentas como o gerenciamento avançado de água e o monitoramento climático precisam ser vistas como investimentos essenciais para o futuro da viticultura de qualidade


As mudanças climáticas vêm atingindo regiões famosas na produção do vinho. Basta lembrar das geadas precoces que devastaram Chablis, na França, em 2022. Chablis também sofreu com uma tempestade de granizo de grande magnitude em 2016, quando a produção atingiu apenas 70% do potencial, por conta de perdas decorrentes deste fenômeno climático.


E recentemente, se Chablis conseguiu escapar do risco de geadas em 2024 com perdas pequenas, esta região focada em brancos elaborados com a Chardonnay não teve a mesma sorte com o granizo. Uma enorme tempestade atingiu grande parte da região de Chablis na noite de 1º de maio, fenômeno climático descrito como “devastador” por diversos produtores. As estimativas indicam perdas significativas. O impacto sobre as videiras ainda não tem uma avaliação precisa, mas os danos podem ser muito pesados. Há a sensação de que, em 25% dos vinhedos, pode haver entre 80% e 100% de perdas. Muitas videiras sofreram, e o impacto não será apenas para esta safra.


Nos últimos 70 anos Bordeaux teve um aumento na temperatura média em 2°C e, conforme estudos, essa mudança está apenas no início. Em 2019 a região teve recordes de temperaturas chegando a 41°C, fazendo com que os produtores se preparassem para maiores dificuldades com o cultivo das uvas e na produção de bons vinhos.


O Sindicato dos produtores de Bordeaux e Bordeaux Supérieur decidiram autorizar o plantio de 7 novas uvas na região, para serem usadas em vinhos Bordeaux AOC e Bordeaux Supérieur. O INAO – Institut National de L´origine et de La Qualite, órgão regulador dos vinhos franceses, aprovou formalmente o uso das novas variedades. A nova lei limita estas novas castas a 5% da área de superfície total de uma propriedade e não mais do que 10% da mistura em tinto ou branco. As uvas autorizadas são 7 variedades, sendo 4 tintas – Arinarnoa, Castets, Touriga Nacional e Marselan – e 3 brancas – Alvarinho, Liliorila e Petit Manseng.

 

♦ Arinarnoa: É um cruzamento de Cabernet Sauvignon e Tannat. Os vinhos produzidos têm cor naturalmente profunda e uma estrutura firme. É cultivada principalmente no Sul da França para as designações Vin de Pays/IGP do Languedoc. Ela se espalhou até a América do Sul, onde exemplos desta variedade são encontradas na Argentina, Brasil e Uruguai.

 

♦ Castets: É uma variedade rara de uva tinta descoberta em Bordeaux nos idos de 1870.  Essa uva foi historicamente produzida na região de Aveyron, França. Na Eslováquia, a Castets foi cruzada com Abouriou para criar diversas variedades, incluindo Hron, Nitranka, Rimava e Váh Castets.

 

♦ Touriga Nacional: Cultivada do Douro ao Alentejo, encontra na Região Demarcada do Dão seu habitat mais frutífero, faz vinhos complexos e elegantes, em terroir seco e quente; adapta-se bem a diversos tipos de solo e é resistente à maioria das pragas que atingem os vinhedos, o que facilita seu cultivo e a sua adaptação em outras regiões. Tem sido cultivada em pequena escala em países do Novo Mundo, como Austrália, Estados Unidos e no Brasil, onde há vinhos feitos com ela em três diferentes regiões, no Nordeste, na Serra e na Campanha Gaúcha.

 

♦ Marselan: De origem francesa, é um cruzamento de Cabernet Sauvignon e Grenache Noir, muito tolerante ao calor. Com coloração intensa que lembra frutas vermelhas e cacau, foi produzida a primeira vez em 1961, pelo pesquisador Paul Truel, perto da cidade francesa de Marselha. Começou a ser comercializada no Brasil a partir de 2002. Na região Sul existem vários vinhedos dessa variedade, uma vez que o clima frio e úmido, natural da Serra Gaúcha, favorece a sua produção.

 

♦ Alvarinho: Produz vinhos excelentes na costa norte de Portugal e Espanha; comumente associada ao Vinho Verde, típico do norte de Portugal. O vinho monovarietal da casta Alvarinho possui cor palha intensa e com reflexos citrinos. Essa variedade tem se espalhado cada vez mais e alcançado bons resultados em diferentes países, como EUA, Austrália, Uruguai, Chile, Argentina e mesmo por aqui, no nosso Brasil.

 

♦ Liliorila: Essa variedade de uva branca é cruzamento de Chardonnay e Barroca. A videira de maturação precoce e baixo rendimento é suscetível ao Botrytis. Dá origem a vinhos brancos encorpados e aromáticos com uma acidez relativamente baixa. É adequada para vinhos doces nobres, sendo cultivada em quantidades pequenas no Sudoeste da França.

 

♦ Petit Manseng: É uma variedade de uva para vinho branco cultivada principalmente no sudoeste da França, sendo usada geralmente em vinhos doces. O nome é derivado de suas pequenas bagas de casca grossa. É frequentemente deixada na videira até dezembro para produzir um vinho de sobremesa de colheita tardia.


Segundo os pesquisadores as variedades escolhidas, além de ter maior resistência às altas temperaturas, possuem as características necessárias que farão o vinho de Bordeaux manter seu estilo único. Estas novas variedades ficarão ao lado das variedades já permitidas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Malbec, Carménère, Petit Verdot para tinto; e Semillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris, Muscadelle, Colombard, Ugni Blanc, Merlot Blanc e Mauzac para branco.


Os consumidores de vinhos de alta gama têm expectativas elevadas, e atendê-las em um contexto de instabilidade climática é um verdadeiro teste para a vitivinicultura. Para eles, a consistência da qualidade do vinho é a chave, e qualquer variação no clima pode perturbar o delicado equilíbrio que caracteriza os grandes rótulos, verdadeiros ícones.


O artigo é um convite a esperar que os aromas e sabores dos vinhos continuem nos surpreendendo. Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao Concerto e Feira de Vinhos).

Kommentare


bottom of page