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  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“CONFUSÕES COMUNS NO MUNDO DO VINHO”

Muitos amantes do vinho confundem com frequência os Pouilly´s. A ideia neste artigo é ajudar a entender melhor as diferenças entre estes dois excelentes vinhos brancos.

O Pouilly fumé é um vinho branco gourmet. Menos conhecido que Sancerre, seu vizinho, é tão prestigioso, às vezes mais poderoso, muitas vezes mais mineral.


As vinhas Pouilly Fumé crescem na margem direita do Loire, no Nièvre, em torno da cidade de Pouilly-sur-Loire. Não deve ser confundido com Pouilly-sur-Meuse (em Meuse), Pouilly-sur-Serre (em Aisne), Pouilly-sous-Charlieu ou Pouilly-les-Nonains (ambos localizados no departamento de Loire), ou mesmo Pouilly em Moselle ou no Oise, pois existem cerca de quinze municípios com o nome de Pouilly na França. É difícil dizer a origem com certeza. Para alguns linguistas, Pouilly vem dos nomes latinos Pauliacum ou Publiacum, significando a morada de Paulo ou Publius. Para outros, viria do celta pol ou poull, que significa pântano.


Quanto à origem da segunda parte da denominação, também há duas pistas. Uma está ligada à variedade de uva que compõe o vinho, a Sauvignon Blanc. É historicamente apelidado de branco esfumaçado, porque a uva, quando madura, é recoberta por uma fina película acinzentada, uma película cerosa que protege sua superfície, semelhante a um véu de fumaça.


A outra explicação está ligada ao terroir: fumé se referiria ao “fumet” de “pedra de isqueiro” que ocorre quando as pederneiras, muito presentes no solo de Pouilly Fumé, colidem. É sem dúvida esta característica que dá tão boa fama aos seus vinhos, esta nota aromática de fumo, muito mineral, que completa, até suplanta os sabores habitualmente muito frutados do Sauvignon (limão, laranja, toranja, maracujá azedo).

Pouilly fumé é um vinhedo bem estabelecido, que reúne 130 propriedades vinícolas em 1.400 hectares de vinhedos, ou cerca de 10 milhões de garrafas produzidas a cada ano. É certo que o vinhedo de Sancerre, na outra margem do Loire, tem o dobro da superfície, mas este último se baseia em um subsolo bastante homogêneo (calcário do Kimmeridgian, como em Chablis), enquanto é mais variado em Pouilly. Sempre calcário, que produz um Sauvignon franco e vivo, também há lodos fluviais, mais areias e cascalhos, e especialmente pedras preciosas vermelhas. Nos terroirs calcários (denominados “cris”), os vinhos são particularmente elegantes e frutados, mais frescos e estruturados, com este aroma de “pedra de isqueiro” que se sente no copo.


A imagem estaria incompleta se não mencionássemos a turbulência humana da denominação. O domínio da estrela, Didier Dagueneau, liderado com talento por Louis-Benjamin desde a morte acidental de seu pai em 2008, ainda serve como uma locomotiva da mídia. Mas o pouilly fumé foi criticado depois de retirar o AOC, em 2014, dos vinhos de Alexandre Bain. Estes conflitavam com o estilo muito estabelecido, até excessivamente formatado, da denominação, embora sejam servidos em restaurantes com três estrelas Michelin em todo o mundo. A Justiça decidiu a favor do viticultor em 2017, que pode mais uma vez reivindicar Pouilly Fumé em seus rótulos. Desde então, Pouilly tem uma reputação de denominação incapaz de evoluir e presa em sua glória decadente.


Já o Pouilly Fuisse faz parte da banda de três Pouilly: Pouilly-Loché (30 hectares), Pouilly-Vinzelles (60 hectares) e, Pouilly-Fuissé (760 hectares), que produzem exclusivamente vinho branco feito a partir da uva Chardonnay. Eles estão localizados numa região da Borgonha vitivinícola, no extremo sul dos Mâconnais, na fronteira com o Beaujolais. Porém, longe dos grands crus e seus preços estratosféricos, existem vinhos brancos de qualidade exemplar, entre os melhores de toda a região. O que se chama, portanto, na linguagem cotidiana, um ótimo negócio, um vinho espetacular, fora do radar de amantes de vinhos que estão mais focados em Chablis.

Pouilly-Fuissé atravessa a denominação de Saint-Véran (também dedicada aos vinhos brancos) e estende-se por quatro aldeias, a oeste de Mâcon, duas das quais lhe dão o nome, Solutré-Pouilly e Fuissé (nada a ver, portanto, com Pouilly-sur-Saône, muito mais ao norte, em Côte-d'Or). Acima de tudo, basta olhar para a vinha dourada para contemplar o rochedo de Solutré, que culmina a 493 metros acima do nível do mar, e os seus 200 milhões de anos de história.


Esta falésia calcária, no coração das vinhas, é antes de mais nada, um sítio pré-histórico marcado pela passagem de manadas de cavalos selvagens caçados pelos nômades paleolíticos. São testemunhas disto, as gigantescas pilhas de ossos e as muitas ferramentas encontradas lá. A região acabou se tornando um símbolo político, com as peregrinações de François Mitterrand. Todos os anos, entre 1946 e 1995, no domingo de Pentecostes, o ex-presidente escalava o rochedo de Solutré, em memória de uma promessa feita entre os grupos de resistências francesas, ao final da Segunda Grande Guerra.


Aprecie o buquê de frutas cítricas, tília, avelã, amêndoa e brioche que perfuma a taça de Pouilly-Fuissé. Na boca, o vinho é geralmente opulento, mas sem peso, ficando num meio termo entre elegância e poder.


O relevo da região, com cumes e encostas com exposições variadas, forma neste solo calcário um mosaico de terroirs, ou melhor, de “climats”, como são chamados na região. É por isso que, desde 2020, Pouilly-Fuissé desfruta de vinte e dois “climats” classificados como Premier Cru, em 194 hectares, equivalente a um quarto da área da denominação. Uma estreia nos Mâconnais e uma recompensa merecida pelo trabalho dos 250 produtores da denominação.


Esta última aproveitou para mostrar sua modernidade, ao incluir nas especificações de seu premier cru a proibição do uso de herbicidas químicos. Pouilly-vinzelles e pouilly-loché não ficam atrás, já que eles, por sua vez, pediram o reconhecimento de premier crus em seus vinhedos, o que poderá ser concluído no próximo ano.


A minha sugestão é então provar uma taça de cada um dos vinhos Pouilly às cegas! Perceber os aromas e sabores característicos individuais, anotar num papel ou mentalmente e arriscar dizer que vinho que está presente em cada taça! Há uma estatística animadora: a chance de acertar é de 50%! Saúde!!!


Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).

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