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  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“PERFUME DE CHIANTI”

Tradicional vinho da Toscana, surpreende pela sua qualidade quando se prova os grandes produtores. Foi o que avaliamos na recente degustação realizada no Espaço Vinotícias neste final de semana de 06 de maio.

“Uma vez, um recenseador tentou me testar. Eu comi seu fígado com favas e um bom Chianti“, disse o doutor Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes.

Esta é uma das frases mais citadas na história do cinema, dita soberbamente por Anthony Hopkins na pele do doutor Lecter na adaptação do livro de Thomas Harris. O que pouca gente sabe é que as predileções ditas por Hannibal se apoiavam, na verdade, em uma piada médica.


Inibidores da monoamino-oxidase (IMAOs) poderiam ter sido usados para tratá-lo contra a depressão, e quais são as três coisas que o paciente não tem permissão para comer enquanto toma esse tipo de medicação? Isso mesmo. Fígado, feijão e vinho…


Como psiquiatra Lecter saberia dessa informação, então ao mesmo tempo em que tentava fazer a agente Clarice sentir-se desconfortável ele ria da própria piada, insinuando que não estava tomando seus remédios corretamente. Os alimentos a serem evitados por pacientes que fazem uso de inibidores da monoamina oxidase incluem vinho, vermute de Chianti, carne não fresca ou fígado e tofu.


Como apreciadores de vinhos, não estando em estado de depressão, vamos então conhecer um pouco da história do vinho Chianti, já que ele é um dos vinhos mais conhecidos no mundo inteiro, sendo praticamente sinônimo de vinho italiano. É também um dos vinhos mais difíceis de definir, pois são muitas as suas tendências.


Sua história também é muito longa, o que em parte ajuda a explicar esta diversidade. Uma das lendas sobre o nome Chianti vem dos cantos que os empregados na colheita cantarolavam enquanto faziam o vinho, sinal da alegria contagiante da atividade. Mas existe também a história que o nome seja derivado da palavra etrusca “Clante”, uma vez que, antes da ascensão do Império Romano, era esse povo, justamente, que habitava a região.


Os primeiros indícios de produção de vinho na região são com a cultura agrícola da população etrusca (900 a.C.). Naquela época, os etruscos investiam em oliveiras e videiras para a produção de azeite e vinho. Desde a Antiguidade a produção de vinho é difundida em todo território italiano. Por séculos a maioria das pessoas não bebia água, pois se acreditava (com razão) que o consumo estava relacionado ao alastramento de epidemias. Realmente, as condições de higiene naquela época não eram as mais recomendáveis.


Cronologicamente, em 790 d.C um pergaminho fala sobre o vinho da região, e referências de vinificação datam de 913 d.C (encontrada na Igreja Santa Cristina, em Lucignano). Em 1384 é estabelecido o primeiro Estatuto estabelecendo as regras que os senhores latifundiários deveriam respeitar quanto ao cultivo da terra.


O primeiro registro da bebida com a denominação Chianti data de 1398, com a comercialização de vinho pelo mercador Francesco di Marco Datini. Sabe-se pelos registros encontrados que os vinhos produzidos na região eram predominantemente brancos nesta época e a principal uva tinta era a Canaiolo. A partir de 1444 cria-se a regulamentação da colheita por prazos determinados, (só poderia ocorrer depois de 29 de Setembro – Festa de San Michele). Em 1716, foi criada a legislação por Cosimo III, que regulamentava a vinicultura da região, com a criação de uma das primeiras denominações de origem da história dos vinhos. A zona delimitada pelo Grão Duque da Toscana corresponde aproximadamente à atual área do Chianti Classico, entre Florença e Siena.


O vinho de Chianti tem sua história indelevelmente ligada ao Barone Ricasoli, que teve grande expressão na vida econômica da Itália, as vinhas plantadas ao redor do Castello di Brolio dão origem a vinhos desde 1141 (o Castello é a terceira mais antiga vinícola do mundo e funciona até hoje). Foi justamente nesse terroir que o Barone Bettino di Ricasoli inventou a primeira receita do vinho Chianti, em 1872, produzido e comercializado até hoje com esmero por 32 gerações da família. A história conta que o Barone Bettino di Ricasoli, conhecido como Barão de Ferro, era muito rico e feio, e que se casou com uma jovem muito bonita. Na primeira festa que o casal participou, algumas pessoas fizeram troça de como um homem tão feio como ele, poderia se casar com uma beldade daquelas. Enraivecido, o Barão passou a mão na mulher e refugiou-se em seu castelo, de onde nunca mais saiu para participar de qualquer tipo de festividade.


Em seus estudos, ele misturou as uvas tintas Sangiovese e Canaiolo, com as brancas Trebbiano e Malvasia, criando a fórmula do Chianti que durou até praticamente 1990. A Uva Sangiovese deveria dar à bebida a classe e caráter; a Canaiolo emprestaria um pouco de suavidade, quebrando a austeridade da Sangiovese. As brancas tornariam o vinho mais leve e precoce. Nesta época, as frutas eram misturadas e vinificadas juntas, em cubas fechadas. Além de dar as linhas gerais do corte, o Barone di Ricasoli passou a desenvolver o vinho, com adição de uvas semi-secas ao vinho pronto.


Este sistema, conhecido como "governo", é usado até hoje, mas vem sendo deixado de lado por ser caro e trabalhoso. O chamado “governo all'uso toscano” é uma antiga técnica permitida na produção do Chianti, com o objetivo de levar aos vinhos um caráter agradavelmente fresco e frutado para ser consumido ainda jovem.


Durante a colheita, uma pequena quantidade de uvas - de preferência Sangiovese - é separada e colocada para secar por seis semanas. Quando as uvas estão parcialmente secas, elas são prensadas. Ao fim da vinificação do Chianti, o mosto das uvas secas é adicionado, para que se inicie uma lenta segunda fermentação em barrica. O resultado é um vinho mais macio que perde um pouco da acidez e ganha conteúdo alcoólico.


Se o vinho é engarrafado logo após essa segunda fermentação, parte do gás carbônico que foi originado no processo fica conservado, criando um vinho ligeiramente frisante chamado de “Chianti di pronta beva”. Os vinhos feitos com essa técnica devem, obrigatoriamente, informar em seus rótulos que foi feita essa segunda fermentação. A bebida pode ser colocada no mercado no ano seguinte à colheita e deve ser consumida em 2 a 4 anos após engarrafado. Definitivamente, não é um vinho de guarda. A técnica lembra muito o método Ripasso, amplamente usado em Valpolicella.


O governo all’uso toscano é utilizado desde o final do século 18 e o método faz parte da receita tradicional da produção do Chianti. O Barone Bettino Ricasoli, considerado o pai do Chianti, previa o uso de 70% de Sangiovese, 15% de Canaiolo e 15% de Malvasia, juntamente com a segunda fermentação do governo all’uso toscano.


O uso do método continua sendo permitido pelas regras de produção do Chianti. Porém, a prática está quase abandonada pelos produtores. Isso porque os vinhos que passam pelo governo all’uso toscano ficam com características não tão apreciadas pelos fãs do Chianti. Os vinhos Chianti de hoje são mais encorpados do que os elaborados de acordo com a “fórmula” tradicional e, muitas vezes, são envelhecidos em barris, visando a evolução e o potencial de guarda, uma vez que os Chianti mais simples são vinhos para serem bebidos jovens.


A Toscana é um jardim de videiras, rodeado por delícias enogastronômicas, especialmente nas localidades próximas à Florença. A tradição vitivinícola está voltada majoritariamente para o vinho tinto. O Chianti, o Brunello di Montalcino, o Vino Nobile di Montepulciano, o Carmignano e o Morellino di Scansano são apenas alguns dos exemplos dos famosos tintos toscanos.


Os vinhos de Chianti mostram muito da alegria do vinho italiano, é impossível não se apaixonar por eles. Experimente uma boa taça.


Na próxima semana continuaremos escrevendo sobre os vinhos Chianti.


Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).

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