• Marcio Oliveira - Vinoticias

“UM ROTEIRO PELA CAMPANHA GAÚCHA – PARTE 1”

A retomada das atividades de enoturismo depois deste período de pandemia, acabaram resultando num belo roteiro preparado pela Zênithe Travelclub de Belo Horizonte, comandado por Mariella Miranda e Germán Alarcón-Martin, que levou 24 participantes a conhecer a região da Campanha Gaúcha.

Para quem, como eu, não voltava à região há mais de 12 anos, o desenvolvimento da atividade vitivinícola foi surpreendente, e para quem não conhecia a região, a viagem foi fonte de encantamento.


No Brasil o Pampa, que também é chamado de Campos do Sul ou Campos Sulinos ou Campanha Gaúcha, ocupa uma área de 176.496 Km² correspondente a 2,07% do território nacional e que é constituído principalmente por vegetação campestre. No Brasil o Pampa só está presente no estado do Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território gaúcho.


Consta que a região oeste-central da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, representada, pelas localidades de Santana do Livramento e Bagé, apresenta o melhor conjunto de condições climáticas para a produção de vinhos finos, no Rio Grande do Sul.


De forma geral, a altitude da região varia entre 100 e 300 m acima do nível do mar (a média é de 200m), numa topografia plana em geral com coxilhas, de relevo suave-ondulado. O clima é temperado com verões quentes e secos, a temperatura média anual é de 19ºC, sendo janeiro o mês mais quente e junho o mais frio. As geadas ocorrem com frequência que varia de 3 a 30 vezes ao ano, dependendo da posição geográfica. Os invernos são frios com mínima próximo à 0°C, e os verões quentes, com pouca pluviosidade e elevada amplitude térmica, chegando aos 40°C.


O regime de chuvas alcança uma média anual de 1.370 mm, sendo os meses de abril, maio e junho os meses mais chuvosos. Os solos são basálticos e arenosos, com boa drenagem, acidez reduzida.


No verão, entre os meses de dezembro a fevereiro, os dias ficam com iluminação solar extensa, contendo praticamente 15 horas diárias de insolação, o que colabora para a rápida maturação das uvas e ajuda a garantir uma elevada concentração de açúcar, fundamental para a produção de vinhos finos de alta qualidade, complexos e intensos.


O solo muitas vezes rochoso e arenoso com boa drenagem é ideal para o plantio da uva, além da topografia com suaves coxilhas que favorece a mecanização, o período de estiagem longo entre a floração e a colheita que proporciona um bom amadurecimento das cepas de colheita tardia, como as tintas.


A variação microclimática e os ventos que sopram nos Pampas, como o Minuano são também diferenciais para a boa matéria prima. Em 2012, havia 15 vinícolas e 1.100 ha de vinhedos. Hoje já são 1300ha plantados. O crescimento entre 1995 e 2012 foi de 166%. Hoje são 18 vinícolas.


Passando pelo Rio Grande do Sul nos anos de 1820 e 1821, o botânico francês Auguste de Saint Hilaire, (que esteve descrevendo a região da nascente do Rio São Francisco e conheceu os vinhedos em Diamantina/MG), registrou a presença de vinhedos em várias regiões, dentre elas, a região da Campanha Gaúcha, da qual comentou sobre as possibilidades de expansão da cultura da uva.


Esta cultura iniciou-se ainda na primeira fase das missões jesuíticas a partir de 1626. Desde então, a Vitivinicultura na Campanha passou por várias fases e desde a década de 90 a área plantada cresce ano após ano, sendo hoje uma das regiões vitivinícolas mais bem sucedidas do Brasil.


Com o grande objetivo de valorizar o território da uva e do vinho da região, em maio de 2020, a Associação dos Produtores dos Vinhos Finos da Campanha Gaúcha conquistou o selo do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A Indicação Geográfica (IG) confere o direito de uso do signo que atesta a origem da bebida. No caso da Campanha, a IG foi concedida na modalidade Indicação de Procedência (IP), cuja obtenção contou com fundamental apoio da pesquisa científica.


Os vinhos finos tranquilos brancos, rosados e tintos e os espumantes naturais são os produtos na IP. O selo garante que o vinho daquela garrafa expressa as características da região na qual foi produzido. Para chegar a esse resultado, a bebida deve ser fruto de uma rigorosa fase de produção de uvas na área delimitada, bem como de elaboração, na qual devem ser atendidos os requisitos estabelecidos no Caderno de Especificações Técnicas, que define desde as variedades de uva autorizadas para a elaboração dos vinhos, até a etapa de sua degustação, quando um painel de especialistas avalia se o vinho pode receber a atestação de conformidade como produto da Indicação de Procedência Campanha Gaúcha.


Dez vinícolas da Associação trabalham com enoturismo e recebem turistas: Vinícola Almadén (Miolo), Batalha Vinhas e Vinhos, Bodega Sossego, Cerros De Gaya, Cordilheira De Sant’Ana, Estância Paraizo, Guatambu, Peruzzo, Vinícola Seival (Miolo), e Vinícola Campos de Cima. A Bodega Cerro Chapéu, que, apesar de ainda não fazer parte da Associação, trabalha com um projeto de enoturismo.


Aproveitaremos a oportunidade de fazer um resumo das visitas que fizemos em algumas delas.

● PERUZZO VINHAS E VINHOS – instalada em Bagé, na Estrada do Forte de Santa Tecla. As primeiras videiras desta vinícola foram plantadas em 2003, provenientes de mudas importadas chegando atualmente a 16 ha de vinhedos das castas Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Cabernet Franc, Merlot e Marselan. A primeira elaboração se deu em 2007, e a vinícola foi inaugurada em 2008, incorporando modernas técnicas de vinificação. Hoje a produção de vinhos gira em torno de 50.000 litros por ano, com um processo de elaboração incorpora modernas tecnologias. Sua cave, no subsolo da cantina, garante que os vinhos amadureçam sob temperaturas ideais.


A enologia está a cargo de Éder Peruzzo, assessorado por Ariel Pereira. A vinícola produz uma linha com a marca Peruzzo, com foco em vinhos de alta qualidade e com passagem por barricas francesas. Há uma loja boutique para compra de vinhos e acessórios. Além da produção de vinhos, a propriedade da família também se dedica a criação de Ovinos e Bovinos.


Na PERUZZO tivemos a oportunidade de ter um jantar harmonizado em 5 tempos, provando os vinhos: ♦ Espumante Brut Rosé Champenoise (corte de 50% Cabernet Franc e 50% de chardonnay) equilibrado e fácil de beber e gostar. Aromas de levedura no início cedem espaço depois frutas vermelhas. ♦ Rosé 2021 (feito a partir da cabernet Franc), bastante frutado. ♦ Pinot Noir 2021 com muito aroma de fruta escura como ameixa e cereja. Um vinho de paladar macio e boa persistência. ♦ Ícone Cabernet Sauvignon 2013 do qual foram feitas somente 1115 garrafas, com passagem por 2 anos em barricas novas de carvalho. Engarrafado em 2015 e levado ao mercado somente em 2020. Um cabernet macio, encorpado, longo em boca e com toques tostados de coco. ♦ Marselan 2019, vinho extra (não estava previsto no programa) que se mostrou encorpado, com taninos macios, após passagem de 6 meses em barricas de segundo e terceiro uso para não sobrepor à fruta. Um vinho expressivo, com muito estrutura e muito bem integrado. Por último, o ♦ Espumante Moscatel, num corte de 80% Moscatel e 20% de Malvasia, leve e bem frutado.


● BATALHA VINHAS E VINHOS – instalada em Candiota, localizada nas terras onde ocorreu a Batalha do Seival. Nosso grupo de amantes de vinhos foi recebido pela equipe de Giovâni Peres, agrônomo e diretor da vinícola e Diretor da IP (Indicação de Procedência) dos Vinhos da Campanha Gaúcha.


A BATALHA é uma pequena propriedade no conceito de “Vinícola Boutique”, ou seja, produção em escala limitada entre 30.000 e 40.000 garrafas por ano, focada na qualidade de seus rótulos, visando surpreender consumidores. Seus vinhedos foram implantados em 2010, e seu primeiro rótulo, da safra 2008, foi produzido e vinificado em terceiros. A primeira vinificação em sua estrutura própria foi em 2013, continuando em expansão com moderna cantina, ainda em fase de construção. Nela são vinificados também vinhos de terceiros e o seu Enólogo Consultor é o renomado Adolfo Lona de Garibaldi.

A filosofia aditada para a produção é a de vinhos naturais, com mínima interferência enológica na vinificação, evidenciando em cada garrafa as características do varietal e, também, o terroir da Campanha Gaúcha.

Provamos os seguintes vinhos:

Espumante Nature Champenoise, um ótimo “blanc de blancs”, ou seja, a maioria dos espumantes brasileiros é feito a partir de um blend de uvas brancas e tintas, mas este é um espumante feito apenas com uvas brancas Chardonnay. Elaborado pelo processo natural de fermentação, na própria garrafa (Champenoise), com cor bem clara e aromas florais, erva secas e de leveduras (fermentos) e pão tostado criados pelo período de 18 meses sobre as leveduras. Paladar marcante de muita acidez, com notas de amêndoas e nozes, cremosidade e harmonia. ♦ Batalha Chardonnay 2020 – vinho de coloração amarelo palha de média intensidade e aromas frutados que lembram frutas de polpa branca (pêra e caju). Em boca, mostra boa acidez e frescor com toques longos e persistentes de amêndoa, castanha e nota floral. ♦ Rosé Batalha Pinot Noir 2019 – cor cobreada (lembra cor de casca de cebola), com aromas florais e de amêndoas. Paladar com acidez de muito frescor, com notas cítricas e de fruta amarela como damasco. ♦ Ideologia Assemblage 2021(blend de Cabernet Franc e Merlot) – rubi boa intensidade, com aromas de frutas maduras escuras e especiarias. Em boca os taninos não incomodam, tem acidez equilibrada e boa persistência.♦ Batalha Merlot 2018 – um vinho pronto para beber, com taninos maduros e paladar equilibrado. Vinhedo plantado a 256 metros de altitude. Fermentação alcoólica em tanques de inox, com maturação em barricas de carvalho francês e outra parte permaneceu em inox. Aromas que lembram tabaco, cacau e especiarias como cravo. Na boca é equilibrado, tem boa estrutura e taninos macios. ♦ Cabernet Sauvignon 2017 – cor rubi intensa, brilhante, profunda. Os aromas combinam notas delicadas de frutas escuras e toques de tostado e baunilha. Na boca os taninos ainda têm intensidade, mas estão bem equilibrados com a acidez e álcool. A passagem por carvalho integrou o conjunto. Tannat 2017 – rubi ainda violáceo com aromas intensos e algo vinosos com notas de especiarias. Paladar aveludado com taninos macios e longa persistência. ♦ Ideologia Cabernet Franc 2018 – rubi de média intensidade, com aromas de boa complexidade que lembram, especiarias, pimenta do reino e frutas maduras, algo de figo e balsâmico. Em boca é macio, com taninos médios, acidez equilibrada e de boa persistência. ♦ Ideologia Assemblage 2020 (blend de Cabernet Sauvignon, Tannat e Merlot) – cor rubi de média intensidade, com aromas de frutas escuras maduras, toques de baunilha e especiarias. No paladar é equilibrado, boa acidez e estrutura, com taninos presentes que não incomodam e combina, bem com o churrasco.


● DUNAMIS – com vinhedos em Dom Pedrito e cantina em fase de construção, a vinificação dos seus rótulos é feita na cantina da Batalha, e a apresentação dos seus vinhos foi pelo seu enólogo Vinicius Cercatto.


O nome DUNAMIS vem do grego, representando Força, Potencial e Energia Constante. O vinhedo foi plantado em 2002 na Região Ramona na zona rural de Dom Pedrito. O principal

diferencial na produção de uvas é a busca pelo melhor terroir e pela forma mais interessante de expressar cada casta. Dispõem de ampla variedade de tipos de vinhos e espumantes descontraídos, mostrando a máxima expressão de cada variedade vinífera.


A Dunamis é uma típica empresa familiar, fundada e comandada pelo engenheiro agrônomo José Antônio Peterle, herdeiro de tradição no trato da uva e o vinho. Junto trabalham o filho e enólogo Thiago Peterle, a filha Carolina Salvadori Peterle e o sobrinho e administrador, Celso Gromowski, esse, diretor Comercial.


A vinícola adota uma política comprometida com a redução do impacto ambiental com ações que envolvem a preservação da biodiversidade, reduzindo ouso de defensivos agrícolas. Flora e fauna nativas das locações dos vinhedos são respeitadas , e o uso do sistema “Thermal Pest Control” que evita o uso de pesticidas químicos e garante que pragas da videira sejam eliminadas através de controle térmico reduzindo também o consumo de água.


A vinícola é conhecida por ter lançado anos atrás o rótulo Merlot Branco, vinho feito com a uva Merlot vinificada em branco, sem contato com as cascas.


Almoço campestre a base de Churrasco com fogo de chão de carne de cordeiro, bovina e suína, harmonizado com os espumantes e vinhos de ambas vinícolas, saladas verdes, de tomate e de batata com maionese e de sobremesa, os famosos Doces de Pelotas.


Os vinhos da DUNAMIS foram provados junto com os vinhos da BATALHA, durante um gostoso almoço no estilo do Churrasco com fogo de chão de carne de cordeiro, bovina e suína, harmonizado com os espumantes e vinhos de ambas vinícolas, saladas verdes, de tomate e de batata com maionese e de sobremesa, os famosos Doces de Pelotas.

Vinhos provados: ♦ Chardonnay de Barrica 2021 – 25% do vinho tem passagem de 6 meses em barricas de carvalho francês e americano criando complexidade. Os aromas cítricos como casca de laranja, lima e limão siciliano se fundem com floral de rosas brancas e flores de campo, além de alecrim e sálvia, mesclado com baunilha e coco tostado. Paladar complexo, num vinho untuoso, de muita estrutura, longo e que pede um segundo gole. ♦ Teroldego 2021 – uma verdadeira vinificação de precisão, com passagem por barricas neutras depois de vários usos, e mesmo assim resultando em toques defumados. Aroma intenso, elegante, complexo e agradável, predominando fruta escura como ameixa preta madura, cassis e tâmaras, com leve toque amadeirado. Encorpado, untuoso, com taninos presentes e harmônicos e com final de boca intenso, persistente. Um vinho que merece guarda. ♦ Gran Reserva Tannat 2018 – maceração longa, com 20 a 25 dias de contato com as cascas. Passagem de 18 meses por barricas de carvalho americano e francês. Elaborado com uvas da histórica safra de 2018, onde o clima seco com dias amenos e noites frias propiciaram altas concentrações de aromas, cores e sabores. É um vinho intenso, encorpado e equilibrado, com taninos macios, persistentes e de qualidade, com potencial de guarda.


Semana que vem continuaremos falando sobre os vinhos que provamos na Campanha Gaúcha. Saúde !! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).