• Marcio Oliveira - Vinoticias

“UMA COLINA MOLDADA PELA MÃO DO HOMEM - HERMITAGE”

Esta lendária vinha do Rhône, com 136 hectares, oferece uma vista deslumbrante sobre o Drôme e Ardèche. Se as uvas foram cultivadas lá desde os romanos, o trabalho permanece lá, ainda hoje, muito difícil. Na realidade, o homem não construiu a colina. Mas ele criou a ermida lá encima. Uma vinha mítica, que deve tudo aos seus construtores. Sem eles, a paisagem não teria o mesmo apelo. A chamada para a videira é óbvia. O alívio impõe. De todas as paisagens do vale do Rhône, é a mais irresistível. Atrai caminhantes, cujos pés são magnetizados em direção ao topo. E lá, mesmo sem fôlego depois da subida, eles são impressionados pela visão magnífica da vinha e do rio.

Eles podem contemplar os departamentos de Drôme e Ardèche, com o rio Rhône (ou Ródano´em português) como fronteira. Eles veem outras videiras, outras denominações: Crozes-Hermitage vem logo abaixo, Saint-Péray ao sul, a longa vinha de Saint-Joseph em frente. E, mais adiante, o maciço de Vercors, o Mont Blanc. Numa visão de 360 graus, tudo é lindo nesta paisagem, com a impressionante queda da colina, a vista dos meandros do rio, tudo cria um panorama espetacular.


No sopé da colina esta uma vinícola cooperativa de qualidade, com uma visão direta das fileiras de vinhas em socalcos, acima de seu telhado. A adega tem 22 hectares da ermida e vinifica mais oito. Ela é uma das principais operadoras entre os trinta proprietários que compartilham essa pequena denominação de 136 hectares.


Algo único está acontecendo abaixo: o Rhône flui em uma direção improvável. Ao atravessar a França de norte a sul, aqui e aqui, faz um desvio, muda repentinamente de direção e flui de oeste para leste. Na margem esquerda, a encosta do Hermitage, coberta de trepadeiras, fica voltada para o sul. Esta vinha beneficiada assim da máxima luz do sol, do nascer ao pôr do sol, sem obstáculos, tem a insolação ideal para a maturidade das uvas, o que plantar além das vinhas?


O vinho é produzido nesta região desde os romanos. É bem verdade que a colina não mudou muito ao longo dos séculos. A videira chegou a partir da colonização pelos gregos e romanos, como evidenciado pelas ânforas encontradas no pé da colina. Na Idade Média, tudo já estava no lugar. Uma lista que remonta a 1380 detalha as propriedades, com os locais de parcelas que ainda existem hoje, como Greffieux na parte inferior da vinha, Méal acima, Bessards mais a oeste. Naquela época, cada habitante possuía um pedaço do vinhedo.


O Hermitage adquiriu muito rapidamente a reputação de um ótimo vinho. Louis XIV, Anne da Suécia, os papas eram seus clientes. A partir do século XVII, as grandes famílias da vinha se casaram entre si para ampliar as superfícies dos seus vinhedos. Porque cada metro quadrado faz a diferença, uma vez que não se pode ampliar a colina Hermitage. E não há lugar para plantar uma árvore ou uma cerca. Para separar dois viticultores usa-se somente piquetes ou estacas de demarcação.


No século XIX, a colina da ermida tornou-se um local para caminhadas de domingo, quando família vinham comer nas cabanas dos viticultores, organizavam-se leituras de poesia. Era época de descer para o sul pelo Ródano e Tain-Hermitage, fazendo ali uma parada obrigatória. Várias celebridades passaram por esta região, como que Chateaubriand parou por aí, como a maioria dos escritores da época. Para um amigo que perguntou como era, Alexandre Dumas respondeu: "Fique de joelhos antes de eu responder!"


A ermida evoca o cavaleiro de Stérimberg que, primeiro, se estabeleceria ali como eremita, o vinho ganhou um "h" para torná-lo mais compreensível pelos principais clientes ingleses antes do período napoleônico. Há ainda a ser lembrada a antiga técnica de dar mais cor e potência aos vinhos de Bordeaux, que naquela eram claros (e dai o termo claret que denomina a grande maioria dos Bordeaux que eram exportado para a Inglatera). Eram chamados de "Hermitage Bordeaux", ou um Bordeaux reforçado com vinho Hermitage, mais escuro e de corpo (a técnica era chamada de “hermitager” um vinho!).


O nome de Chapoutier se espalha pelo topo da colina. Assim como o de Paul Jaboulet, outra grande casa comercial produtora de vinhos. Eles estão pintados nas paredes dos terraços dos vinhedos. A partir da década de 1950, os viajantes de trem de Paris para o sul, em direção a Provence viram esses anúncios eficazes antes de parar em Tain para comprar vinho. Depois de serem contestados quando a colina foi classificada como patrimônio nacional, em 2013, eles foram finalmente preservados.


Os muros baixos não são usados ​​apenas para exibir os nomes dos principais comerciantes. Construídas pedra por pedra, à mão, elas estruturam os terraços, impedem a subsidência do solo e permitem que as videiras sejam trabalhadas em terreno plano. Estes muros testemunham o trabalho titânico realizado pelo homem ao longo das décadas. Os viticultores aprenderam a construir através das gerações como construir esses muros para que durem meio século. Na verdade, é uma pirâmide, a base tem que ser muito maior. Você vê apenas uma pequena parcela de um lado da pirâmide. Só se pode usar pedras secas sem um grama de cimento, caso contrário, a água não flui mais entre as pedras e forma bolsas úmidas que são muito prejudiciais para a videira. Em resumo, a parede além de sólida deve ser bem drenada.


Entre as paredes estão as estacas. Cerca de 700.000, com 1,50 m de altura, que transformam as encostas em porcos-espinhosos. Alguns produtores e poucos habitantes da colina aconselham que, para entender completamente o trabalho da mão do homem, ver a colina coberta de neve: Apenas postes e muros baixos emergem, e desta forma vemos como o local foi modelado pelos seres humanos ao longo de gerações e gerações de vinhateiros.


As estacas são usadas principalmente para apoiar e segurar cada videira, que acaba envolvendo-a. Elas também possibilitam o trabalho no solo, pois o arado pode passar entre duas estacas. Mas não é uma tarefa fácil, porque em áreas inclinadas, o motor está no topo de uma parcela e o arado na parte inferior, os dois elementos ligados por um guincho. Isso só é possível com uma videira apoiada em estacas, que permite que as pessoas passem pela trilha. Além disto, há sempre o risco de acidentes acontecerem, seja a queda humana ou de pedra. Tudo está em um equilíbrio delicado, até a cesta que o colhedor deve abaixar cuidadosamente sobre o terreno.


Na colina, tudo é feito pela força humana. Os métodos de cultivo permanecem ancestrais: picareta, capina manual, guincho. Além de íngreme, o chão é extremamente duro, o sol intenso. E, no entanto, nunca há cansaço. Aqui, as pessoas levam o ofício como uma verdadeira paixão.


O trabalho é ainda mais cansativo, pois 90% da terra é cultivada organicamente. Mas os esforços estão valendo a pena. O Hermitage é um exemplo para seus vizinhos. As videiras plantadas com castas brancas como a marsanne, duram facilmente cem anos. Os vinhedos tintos, feitos apenas com Syrah, são mais que centenários, são lendários. A história é bonita porque a colina é geologicamente um casamento entre os Alpes e o Maciço Central. No entanto, a Syrah também nasceu de um casamento da Ardèche, do Maciço Central e dos Alpes, como se essa uva viesse selar essa união da terra!


A origem da casta Syrah era cercada de mistérios e lendas que tornam sua história ainda mais saborosa. Alguns historiadores acreditam que sua terra natal seria o Egito e ela teria chegado à Europa primeiro pela região da Sicília, mais precisamente pela cidade de Siracusa, situada no sul da Itália, levada pelos fenícios que plantaram vinhedos na costa mediterrânea francesa.


Em outra versão, há quem diga que as primeiras mudas foram plantadas na França por São Patrício, patrono da Irlanda. Outros ainda acreditam na história que um antigo cavaleiro templário, ao retornar de uma Cruzada teria trazido mudas esta uva de Shiraz, uma cidade pertencente ao antigo império persa (localidade que hoje corresponde ao Irã).


Contudo, a história mais aceita atual e cientificamente afirma que a casta Syrah é genuinamente francesa e descende de outras espécies de uvas francesas, ambas variedades pouco conhecidas: Mondeuse Blanche (branca) e Dureza (tinta). Especialistas chegaram a essa conclusão após análises de DNA.


Seja qual for a lenda que você escolher, o certo é que a Syrah encontrou as condições perfeitas para crescer e se mostrar nesta colina do Rhône, criando o Hermitage, um dos grandes ícones do Mundo do Vinho!!! Saúde !!! (baseado em material e artigos da internet).