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  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“VINHEDOS E VINHOS DE ALTITUDE”

Recém-chegado de Mendoza, escrevo sobre um tema conversado em várias oportunidades durante as visitas as bodegas, sobre a busca por vinhedos de altitude.

O Roteiro foi carinhosamente preparado em conjunto com a Zenithe Travelclub de Mariella Miranda e German Alarcon-Martin, que comemoraram os 32 anos de vida da empresa, durante a visita na Viña COBOS.


A altitude tornou-se um ponto de discussão importante no vinho nos últimos anos. A frase “vinhas de grande altitude” é cada vez mais utilizada nos rótulos dos vinhos como um argumento de venda. Se a altitude pode ser usada para diferenciar e explicar variações entre vinhos, que efeito tem a altitude sobre o vinho e que diferença isso faz?


O que torna as uvas cultivadas em vinhedos situados em altitudes mais elevadas especiais em comparação com as uvas cultivadas em vales na mesma região? É uma combinação de aumento dos raios solares, maiores oscilações de temperatura, escassez de recursos hídricos e as próprias mudanças de altitude.

 

● O QUE É UM VINHO DE ALTITUDE? - Apenas uma associação, o Centro Europeu de Investigação, Sustentabilidade Ambiental e Avanço da Viticultura de Montanha (CERVIM), tentou definir o termo, estabelecendo a sua utilização para vinhas que estejam no mínimo 500 metros acima do nível do mar. Na Europa, 500 metros parecem razoavelmente altos, enquanto na Argentina, 500 metros são considerados bastante baixos. Praticamente todos os vinhedos da região de Mendoza, na Argentina, estão plantados entre 600 e 1.350 metros acima do nível do mar, o que mostra uma grande imprecisão no que se qualifica como alta altitude.

 

● QUAL O EFEITO DA ALTITUDE NA VINHA? - O efeito da altitude na vinha varia também em função de fatores como a latitude e a paisagem. Geralmente acontece que as temperaturas médias diurnas (a diferença entre as temperaturas noturnas e diurnas) caem à medida que a altitude aumenta. Este efeito abriu potenciais áreas de vinha que anteriormente eram consideradas demasiado quentes para a viticultura, em regiões mais quentes de Espanha, Grécia ou África do Sul, por exemplo. Um exemplo brasileiro são os vinhos de altitude da Serra Catarinense que já tem até uma Associação.


No entanto, a altura e o clima não são os únicos fatores a considerar na procura do local ideal para plantar uma vinha. Quanto mais próximo você estiver do equador, mais quente será a temperatura média anual; e os níveis de umidade, aspecto e proteção contra chuva são também muito importantes.


As montanhas podem afetar os vinhedos plantados perto delas; enquanto as montanhas de Vosges protegem a Alsácia dos ventos chuvosos de oeste, tornando-a uma das regiões mais secas da França; os Andes criam com a neve uma grande parcela da água que irriga os vinhedos na Argentina. As montanhas no Chile e na Califórnia canalizam a neblina e nuvens sobre os vinhedos que se beneficiam de sua influência refrescante.


Portanto, há vários fatores associados à altitude que tornam viável a produção de vinho de qualidade.


A estrutura e a acidez dos taninos de um vinho são predominantemente desenvolvidas na vinha e são principalmente afetadas pela qualidade da exposição da vinha ao sol e pela mudança de temperatura que a vinha sofre do dia para a noite. À medida que se sobe na elevação, a densidade e a intensidade dos raios solares aumentam, o que significa um aumento tanto na luz solar direta que atinge a vinha como na temperatura.


Vinhedos de alta altitude em montanhas e encostas tendem a receber luz solar mais direta e concentrada - para cada ganho de 300 metros de altitude, o nível de raios UV aumenta em 10-12% - o que força a fruta a desenvolver uma casca mais espessa, levando a uma maior concentração de cor e taninos mais fortes. Por outro lado, a cada 100 metros de altitude a temperatura média diminui 1 grau Celsius.

 

● CHUVAS, PRECIPITAÇÕES E ESCOAMENTO DE ÁGUA - Altitudes mais elevadas são propensas a climas mais intensos devido à forma como os sistemas de tempestades atingem as cadeias de montanhas. Os vinhedos de montanha tendem a ver proporcionalmente mais chuva do que vinhedos do fundo do vale. No entanto, por conta das encostas, o escoamento natural da água nunca tem a chance de ser absorvida - reduzindo a quantidade de umidade que penetra profundamente no solo para alimentar as raízes das vinhas.


Esta falta de água superficial força as raízes a crescerem mais profundamente, estressando a videira, o que as incentiva a colocar mais energia no desenvolvimento dos frutos, em vez de copas cheias e frondosas. Isto também influencia os rendimentos das vinhas, levando a menos cachos de uvas por videira, o que, por sua vez, permite que esses cachos se desenvolvam mais plenamente.

 

● POR QUE O VINHO DE ALTITUDE CUSTA MAIS CARO? - O custo de fornecer recursos para cultivar vinhas em grandes altitudes também é um fator chave a considerar e irá certamente afetar o preço da garrafa final. Embora o derretimento da neve forneça água para um sistema de irrigação natural em meses sem chuva (a irrigação de vinhas muitas vezes não é permitida em muitas áreas de vinhas de qualidade protegidas em todo o mundo), há um custo para a agricultura perto da linha de neve.


Os vinhedos em colinas íngremes não podem ser cultivados com máquinas. Toda a colheita, poda e proteção das plantas e uvas tem de ser feitas manualmente e a mão-de-obra é um recurso caro. Os vinhedos em áreas de altitude extremamente elevada, como Elqui, no Chile (2.000 metros acima do nível do mar), também tendem a ser isolados, por isso também é difícil encontrar mão de obra, e o recrutamento em lugares mais distantes aumenta ainda mais as despesas gerais de produção.


A vantagem de cultivar vinhas em altitude compensa estes custos adicionais. A luz solar é um requisito essencial para o cultivo da maioria das plantas. Se você puder aumentar a luminosidade da luz solar e o número de horas de sol que uma planta, como a videira, recebe, mais ela florescerá e os frutos amadurecerão mais completamente. Uvas bem maduras significam sabores intensos no vinho. Em altitude, com menos atmosfera, a intensidade, ou propriedades UV, do sol aumenta. Além disso, a faixa de temperatura diurna aumenta à medida que a atmosfera mais fina em altitude esfria mais rapidamente quando o sol se põe. Estas amplas amplitudes térmicas diurnas influenciam fortemente a qualidade dos vinhos produzidos.


Na medida em que as vinhas em encostas de grande altitude recebem mais radiação solar, ao mesmo tempo se beneficiam de temperaturas frescas, principalmente à noite, o que retarda o processo de maturação das uvas, e por sua vez aumenta a produção de compostos aromáticos na casca. Na medida que estes compostos de sabor se desenvolvem, os açúcares amadurecem, isto tende a acontecer lentamente também, o resultado é que as uvas são frequentemente colhidas com sabores totalmente maduros antes dos níveis de açúcar terem subido para níveis que tornariam o vinho muito alcoólico – digamos 14%-15% ABV.


Uvas que amadurecem em temperaturas mais frias – como as encontradas em altitude, tendem a ter níveis elevados de acidez, e criam vinhos mais elegantes e com sabores complexos apresentam também uma acidez mais pronunciada e atrativa.


Vinhedos em grandes altitudes, íngremes e expostos, também tendem a ser locais com bastante vento. O vento, desde que não seja muito forte, é muitas vezes um fator desejável na vinha, especialmente em vinhas quentes ou costeiras, pois em primeiro lugar inibe as doenças nas uvas, arrefecendo as vinhas e removendo a umidade do ar; em segundo lugar, também engrossa a casca das uvas ou pode torná-las menores e mais concentradas. As cascas grossas das uvas resultam em coloração profunda e alto teor de tanino no vinho tinto, bem como sabores de frutas mais escuras e maduras como a ameixa em compota.

 

● POR QUE ROTULAR UM VINHO COMO DE ALTA ALTITUDE? - Os produtores de vinhedos nas montanhas anunciarão com razão o fato de que seus vinhos são cultivados em grandes altitudes, pois esperam que os consumidores esclarecidos saibam que isso equivale a sabores intensos no vinho, sem ser excessivamente alcoólico e com fruta madura em compota. A altitude também abriu a possibilidade de produção de vinho em partes do mundo nunca imaginadas, como a Bolívia e o Himalaia na China. Com vantagens qualitativas e de viabilidade associadas ao cultivo de uvas em grandes altitudes, podemos certamente esperar ver mais rótulos no futuro.

 

Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação as pesquisas).

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