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  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“VINHOS INSULARES – PARTE 1”

Para a maioria dos amantes de vinho, a primeira associação para os vinhos insulares seriam os produzidos nas ilhas italianas ou gregas. Isso é compreensível devido à percepção da Itália e da Grécia como historicamente países vinícolas desde a antiguidade.


Ninguém pode argumentar que algumas das ilhas mais famosas para a produção de vinho são, de fato, italianas ou gregas. Da Sardenha e Sicília a Creta e Santorini, essas ilhas são verdadeiros tesouros de variedades autóctones e lar da cultura antiga do vinho.


No entanto, a Europa possui diversas ilhas que contribuem significativamente para a criação de vinho. Desde os solos vulcânicos dos Açores em Portugal até as costas acidentadas da Córsega na França e as vinhas encantadoras da Madeira até os vinhos dourados da ilha italiana de Pantelleria ou Lanzarote nas ilhas canárias da Espanha, cada ilha traz um conjunto único de características que criam sua expressão nos vinhos locais.


As ilhas da Croácia também têm uma longa história de vinificação que remonta aos tempos anteriores aos romanos. A geografia única da Croácia, com suas inúmeras ilhas espalhadas ao longo da costa adriática, oferece um ambiente ideal para a viticultura. Cada ilha possui suas distintas tradições de vinificação, variedades de uva autóctones e diversos terroirs, tornando-se um destino fascinante para os amantes de vinho.


E não se pode esquecer também dos vinhos feitos nas ilhas Norte e Sul que forma a Nova Zelândia e a vizinha Tasmânia, na Austrália, entre outras que vamos detalhar.

Este será nosso tema nos próximos artigos do Vinotícias.

 

CRETA – Grécia - A maior das ilhas gregas, Creta, produz vinho há mais de 4.000 anos. É conhecida por suas variedades de uva nativas como as brancas Vilana, Vidiano, Dafni e Thrapsathiri. As variedades tintas mais populares são Kotsifali, Liatiko e Mantilari. Você poderá provar todas estas variedades a qualquer momento que visitar Creta, mas a experiência de vinificação estará disponível apenas durante o pico da época da colheita (final de agosto).


Das 250 cepas de uvas nativas da Grécia, umas 45 são usadas para a produção de vinhos comerciais, e em Creta 11 delas são muito utilizadas. Atualmente muitas variedades quase extintas estão voltando a serem pesquisadas para a produção de vinho. Essas uvas são cultivadas em altitudes que variam do nível do mar a mais de 900 metros, e em solos que incluem calcário, ardósia, argila de cálcio e terra vermelha. O clima quente e as paisagens variadas da ilha criam vários estilos de vinho. Nas latitudes meridionais típicas das ilhas gregas, a colheita realiza-se no final de agosto a início de outubro.


As técnicas de condução dos vinhedos são bastante características. Em Santorini, e mesmo em Creta, as plantas crescem espalhadas sobre o solo, sem nenhum suporte. O caule tem seu desenvolvimento conduzido horizontalmente, em anéis superpostos, para proteger as folhas do vento sequíssimo. A ilha possui extensa tradição produtora de vinhos, tanto que é possível visitar as diversas prensas de vinho esculpidas em pedra, espalhadas por toda região, datadas da era veneziana (século XII).


A uva Vilana é indiscutivelmente um clássico da vinicultura da Ilha de Creta. Cria um vinho branco seco com coloração amarela e tons esverdeados. Nos aromas percebe-se flores, notas cítricas e peras frescas que trazem na boca um gosto frutado, macio e com acidez marcante. Harmoniza muito bem com saladas, peixe frito e frutos do mar.


Jorge Lucki aponta os vinhos de Creta, além de Santorini, como outra opção grega de melhor custo-benefício. A região enfrenta problemas similares a Santorini no manejo dos vinhedos, mas tem vantagens para a cultura de uvas brancas. O movimento de valorização de variedades autóctones ganhou corpo nas últimas décadas, tanto entre consumidores como produtores de vinhos. Diversos vinicultores ao redor do mundo não poupam esforços para recuperar ou salvar uvas que foram esquecidas, ou, em alguns casos, chegaram a beirar a extinção.


Na Grécia Antiga vinificação foi uma ocasião especial com oferendas aos deuses. Nos tempos modernos, continua a ser um evento muito tradicional e festivo. Começa cedo pela manhã quando todas as famílias e parentes recolhem e carregam as uvas. Tradicionalmente, a parte mais divertida do processo era a pisa de uvas. Esta antiga técnica vitivinícola ainda é praticada em algumas regiões da Grécia, e Creta em particular. É uma ocasião super única com muitas tradições e diversão.


Muitas vinícolas estão localizadas nas regiões de Chania e Heraklion. Elas oferecem a oportunidade de você participar de vinificações de final de agosto a início de outubro. É uma ótima maneira de aprender sobre a cultura vitivinícola de Creta, conhecer as vinícolas locais, saber sobre diferentes técnicas de vinificação, e, claro, experimentar o melhor de vinhos tintos, brancos e rosados de Creta.

 

SANTORINI – Grécia - Famosa por suas paisagens deslumbrantes e dramáticas vistas para o oceano, praias ensolaradas e edifícios icônicos caiados de branco com tetos pintados de azul, Santorini também é conhecida por sua viticultura única. Santorini é uma das regiões vinícolas mais emocionantes da Grécia, conhecida por vinhos brancos feitos a partir da uva local de Assyrtiko, produzida como um vinho varietal ou misturada com Athiri e Aidani.


Os solos vulcânicos da ilha, ventos fortes e métodos tradicionais de cultivo de uvas produzem vinhos excepcionais, particularmente os brancos de Assyrtiko nítidos e movidos por minerais. O Assyrtiko é um vinho branco nítido e mineral feito da uva local Assyrtiko, que prospera nos solos vulcânicos de Santorini em videiras conduzidas de uma forma peculiar. Enquanto Assyrtiko é uma uva consistente, criando vinhos poderosos, maduros e com toques minerais de pedra e fumaça, com notas cítricas; é impossível separá-la da região em que é cultivado. Primeiro de tudo, Santorini foi coberto em lava e cinzas quando um vulcão explodiu há mais de um milênio, criando um solo de forte influência vulcânica.


Além disso, a ilha recebe muito pouca chuva, então os vinhedos dependem de névoas úmidas do mar e do nevoeiro noturno para obter água. O nevoeiro e a precipitação são absorvidos pelo solo poroso e vulcânico, forçando as videiras a criarem raízes profundas à procura de água. Essas condições aumentam a intensa mineralidade e a qualidade salina nos vinhos de Santorini, ambos definindo características do vinho da Assyrtiko.


Os vinhedos de Santorini provavelmente parecerão curiosos para quem não cultivou vinho em uma ilha. Os produtores de vinho protegem suas parcelas dos ventos incrivelmente fortes que saem do mar do mar Egeu usando o método Koulara, ou videiras tecidas em forma de cesta com cachos de uva no meio. Por outro lado, os ventos fortes e quentes impedem doenças nas vinhas, o que significa que é muito mais fácil trabalhar organicamente em Santorini. A falta de argila no solo da ilha também impediu a filoxera de atacar videiras, permitindo que muitas videiras antigas sobrevivam e continuem produzindo ótimos vinhos.


Além dos brancos secos, a Assyrtiko é usada em Santorini para o Vin Santo. Neste caso, os cachos são secos ao sol tórrido de agosto ou setembro por dez dias, e envelhecido em barricas por anos. Estes vinhos doces são extremamente longevos (um século ou mais), embora seu baixo teor alcoólico. Alguns Vin Santos são resultado da combinação da Assyrtiko com a Aidani Aspro, variedade usada na Idade Média para a produção do Malvasia. A planta é vigorosa, produzindo mosto com teores relativamente baixos de açúcares e ácidos. O corte dá ao Vin Santo aromas florais de jasmim.

 

SICÍLIA – Itália - A maior ilha do Mediterrâneo, na Sicília, tem uma rica história de vinificação que remonta a milhares de anos. Apesar de ser uma ilha, na ponta da bota da Itália, tem um território bastante vasto, com cerca de 25,5 mil quilômetros quadrados. E há ainda as ilhas e arquipélagos vizinhos como as Eólias, Ustica, as Égadas, Pantelleria e as Pelágias.


A Sicília produz vinho desde antes de 750 a.C. Da Antiguidade clássica até nossos dias, essa parte da Itália foi um verdadeiro caldeirão de culturas, invadida por fenícios, gregos, cartagineses, vândalos, árabes, normandos e espanhóis, que deixaram sua marca nos monumentos e na cultura siciliana. Durante todo este tempo, a presença dos fermentados sempre foi marcante e atingiu seu ápice no século XVIII, quando os ingleses criaram o vinho Marsala. O vinho da região foi negligenciado até recentemente, porque grande parte da história moderna da Sicília foi baseada na vinificação a granel, lembrando que a região é a terceira maior produtora de vinho da Itália. Ultimamente, mais produtores focaram na qualidade modernizando métodos e equipamentos, criando a vanguarda da vinificação siciliana. Agora, existem várias regiões importantes liderando a produção e fornecendo diversidade aos vinhos desta ilha.


A Sicília produz uma gama diversificada de vinhos tintos e brancos, usando variedades de uvas locais como Nerelo Mascalese, Nocera, Nero d'Avola, Frappato, Perricone e Catarratto, Carricante, Grillo, Zibbibo, Inzolia, além de variedades internacionais. A Nero prospera no ensolarado clima da Sicília, oferecendo sabores de frutas e especiarias escuras. Os solos vulcânicos do Monte Etna contribuem para o caráter distinto dos vinhos produzidos nesta região.


O Etna, localizado no leste da Sicília, é a região vinícola mais conhecida da ilha e é bastante influenciada pelo vulcão ativo do Monte Etna. O solo vulcânico não apenas influencia a mineralidade dos vinhos, mas as inclinações fornecem o benefício da elevação e da exposição ao sol, criando uma combinação única de maturação e intensidade misturada com elegância e acidez. Os vinhos brancos, rotulados como Etna Bianco, são baseados na uva de Carricante e os vinhos tintos rotulados como Etna Rosso, são baseados em Nerello Mascalese, frequentemente misturados com a suculenta Nerello Cappuccio.


A costa sul da Sicília abriga a região de Vittoria, que é mais conhecida pelo vinho Cerasuolo di Vittoria, uma mistura tinta profundamente frutada da Nero d'Avola e da floral Frappato. Os vinhos resultantes são tipicamente de corpo médio e fáceis de beber, menos influenciados pelo solo vulcânico, mas ainda distintamente terrosos.


Completando a diversidade desta ilha há a região de Marsala, no oeste da Sicília, que produz o vinho fortificado com o mesmo nome. A qualidade dos verdadeiros vinhos de Marsala, dos grandes e tradicionais produtores sicilianos, como Florio, Pellegrino, entre outras cantinas, está muito longe do vinho de cozinha barato, próprio para molhos. Os vinhos de qualidade são ricos com camadas de aromas e sabores de nozes em estilos seco ou doce, verdadeiros néctares podendo acompanhar sobremesas ou serem bebidos como vinho de meditação.


Então, pensando num dia de muito calor, que tal provar um vinho destas ilhas? Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação as pesquisas).

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