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“A CONSOLIDAÇÃO DO CHAMPAGNE APÓS NAPOLEÃO – PARTE II”

  • Foto do escritor: Marcio Oliveira - Vinoticias
    Marcio Oliveira - Vinoticias
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Napoleão Bonaparte não foi apenas um dos maiores estrategistas militares da história. Ele também teve um papel decisivo na consolidação do Champagne como símbolo de prestígio, celebração e poder.



Vimos no artigo anterior que Veuve Clicquot se tornou uma marca de luxo internacional líder e o Champagne Grand Damme é frequentemente considerado como a criação da primeira empresa multinacional liderada por uma mulher. Em inúmeros casos, os empreendedores que prosperam em tempos de turbulência conseguem conter o medo ou a ansiedade. Eles não sucumbem à agitação ao seu redor; mantêm a calma, reconhecem as oportunidades criadas pela crise e buscam aproveitá-las. Eles reagem ao caos não com pânico, mas com precisão estratégica. Na verdade, usam a desordem para flanquear seus concorrentes.


A ousada decisão de Madame Clicquot de contrabandear champagne para a Rússia durante as Guerras Napoleônicas foi um divisor de águas. Além das dramáticas histórias de contrabando, o caso de amor da corte russa com o champanhe era profundo e duradouro.


Entretanto, a jornada do champagne não parou na Rússia. Em meados do século XIX, as casas de champagne já estavam preparando o terreno para sua expansão internacional, exportando seus vinhos para novos mercados em todo o mundo. O uso estratégico de marcas, cuvées exclusivas e marketing direcionado ajudou o champagne a atrair a elite não apenas na Europa, mas também na América do Norte, América do Sul e Ásia. A criação de cuvées de prestígio como o Cristal da Roederer reforçou ainda mais o fascínio do Champagne como símbolo de riqueza e exclusividade.


As pesquisas e tecnologia começaram a criar soluções para os problemas na produção do Champagne. A adição de açúcar aumenta o teor alcoólico e a efervescência dos vinhos, mas o problema persiste: quanto adicionar para que as garrafas não explodam? Esse problema foi parcialmente resolvido pelo químico Jean-Baptiste François, que desenvolveu uma fórmula científica em 1836. Isso reduziu a quebra de garrafas para cerca de 5%, pois os produtores agora conseguiam controlar o aumento da pressão interna na garrafa.


Os vinhos espumantes ainda tinham a metade da efervescência dos atuais, mas a produção de champagne tornou-se realmente viável, atraindo cada vez mais produtores com visão comercial. Entre eles, estavam as empresas de origem alemã Krug, Deutz, Mumm e Bollinger, bem como diversas casas francesas, incluindo Mercier e Pommery, fundada em 1858. Esses comerciantes rapidamente criaram suas próprias marcas e se estabeleceram em mercados estrangeiros. Alguns produtores de champagne, como o Conde de Villermont, relutavam em colocar seus nomes em um rótulo, mas não seu genro, Jacques Bollinger.


Na Europa continental, incluindo a França, havia uma preferência por champagnes mais doces do que os consumidos atualmente, pois o champagne era servido com a sobremesa, ou logo após. Na Grã-Bretanha, o champagne era reservado para o aperitivo. Vinhos doces envelhecidos, como o Porto e o Madeira, eram consumidos após as refeições.


Bebida excepcional e cara, o champagne tornou-se acessível à classe média e suas vendas triplicaram nos trinta anos seguintes. Em 1900, os britânicos consumiam 10.750.000 garrafas, ou 40% da produção, um recorde que só seria batido na década de 1970.


Clicquot e Heidsieck começaram a exportar champagne "seco" para a Inglaterra já em 1857, e a Bollinger seguiu o exemplo, oferecendo champagne muito seco em 1868. Outros estilos de champagne, como extra-sec, surgiram à medida que o gosto pelos espumantes mais doces foi diminuindo. Em 1874, Madame Pommery - uma empresária, viúva do mesmo calibre da viúva Clicquot, que havia aberto um escritório em Londres treze anos antes - lançou o primeiro champanhe “brut”. Por décadas, o champanhe Pommery seria o mais popular no Reino Unido, embora, por um tempo, o brut tenha despertado o interesse apenas de uma minoria de apreciadores.


Em 1870, a produção havia aumentado de pouco mais de 1 milhão de garrafas na virada do século para 20 milhões. As encostas da região do Marne foram quase inteiramente cobertas por vinhedos. Os gostos variavam de mercado para mercado, sendo os russos os maiores apreciadores de champagne doce, sendo que os czares russos bebiam champagnes com uma concentração de açúcar de 200 gramas por litro, ou seja, superior à de uma lata de Coca-Cola.


Quando Louis Roederer criou o Cristal para o czar Alexandre II em 1876, o champagne já havia se tornado a bebida preferida da realeza russa. A obsessão da corte por borbulhas transformou o champagne no artigo de luxo definitivo, reservado apenas para a elite mais rica. O Cristal, com sua garrafa transparente e produção exclusiva, personificava a extravagância do Império Russo da época.


A garrafa transparente do champagne Cristal foi especificamente concebida a pedido do Czar Alexandre II, que temia tentativas de assassinato e queria uma garrafa onde não fosse possível esconder bombas no fundo (a reentrância na base da garrafa). Esta exigência de segurança, aliada à exclusividade, transformou o Cristal num ícone cultural ainda hoje reverenciado.


Durante a guerra de 1870, que pôs fim ao reinado de Napoleão III, os vinhedos foram devastados e Paris foi sitiada. Após a retirada dos prussianos, o Champagne entrou em uma era de ouro que durou até 1914. Esse período de paz, alegria e prosperidade, durante o qual as artes e as ciências floresceram, ficou conhecido como “Belle Époque”.


Foi a era de Toulouse-Lautrec, Maxim's e Folies Bergère. Imitando a alta sociedade parisiense - o Tout-Paris - a burguesia frequentava jantares onde o champagne corria solto, livremente. A imagem desse vinho é onipresente, desde cartazes no metrô até anúncios em revistas: o objetivo é transmitir a "joie de vivre" que suas bolhas transmitem. O sexo era um tema recorrente. Uma casa de champagne decidiu retratar um velho cavalheiro atrevido ajoelhado no chão, lutando com a liga de uma jovem, presumivelmente sua amante: a casa oferecia um par de ligas com cada garrafa de champagne comprada.


Enquanto Paris se preparava para a Exposição Universal de 1889, cuja estrela seria uma estrutura metálica destinada a ser "temporária" - a Torre Eiffel - Eugène Mercier fez com que 24 bois brancos e 18 cavalos puxassem o maior barril de champagne do mundo até a capital francesa. A notícia dessa espetacular publicidade se espalhou até São Francisco nos Estados Unidos, e enquanto as grandes casas de champagne capitalizavam a imagem de vida libertina de Paris, com sua decadência e glamour do fim do século XIX, a atenção dos produtores começou a se voltar para os mercados estrangeiros emergentes, como os Estados Unidos.


Charles Heidsieck, o "Charlie do Champagne", já havia cruzado o Atlântico pela primeira vez em 1852 quando foi capturado pelas tropas da União durante a Guerra Civil Americana. Na década seguinte ao fim da guerra (1865), as exportações para os Estados Unidos totalizaram cerca de 400.000 garrafas, com a Maison Piper-Heidsieck na liderança. Em 1876, a Mumm lançou o Cordon Rouge, que se tornou um sucesso instantâneo na França.


Os turistas não tinham dificuldade em reconhecer esse champagne, justamente por causa do cordão vermelho que envolvia o gargalo da garrafa. Cinco anos depois, foi lançado nos Estados Unidos e rapidamente se espalhou por boates, restaurantes e bordéis, bem como pelos clubes de jazz de Nova Orleans, onde até mesmo a música "Cordon Rouge Galop" era tocada. Em 1903, o White Seal da Moët & Chandon era o vinho espumante mais vendido nos Estados Unidos: a Moët exportou 1.200.000 garrafas, um quarto de toda a sua produção.


No final do século XIX e início do século XX, o champagne havia se tornado mais do que um luxo europeu - passou a ser comercializado como um símbolo de status global. Casas de champagne como Moët & Chandon, Veuve Clicquot e Louis Roederer empregaram sofisticadas estratégias de branding e marketing para expandir seu alcance para além da Europa. Elas aproveitaram a crescente demanda internacional associando o champagne a celebrações, vitórias e glamour, alavancando endossos de alto nível e parcerias exclusivas com a realeza e a elite.


Com a melhoria dos transportes e das comunicações, as casas de champagne aumentaram suas exportações, tornando o espumante um item indispensável na alta sociedade norte-americana no início do século XX. Na década de 1920, a exportação de champagne para os Estados Unidos atingiu novos patamares, com casas como Moët & Chandon e Veuve Clicquot capitalizando o boom econômico do pós-Primeira Guerra Mundial.


Os "Anos Loucos" foram uma era de ouro para o champagne, que era servido à vontade em bares clandestinos, em Wall Street e em festas extravagantes. A imagem do champagne como a bebida da elite da Era do Jazz se consolidou no imaginário popular, uma reputação que perdurou ao longo do século e continua a moldar sua percepção até hoje.


A era de ouro de Hollywood levou o champagne da alta sociedade à realeza da cultura pop. Nas mãos de estrelas de cinema, milionários e frequentadores de festas da era Gatsby, o champagne se tornou a bebida da celebração, da indulgência e do glamour. De Marilyn Monroe imersa em uma banheira cheia por 350 garrafas de champagne à icônica preferência de James Bond por Bollinger, o champanhe era mais do que apenas uma bebida nas telas - era um personagem. Diretores usavam o champagne espumante como o brinde definitivo às maiores conquistas da vida.


Com o passar do século XX, a associação do champagne com a vitória migrou dos campos de batalha para as arenas esportivas. Hoje, é impossível imaginar um pódio de Fórmula 1 sem chuvas de espumante ou uma vitória em um Grand Slam de tênis sem uma taça de Champagne erguida em triunfo.


Tudo começou em 1967, quando o piloto de corrida Dan Gurney espontaneamente borrifou champagne Moët & Chandon sobre a multidão após vencer as 24 Horas de Le Mans. Essa celebração improvisada se transformou em uma tradição que define as vitórias esportivas desde então. Este momento capturou a alegria da vitória de forma tão perfeita que se tornou um elemento permanente nas comemorações do automobilismo.


O champagne esteve presente em vitórias políticas e marcos históricos. Da assinatura de importantes tratados de paz a momentos de união global, o champagne tem sido a bebida escolhida quando o mundo reconhece grandes mudanças. Em 1945, enquanto a Europa celebrava o fim da Segunda Guerra Mundial, o champagne corria livremente pelas ruas de Paris. Simbolizava não apenas a alegria da vitória, mas também o alívio da sobrevivência, o início de um novo capítulo.


Então, o que torna o Champagne mais do que apenas bolhas em uma garrafa elegante? São as histórias - as vitórias, o glamour, os triunfos - que consolidaram seu lugar na história. Do exército de Napoleão brindando após uma vitória a James Bond saboreando Bollinger nas telas, o Champagne esteve presente, em destaque, nos momentos mais memoráveis ​​do mundo. E sejamos honestos, da próxima vez que você levantar uma taça de champagne para celebrar, você se juntará a uma tradição secular de marcar os altos (e talvez até os baixos) pontos da vida com um pouco de brilho. Isso sim é algo que vale a pena brindar.


Outra célebre frase atribuída a Napoleão: “A coragem não é ter força para continuar, mas continuar quando não se tem força”! Saúde!!! Que tal comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).

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O VINOTÍCIAS foi criado por Márcio Oliveira, com o intuito de disponibilizar em um único espaço dicas de vinho, enogastronomia, eventos, roteiros de viagens e promoções. Inicialmente era disponibilizado na forma de uma newsletter para alunos, ex-alunos e amantes do vinho, com o crescimento do mercado e o amadurecimento do projeto a necessidade de um espaço maior para tantas informações se fez necessário e assim surgiu o blog e o site.

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