• Marcio Oliveira - Vinoticias

“A FERREIRINHA”

A história de dona Antónia Adelaide Ferreira, chamada carinhosamente de “Ferreirinha”, construtora de um verdadeiro império quando se fala de vinho, especialmente na região do Douro é algo que daria um belo enredo de novela. Aliás, já foi tema de uma série de televisão portuguesa exibida pela RTP1 em 2004. Criada e escrita por Francisco Moita Flores, narrou o percurso da Ferreirinha desde a sua viuvez até à morte, destacando o seu papel no desenvolvimento da produção e comercialização do vinho do Porto.

Dona Antónia Adelaide Ferreira é um dos nomes mais reconhecidos e mais falados no Douro. Uma das mulheres com maior destaque, e que continua a ter a sua história contada de geração em geração.


Ela nasceu numa família abastada do Norte com créditos no cultivo da vinha para vinho do Porto. O pai, José Bernardo Ferreira casou-a com um primo, mas este não se interessou pela cultura da família e delapidou alegremente parte da fortuna. O marido, António de Bernardo Ferreira, foi morto pelas tropas de Napoleão ao ser confundido com um desertor por lhes dirigir a palavra em francês impecável.


A rica viúva, com 3 filhos, ao invés de ficar tranquila em sua confortável casa do Porto, surpreendeu ao assumir os negócios do marido e se instalar no inóspito Douro. Dona Antónia contava 33 anos e despertou sua verdadeira vocação de empresária. Sabe-se que a "Ferreirinha", como era carinhosamente conhecida, se preocupava com as famílias dos trabalhadores das suas terras e adegas.

A Ferreirinha tornou-se tão importante que o poderoso Duque de Saldanha propôs que seu filho contraísse matrimônio com a filha dela - Maria d`Assunção, de apenas 11 anos. Dona Antónia recusou o convite, alegando a tenra idade da filha e a vontade de que fosse ela a escolher o próprio marido. O Duque, contrariado, mandou então raptar a menina, mas a Ferreirinha fugiu com ela, ambas disfarçadas de camponesas, para a Espanha e de lá para Londres.


Durante este exílio, em 1856, a viúva se casou de novo, desta vez com seu administrador, Francisco José da Silva (que viria a deixá-la novamente viúva em 1880). Com o apoio do seu segundo marido, Adelaide Ferreira lutou contra a falta de apoios dos sucessivos governos, mais interessados em construir estradas e comprar vinhos com origem na Espanha.


Lutou contra a doença da vinha, a filoxera e deslocou-se a Inglaterra para se informar de meios mais modernos de combate à moléstia, bem como processos mais sofisticados de produção do vinho. A "Ferreirinha" investiu em novas plantações de vinhas em zonas mais expostas ao Sol, não descurando as plantações de oliveiras, amendoeiras e cereais.


A Quinta do Vesúvio, a mais famosa das suas propriedades era por ela percorrida e vigiada de perto. Em 1849 a produção vinícola era já de 700 pipas de vinho. Mercê de bons acordos, grande parte dos vinhos foi exportada para o Reino Unido, ainda hoje o primeiro importador de Vinho do Porto.

Outra história que mostra seu tino e espírito empreendedor aconteceu em 1868, um ano de excelente colheita, em qualidade e em quantidade, tão abundante que os preços caíram e os viticultores não conseguiam vender o seu vinho. A Ferreirinha, para ajudar os agricultores comprou e estocou uma enorme quantidade de vinho. Dois anos mais tarde surgiu a praga do oídio, que destruiu quase a totalidade dos vinhedos, arrasando a produção e deixando o mercado sem vinho e com os preços em alta. A Ferreirinha então vendeu com facilidade e bons preços todo seu estoque aos ingleses, enriquecendo ainda mais seu patrimônio.


Outra das lendas mais conhecidas que envolve a “Ferreirinha” é a do naufrágio de um barco rabelo. Segundo reza a história, Dona Antónia Ferreira ia num barco com o Barão de Forrester, quando a embarcação começou a afundar num dos vários rodamoinhos que se formavam no rio Douro, que era bastante turbulento naquela época.


A “Ferreirinha” salvou-se, graças às saias de balão que usava e que a levaram a flutuar até à margem do Rio Douro. O Barão de Forrester acabou por ser puxado para o fundo do rio por causa dos bolsos e botas que costumavam estar carregados com moedas de libras de ouro. Para dourar ainda mais a história, dizem que ele andava sempre com este peso em moedas para impressionar a viúva e quem sabe tornar-se seu marido.


Quando faleceu, em 1896, a Ferreirinha deixou uma fortuna considerável com 35 quintas e foi a maior produtora de vinho da sua época. Seu enterro foi acompanhado por 300.000 pessoas.


Portanto, quando tiver com uma taça de vinho do Porto Ferreirinha, saiba que este vinho tem muitas, muitas histórias em torno dele!!! Saúde !!!