• Marcio Oliveira - Vinoticias

“A ORIGEM DAS UVAS”

Uma pergunta recorrente em alguns cursos de informações básicas sobre vinhos ou em degustações é sobre a origem das uvas.

Oriunda do oeste da Ásia e da Europa central, há fósseis de um tipo selvagem de uva com alegados 60 milhões de anos, encontradas nas montanhas do Cáucaso, na Ásia Ocidental, em regiões próximas do mar Cáspio, conhecidas como o Levante Fértil.


Por coincidência (será mesmo ?), a história conta que depois do dilúvio, a videira foi a primeira planta que Noé cultivou. A partir da videira, Noé produziu vinho, tomou um “grande porre”, ficou nu e foi encontrar com Deus... mas o importante é que se estima que a Arca de Noé acabou encalhando na região do Monte Ararat, por sinal, nos limites entre Armênia e Turquia, marcando não só o encontro de duas nações como também do presente com o passado, do real com o imaginário.


A Bíblia conta que a Arca de Noé se firmou nas montanhas turcas de Ararat no 150º dia do dilúvio. Oktay Belli, professor e arqueólogo da Universidade de Istambul e membro do Instituto Turco de História Antiga, está convencido de que “a Arca de Noé e o Dilúvio não são um mito, mas sim um evento real, mencionado em diferentes livros sagrados”. Já Andrew Snelling, cientista cristão que trabalha com o ministério “Answers In Genesis”, explica que “vários cientistas procuraram pela arca e a maioria deles se concentrou no Monte Ararat, onde se sabe que existe uma estrutura de madeira enterrada sob toneladas de sedimentos”.


No entanto, voltando às uvas, a classificação botânica das castas, sejam elas selvagens ou cultivadas, é um assunto tremendamente complicado, debatido por cientistas de todo o mundo, por causa de fatos como classificações de uvas selvagens que existiam há 500 ou 600 anos e simplesmente sumiram da natureza e que podem ter dado origem a outras variedades que conhecemos hoje.


A uva é um fruto prioritariamente hermafrodita. Ela contém açúcares naturais, fibras, potássio, magnésio, cálcio, ferro, antocianinas e resveratrol, que lhe conferem ação antioxidante e anti-carcinogênica.


Por conta da sua capacidade de autofecundar, é natural que além das viníferas, tenhamos espécies de Vitis como amurensis, labrusca, mustangensis coignetiae, rupestris, riparia e rotundifolia, presentes na Ásia e nas Américas, que além de sucos de uva, produzem vinhos ditos de mesa.


O cultivo das videiras na região do mar Mediterrâneo (fato que pressupõe sua “domesticação”, pois teriam sido levadas de um local de cultivo para outro) tem mais de 4 mil anos, e é através dele que as uvas se misturaram, se modificaram e deram origem à novas variedades que tomaram a Europa.


Daí a dificuldade de provar a origem das uvas viníferas. Mas novos estudos, publicado na plataforma Nature.com, conduzido pela pesquisadora Gabriele Magris (do Instituto de Genômica Aplicada da Universidade de Udine, na Itália) com um time de pesquisadores do Departamento de Agricultura, Alimentos e Meio Ambiente da universidade italiana, mapeou o genoma de 204 variedades de uvas Vitis vinifera e chegou a diversas conclusões.


Uma delas afirma que os processos que levaram até o desenvolvimento das uvas viníferas europeias foram determinados pela domesticação e transformação das uvas de mesa vindas da Ásia: "Está claro que todas as cepas cultivadas derivam de um único evento de domesticação, que aconteceu no Cáucaso, atual Georgia e Armênia, mesmo que algumas teorias afirmem que houve um outro evento de domesticação já na Europa. Desse único evento na Ásia foram produzidas em primeiro lugar as uvas de mesa, das combinações entre elas se obtiveram as uvas viníferas que posteriormente foram trazidas para a Europa, onde se recombinaram novamente", afirma a pesquisadora Dra. Gabriele Magris.


O estudo também revela que a diversidade genômica entre as uvas selvagens e as cultivadas é similar, provando que a domesticação das uvas não teve grande impacto na transformação do germoplasma. Por outro lado, o mesmo estudo demonstra algo que os enólogos e agrônomos já argumentam há séculos: que o padrão de variação genética das uvas é sim associado a variação geográfica e climática, ou seja, o terroir é capaz de modificar geneticamente uma cepa de uva.

É neste caminho que se discute por exemplo a origem da uva Chardonnay. Recentes pesquisas históricas mostram que ela de fato se originou nas colinas de Jerusalém, onde o solo é rico em calcário e argila. Obviamente seu nome viria do hebraico e não do francês. Essa uva foi levada à França pelos cruzados, após a conquista da Palestina, que em francês era chamada de “Porte de Dieu” (Porta de Deus), ou “Sha’har-adonay”, em hebraico. Cuja pronúncia nos remete à Chardonnay. Fato ou “fake”? O que vale é o resultado maravilhoso do vinho branco e do champanhe, feitos com esta casta.


Voltando ao termo selvagem, “sauvage” em francês, chegamos na origem da mais popular uva tinta do mundo, a Cabernet sauvignon. Por muito tempo considerada uma versão mais moderna da casta Biturica - plantada pelos romanos para elaborar seus vinhos - após pesquisas genéticas na década de 90, revelou-se fruto de um cruzamento (ao acaso?) entre a Cabernet franc e a Sauvignon blanc, de cada um dos ascendentes herdando seu nome.

Para dar uma pitada de curiosidade a mais ao tema do artigo, a Sauvignon blanc, que tem berço em Bordeaux, possivelmente descende da velha Savagnin (corruptela de “sauvage”), uva que ainda hoje compõe o vinho amarelo (Jaune) do Jura.


Já a Cabernet franc, outrora conhecida como Bouchet, foi trazida pelo cardeal Richelieu, no século 17, do Vale do Loire para Bordeaux, onde se celebrizou. Bordeaux que nos remonta a outra casta tinta, a Merlot. Cujo nome deriva do pássaro Merle - de muito bom gosto, por sinal - que adora comer essa uva.


Mas se acha que o assunto parou por ai, temos uma surpresa! Você já ouviu falar das filhas da Magdeleine Noire des Charentes?


Pesquisadores franceses da Montpellier SupAgro dizem que essa desconhecida e quase extinta casta, sobre a qual não havia qualquer referência na literatura científica, é a mãe de duas uvas tintas muito conhecidas: da popularíssima Merlot, uma das variedades mais importantes de Bordeaux e de tantas regiões vinícolas mundo afora; e da Malbec, cepa também originária da França, onde é chamada de Cot, que mais recentemente se tornou a uva emblema da Argentina.


Os cientistas descobriram que o DNA da Merlot, principal foco de seu trabalho, herdou da obscura Magdeleine Noires des Charentes 58 regiões genéticas, 55 em seu núcleo e 3 no cloroplasto, organela que é usina de energia das plantas. Desde o final da década de 1990, análises genéticas sugerem que a Merlot é fruto de um cruzamento espontâneo da tinta Cabernet Franc (que seria seu “pai”) e de uma uva não identificada, provavelmente desaparecida. Segundo a equipe da Montpellier SupAgro, que publicou um estudo com os achados na edição online da revista científica Australian Journal of Grape and Wine Research, a Magdeleine Noire des Charentes é essa uva misteriosa que forneceu parte do material genético da Merlot.


Já a Malbec, sempre de acordo com o trabalho dos pesquisadores, é resultante do cruzamento da Magdeleine e da Prunelard, cepa tinta da região de Gaillac, no sul da França.


As primeiras videiras da Magdeleine foram encontradas em 1996 perto da cidade de Saint-Malo, na região da Bretanha, noroeste da Franca, onde a vinha era cultivada no fim da Idade Média. As plantas estavam num local abandonado que ocupava as encostas de um morro, onde hoje não há mais vinhedos. Posteriormente, mais exemplares da obscura variedade foram localizados em quatro áreas na região de Charentes, centro-oeste da França. Ali a uva, de madurez precoce, era chamada pelos produtores de Raisin de la Madeleine ou Magdeleine.


O nome usado pelos produtores e a literatura, nomeou a uva de “Magdeleine Noire des Charentes”, escreveu o pesquisador francês Jean-Michel Boursiquot, especialista no estudo das variedades de uvas, bem como a famosa cientista Carole Meredith, da Universidade da Califórnia em Davis, hoje oficialmente aposentada, que também é uma das autoras do trabalho.


Os pesquisadores acreditam que a determinação da origem genética da Merlot, uva que dá vinhos frequentemente descritos como macios e redondos, explica suas principais características. Da Cabernet Franc, herdou a textura pouco agressiva de seus componentes fenólicos, sobretudo os taninos e as antocianinas. Da Magdeleine, recebeu como legado a madurez precoce e a produtividade.


Se o trabalho dos cientistas estiver correto, a Merlot exibe parentesco com uma série de uvas, algumas extremamente conhecidas. Já se sabia há tempos que ela é meia-irmã da Cabernet Sauvignon (fruto do cruzamento natural da Cabernet Franc e da Sauvignon Blanc).


Agora os franceses determinaram que a Merlot também é meia-irmã, por parte de mãe, da Malbec e, por parte de pai, da Carménère, uva de origem francesa hoje considerada o emblema do Chile. A Carménère, que durante muito tempo foi confundida com a Merlot nos vinhedos chilenos, é resultado da cruza natural da Gros Cabernet (também chamada de Trousseau, uma uva comum na região do Jura – na França) e do Cabernet Franc.


“Esses resultados jogam luz sobre a origem da Merlot e das relações entre vários cultivares do sudoeste da França”, afirmou Boursiquot. “Nossa descoberta do papel genético central de um cultivar anteriormente desconhecido (Magdeleine Noire des Charentes) na origem de algumas variedades significativas reforça a importância de um grande trabalho de exploração, antes que seja muito tarde, para descobrir genótipos originais que ainda não foram coletados ou referenciados.”


Para terminar, aproveito para esclarecer que a Syrah (ou Shiraz), revelou ser sob a pesquisa genética a “filha” de dois ancestrais obscuros do sudeste da França, a Dureza e a Mondeuse blanche. Muita gente acredita que ela tem berço em Siracusa, na Sicília, ou na antiga Pérsia, na cidade de Shiraz e teria sido trazida para a França pelos cruzados. Além disto, esta uva teria sido a uva que fez o vinho da última ceia de Jesus !


Pode ser que este artigo diminua o seu romantismo a respeito da origem das uvas, mas a ideia era despertar sua curiosidade sobre um assunto menos discutido quando o vinho é bom Façamos um brinde!! Saúde !! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).