• Marcio Oliveira - Vinoticias

“VINHOS DE MISTURAS DE UVAS”

Misturar variedades de uvas para criar um vinho melhor é uma prática fundamental no mundo do vinho comercial.

Um vinho feito de uma variedade como Malbec, ou Chardonnay, tem origem a partir de um mesmo tipo de uva. Às vezes, os produtores de vinho usam uvas de diferentes parcelas de um vinhedo ou de diferentes regiões para criar um rótulo, mas são todas da mesma casta. Em alguns países ou regiões a variedade predominante precisa ser 75% da mesma uva, enquanto na Europa é geralmente 80% e na Argentina é 85%. É possível para as vinícolas adicionar outras uvas a um varietal para realçar os elementos e ainda rotulá-lo como de um vinho de um único varietal, ou que é chamado de monovarietal.


Os vinhos feitos a partir de misturas são o que seu nome sugere. Eles normalmente consistem em pelo menos 40-50 por cento de um tipo de uva e uma mistura menor de duas ou mais outras uvas. Geralmente a mistura torna os vinhos mais complexos, maximizando a sua expressão. Pode realçar aromas, cor, textura, corpo e acabamento, tornando-o um vinho mais arredondado, equilibrado, complexo, mais interessante.


Se um vinho não tem um aroma intenso, por exemplo, um vinicultor pode adicionar uma porcentagem de uma uva de aroma mais potente proveniente de outros vinhedos. O vinicultor também pode criar misturas a partir de vinhos envelhecidos em diferentes barris de carvalho com intensidades de tostas diferentes, ou vinhos fermentados em vários tipos de recipientes ou apenas colhidos em diferentes fases de maturação. Em resumo, o vinicultor cria misturas sob várias formas, visando que o produto final seja melhor que os vinhos feitos a partir de uma única casta.


Na Argentina, o coração da maioria dos blends é feita a partir da uva Malbec. O Merlot pode ser usado para dar ao vinho um aroma melhor e torná-lo mais fresco ou suave. O Cabernet Franc ou Sauvignon são frequentemente adicionados para dar estrutura ou concentração de tanino para fazer um vinho mais poderoso, mais potente. A criação do blend perfeito depende também das características do ano, com a evolução da safra, e da expressão de cada uva. As possibilidades de combinações que resultam em um blend de qualidade são infinitas.


Entretanto, cabe lembrar algumas variedades costumam não ser misturadas. Os vinhos brancos tendem a ser vinificados sob forma pura. No entanto, existem algumas exceções, especialmente em certas regiões da Europa onde duas ou mais uvas brancas são usadas. A Pinot Noir é um tipo de uva que raramente é misturado. É por isso que, quando você está com um tinto da Borgonha, provavelmente ele será um Pinot Noir 100%.


A grande maioria das uvas pode gerar boas misturas. À medida que as uvas são colhidas, o enólogo avalia a qualidade da safra e qual será a melhor mistura das uvas. O verdadeiro poder da mistura das variedades de uvas reside no potencial para adicionar complexidade ao vinho resultante - múltiplos sabores e aromas, algo para estimular cada parte da sua boca, um vinho que tem bastante fruta no início e algo que resta para o final. É por isso que os produtores de vinho em Chateauneuf-du-Pape, no sul do Rhône, estão felizes por ter 13 uvas para trabalhar, o que é permitido pelas regras de denominação. A mistura desempenha um papel importante na maneira como eles fazem vinhos de grande distinção há centenas de anos. E há vinhos que podem receber o rótulo de Chateauneuf-du-Pape tendo sido feitos com uma única uva ou as 13 que são permitidas na denominação.


O segundo objetivo de uma mistura de vinhos é a busca do equilíbrio - aquele casamento feliz de frutas, ácido, tanino, álcool, cor e (às vezes) o afinamento na barrica de carvalho que faz grandes vinhos encantarem os seus provadores. Essa é a razão pela qual, por exemplo, os produtores de vinho em Bordeaux mesclam a expressão agressiva do Sauvignon Blanc com a riqueza untuosa do Sémillon para produzir misturas de vinhos brancos memoráveis.


Historicamente, sabe-se que certas variedades de uva possuem sinergias, como as variedades de Bordeaux e do Vale do Rhône. Essas sinergias geralmente se traduzem no Novo Mundo também, e é por isso que você encontrará muitas combinações incríveis de "estilo Bordeaux" ou "estilo Rhône" criadas no Chile, ou na Austrália, ou na Califórnia, entre outros países ou regiões produtoras do mundo do vinho.


Quando você observa os blends de vinho no mercado hoje, você percebe algumas misturas comuns: Cabernet é comumente misturado com Merlot. Se a uva for Syrah a mistura será com Grenache e Mourvèdre. Basicamente as misturas são resultado de:


♦ Tradição: regiões vinícolas históricas desenvolveram combinações de vinhos por um longo período de tempo. As misturas francesas clássicas são as referências de hoje.


♦ Região e Clima: O que cresce junto, vai bem quando se mistura junto. Variedades de uva de uma mesma região e que se adaptam ao mesmo clima geralmente são bons parceiros de mistura. (Talvez por isso, por serem de diferentes regiões e climas, que Cabernet e Pinot não costumam ser misturados).


A ideia de uma mistura é destacar as melhores características de cada uva e complementar com as demais uvas gerando um vinho equilibrado e melhor. Entretanto, a mistura tem seu próprio conjunto de armadilhas e perigos. Mesmo que uma mistura tenha um gosto promissor, a bioquímica pode mudar tudo repentinamente.


Um blend terá pH e acidez diferentes de qualquer um dos vinhos componentes, o que significa que a composição química e a estabilidade devem ser analisadas novamente. A mistura pode ser uma ótima maneira de lidar com acidez (pH excessivamente alto ou baixo), mas uma mistura de dois vinhos de pH alto, por mais saborosa que seja, ainda pode ter problemas ao longo da fase de afinamento. Portanto, o blend deverá ser acompanhando, testado e ajustado se necessário.


A mistura de vinhos que passaram e que não passaram pela fermentação malolática pode criar problemas de estabilidade, reiniciando a malolática dentro da garrafa! Por isso, muitos vinicultores preferem manter os vinhos misturados dentro de tanques de aço inox ou barricas, possibilitando monitorar o nível de SO2, e o engarrafamento é adiado até que se tenha certeza de que o vinho está estável.


Da mesma forma, misturar vinhos quando um ou mais contém açúcar residual pode reacender as fermentações de levedura. As misturas de açúcar residuais podem exigir filtração estéril ou tratamento com sorbato para suprimir o fermento. Antes do engarrafamento, também será necessário dar tempo suficiente para garantir que o vinho fique estável.


As misturas de vinhos são comuns a várias regiões do mundo. Entre os exemplos mais comuns podemos dizer que Rioja não é uma uva nem um estilo. É uma mistura de Tempranillo, Mazuelo, Graciano, a uva branca Macabeo também é permitida no lote. O vinho base é o Tempranillo que, quando envelhecido em barricas de carvalho, apresenta deliciosos sabores de morango e creme, as demais variedades agregam sabores e caracteres diferentes.


É a habilidade e a visão do enólogo que irão determinar o estilo do vinho. Conhecer as características de cada componente e combiná-los vem com a experiência. Não há duas safras iguais, então as porcentagens de uvas usadas dependem de vários fatores.


Champagne é uma mistura clássica de Chardonnay com as variedades de uvas tintas Pinot Noir e Pinot Meunier. Embora o Cava espanhol seja feito da mesma forma que o Champagne, as uvas utilizadas são diferentes; Macabeo, Chardonnay, Xarel-lo, Parellada.


Um dos vinhos mais conhecidos do sul da França é o Chateauneuf du Pape, do Rhône. Treze variedades de uvas estão autorizadas a fazer este vinho. No entanto, a maioria é feita com Grenache, conhecido como Garnacha na Espanha, Syrah, Cinsault e Mourvedre, conhecido como Monastrell na Espanha. É um vinho tinto encorpado com uma complexa gama de sabores de frutas vermelhas, especiarias e notas de couro.


Uma das misturas clássicas da Itália é o Chianti da Toscana. Pode ser feito exclusivamente de Sangiovese, conhecido por seus sabores de cereja preta e acidez notável, porém, até 30% do blend pode ser feito de outras uvas, como Cabernet Sauvignon ou Cabernet Franc que não poderão exceder o limite de 15% em conjunto, enquanto uvas brancas (cada vez menos comuns neste corte), não podem ultrapassar o limite de 10% do vinho.


Ainda na Itália, Soave é uma das famosas misturas brancas clássicas da região de Veneto feita a partir da variedade de uva autóctone Garganega junto com Trebbiano e Chardonnay. A qualidade pode variar muito, por isso recomendo que invista um pouco mais para obter um vinho de melhor qualidade.


A mistura de Bordeaux de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc é a mais famosa das misturas clássicas de vinho. No entanto, os brancos de Bordeaux costumam ser esquecidos pelos tintos de maior prestígio, mas os vinhos brancos de alta qualidade são feitos de uma mistura de Semillon e Sauvignon Blanc e definitivamente vale a pena conferir.


Na verdade, Sauternes, pense no Chateau Yquem, também é de Bordeaux e é feito de uma mistura de Semillon e Sauvignon Blanc. São vinhos ricos e deliciosamente doces com sabores cítricos e mel equilibrados com uma alta acidez.


O Priorato, no norte da Espanha, é famoso por produzir tintos encorpados com sabores de frutas vermelhas, pimenta e minerais. Aqui, novamente, este vinho é uma mistura de várias uvas, nomeadamente Garnacha, Shiraz e Cariñena.


Uma pergunta comum aos amantes de vinhos é o que é melhor: degustar as notas tradicionais de cada uva ou as misturas que valorizam complexidades?


Para os defensores dos vinhos varietais, eles são os únicos que apresentarão o gosto verdadeiro daquela casta e a expressão do sabor e clima da região produtora. Por outro lado, os amantes dos vinhos de misturas defendem a tese que o processo produtivo maximiza os aspectos positivos de cada casta elevando a qualidade do vinho final obtido.


Desta forma, o mercado se beneficia de ter as duas formas de vinhos e você poderá escolher o que mais agradar seu paladar ou harmonizará com a sua alimentação. Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (baseado em artigos disponíveis na internet e minhas considerações)

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