• Márcio Oliveira

CONHECENDO OS SUPERTOSCANOS


Apesar da fama dos vinhos italianos ter origem com os grandes vinhos feitos na época do Império Romano e dos quais só temos notícias por conta de crônicas de escritores deste período, não há notícia de vinhos notáveis durante o período que seguiu com a Queda do Império e com a Idade Média. Perdidos num mar de regiões produtoras, o foco neste período era fazer vinho em quantidade para alimentar o corpo. Para muitos críticos de vinho, ou conhecedores com um grau de conhecimento mais avançado, servir vinho italiano num jantar mais sofisticado na década de 60 ou 70 seria considerado uma gafe ou talvez uma ofensa ao convidado.

A virada do século XXI viu um verdadeiro renascimento do vinho italiano, quando a revista americana Wine Spectator selecionou por dois anos consecutivos, como melhor vinho do mundo, dois toscanos: em 2000 o vinho escolhido foi o Solaia 1997 e em 2001, foi o Ornellaia 1998, eleitos “wine of the year”. O interessante que estes vinhos não eram clássicos italianos como Barolos, Brunellos di Montalcino ou Amarones; eram vinho considerados “fora da lei”, resultado de um revolução enológica iniciada algumas décadas antes.Esta revolução começou no final dos anos 60, e o responsável foi o Marquês Piero Antinori, produtor do Solaia, que misturou uvas clássicas francesas com a toscana Sangiovese.

REPETINDO O PASSADO?

Carmignano é uma comuna italiana de 12.000 habitantes localizada no norte da Toscana, a cerca de 20 km de distância da Florença. Carmignano é considerada pelos italianos a primeira região demarcada de vinhos (a região do Chianti só veio a ser demarcada a partir de 1716, quando Cosimo III de Médici, o penúltimo de sua família a ser Grão Duque da Toscana, apontou que as três cidades da Lega del Chianti, mais uma parte da vila de Greve, estavam aptas a produzir o vinho de nome Chianti). Desde o ano de 804 há registros em documentos florentinos da atividade agrícola na região de Carmignano. Por volta de 1533, Catarina de Médici, cuja família controlou boa parte da Toscana por centenas de anos, casou-se com Henrique II que se tornou Rei da França em 1547, e sob a influência dela a Cabernet Sauvignon foi introduzida na região de Carmignano.

Desde essa época o blend era de Cabernet Sauvignon e Sangiovese. Carmignano tem uma área com um décimo da superfície de Montalcino e um centésimo da área de Chianti Classico e por isto este tesouro é tão pouco conhecido mesmo tendo uma história rica para ser provada em uma taça de vinho.

O PAPEL DOS ANTINORI

Ao redor de 1940 o Marquês Mario Incisa della Rocchetta, criador de cavalos de raça, e grande apaixonado por vinhos franceses, decidiu realizar o sonho de criar um vinho também de raça. Depois de ter notado semelhanças geográficas e climáticas da área de Livorno (Toscana) com a de Graves (Bordeaux), importou do Chateau Lafite (do amigo Elie Rothschild), uns clones de uvas cabernet sauvignon e cabenet franc; e os plantou na Tenuta San Guido. Depois de um cultivo com grande cuidado, em 1942 ficaram prontas as primeiras garrafas de Sassicaia, produzido somente para uso familiar, já a primeira safra a ser comercializada foi de 1968.

Inspirado pelo exemplo do primo e apesar de ser o 26º representante de uma longa tradição de vinhateiros, o Marquês Piero Antinori resolveu inovar e foi pioneiro contra uma série de regras que imperavam na região, conduzindo a erros tanto na forma de plantar a vinha, como na forma de vinificar o vinho. Contando com a ajuda do enólogo Giacomo Tachis, Piero Antinori introduziu mudanças radicais como a diminuição dos rendimentos do vinhedo, antecipação da colheita de algumas vinhas, o uso de tanques de aço inox com controle de temperatura para vinificação de brancos, fermentação malolática para vinhos tintos, uso de barricas novas de carvalho da Eslavônia e França, engarrafamento esterilizado e sobretudo, o uso de castas estrangeiras não permitidas na região, como a Cabernet Sauvignon, em blends com a Sangiovese.

O processo tinha tudo para dar errado, mas a perseverança do Marques Antinori resultou nos Supertoscanos, os fora-da-lei mais famosos do mundo do vinho.

No ano 1970, quando a região do Chianti vivia uma crise de qualidade inferior, com preços cada vez mais deteriorados, Antinori decidiu plantar em uma de suas grandes propriedades, a Santa Cristina, bem no meio da região do Chianti Clássico, um vinhedo com Cabernet Sauvignon, além de outras experiências que fez com castas como Chardonnay, Sauvignon Blanc, Gewurztraminer, Cabernet Franc, Merlot e Pinot Noir. Em 1971, produziu pela primeira vez o Tignanelo. Não usou a branca Trebbiano, tradicionalmente utilizada para dar leveza e acidez ao Chianti, e acrescentou 15% de Cabernet Sauvignon e 5% de Cabernet Franc, num corte com a tradicional casta toscana Sangiovese. Por conta destas inovações, a denominação “Chianti” não pôde ser usada e o vinho teve de ostentar em seu rótulo a classificação mais baixa da enologia italiana: “vino da tavola”. O Tignanello foi, então, o primeiro “supertoscano”, expressão criada por ingleses e americanos para se referir aos vinhos desta região que, apesar de serem na época, pela lei italiana, apenas “vino da tavola”, alcançavam alta qualidade e preço.

O RECONHECIMENTO

Os críticos americanos e ingleses, começaram a chamar estes vinhos de Supertuscan (provavelmente o primeiro a usar o termo foi o James Suckling, fundador da revista Wine Spectator), para diferenciá-los dos outros tintos de baixa qualidade que levavam no rótulo a mesma denominação de “vinho da tavola”.

A iniciativa do Marques Antinori foi seguida por outros produtores toscanos e mesmo de outras regiões italianas. Este renascimento do vinho aconteceu em grupo e mudou a imagem dos rótulos italianos, mostrando uma mudança de paradigma da quantidade para o da qualidade. Além do Tignanello, produz o Solaia, num corte predominante de 75% de Cabernet Sauvignon, com 5% de Cabernet Franc e 20% de Sangiovese.

Outros destaques como supertoscanos são o Sassicaia, produzido pela Tenuta di San Guido, e o Guado Al Tasso, vinho produzido a partir da safra de 1990, com um corte de 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 10% Syrah. Seguiram-se outros como o Darmagi, produzido por Angelo Gaja, um Cabernet Sauvignon 100% que viria a receber prêmios em todo o mundo. E o mítico L´Aparita, um Merlot 100%, feito pelo do Castello di Ama, comparado por muitos críticos ao grande Chateau Petrus de Bordeaux.

O reconhecimento internacional criou mudanças no critério interno e em 1994, um decreto ministerial criou a DOC (Denominazione di Origine Controllata) Bolgheri, que permitia ao Sassicaia ser rotulado como “DOC”. A consagração definitiva do estilo veio depois que Robert Parker, em uma degustação à cegas, deu 100 pontos para o Sassicaia 1985, achando que fosse um Mouton-Rotschild 1986. Muitos rótulos entretanto, continuam como “vino da távola” ou recebem atualmente a classificação de IGT-Toscana ou Indicazione Geografica Típica, mais flexível que a de uma DOC.

O importante a ressaltar a respeito dos vinhos que refizeram o nome da Itália é que, apesar de muitos serem feitos com castas estrangeiras e seguindo novas tendências do consumo, são vinhos inconfundivelmente italianos. Enquanto muitos vinhos californianos, chilenos ou australianos, feitos com Cabernet Sauvignon, e maturados em carvalho novo, se confundem, sendo difícil distinguir sua origem, os “supertoscanos” têm um caráter claramente italiano. Por exemplo, o Tignanello não deixa de ser um Chianti, modificado e refinado.

A qualidade foi se estendendo como um dogma por várias regiões que se renovaram, revolucionaram e fizeram com que o Brunello di Montalcino Casanova di Neri Tenuta Nuova 2001, conquistasse o reconhecimento de “wine of the year” da Wine Spectator em 2006.

Hoje temos basicamente 3 categorias destes vinhos:

- supertoscanos feitos de Sangiovese e outras uvas autóctones (mas fora das normas previstas pelas DOC e DOCG),

- supertoscanos feitos com blend de uvas locais e uvas internacionais e

- supertoscanos feitos apenas com uvas internacionais.

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