• Márcio Oliveira

GARNACHA, GRENACHE E BOAS SURPRESAS NA TAÇA


Num roteiro de aprofundar o conhecimento sobre uvas, degustamos nesta semana os vinhos da casta Garnacha numa das Confrarias que oriento. E o resultado foi surpreendente, com vinho espetaculares, pois a uva que antes usada quase sempre para vinhos de corte como o Chateauneuf-du-Pape, mostrou todo o seu valor em vinho varietais também.

A uva Grenache é uma das mais plantadas em todo o mundo, ocupando cerca de 200.000 hectares, sendo 80% deles localizados na França e Espanha, regiões que possuem o maior cultivo da cepa. Se adaptando extremamente bem a regiões que possuam clima quente e seco, a uva Garnacha é utilizada na elaboração de diferentes tipos de vinhos, sendo encontrada em maravilhosos exemplares de vinhos tintos, vinhos roses e até mesmo vinhos de sobremesa.

Com origem no norte da Espanha, em Aragão, perto da região de Rioja, chamada de Garnatxa nos países Bascos, a uva também leva o nome de tinto aragonês. Na França é a Grenache, presente nos vinhos do Rhône Sul. Historicamente, a Côroa de Aragão se expandiu desde o Século XII ao XVII pela França e pela Itália sendo esta uma das razões dela estar presente nos três países na região do Mediterrâneo. É a uva dos vinhos rosés na Provence, e vale a pena prestar atenção em Tavel no Côtes du Rhône, única região demarcada na França autorizada a produzir exclusivamente roses. Na Espanha está presente nos rosés de Navarra no extremo nordeste do país.

Uva de amadurecimento tardio, gosta de muito sol para desenvolver-se e pouca água, tendo solo ideal em Rioja, no nordeste da Espanha, onde perdeu espaço para Tempranillo e migrou para o sul com sucesso estrondoso na região de La Mancha, encontrando condições excepcionais para seu plantio. Seguiu caminho mais ao sul no Priorato a sudeste e Jumilla a sudoeste. Está presente em toda a borda do Mediterrâneo espanhol e francês e nas ilhas, principalmente, Sardenha onde ganha o nome de Cannonau.

Por possuir altas taxas de açúcar, os vinhos originados a partir da casta são, na maioria das vezes, exemplares com graduação alcoólica elevada, motivo pelo qual muitas vezes a uva Garnacha é utilizada em vinhos de corte. Apesar da maior parte das vinhas da uva serem encontradas na França (100.000 hectares) e Espanha (69.000 Hectares), a casta também é cultivada nos vinhedos da Itália (22.000 hec.), México, Estados Unidos (4.000 hec.), Austrália (3.000 hec.) e Brasil. Com estrutura bem específica, a coloração da uva Garnacha é mais clara do que a habitual encontrada em cepas tintas, além de possuir frutos com pele bem fina. Seus vinhos são excelentes opções para acompanhar momentos gastronômicos, graças a sua riqueza de estilo e versatilidade. Os rótulos roses são perfeitos na companhia de pescados, já os vinhos tintos, exaltam a complexidade da uva Garnacha quando acompanhados de frutos do mar ou legumes grelhados.

Os seus tintos são vinhos que dependem do terroir. Se criados em regiões mais frias teremos um Garnacha austero. Se vindo de climas mais quentes teremos um vinho suculento e levemente ácido, com aromas clássicos de frutos vermelhos com uma sensação elevada de álcool na boca. A uva também tem uma versão branca - a Garnacha Blanca ou Grenache Blanc que compõe o Chateauneuf du Pape branco e mais uma dúzia de excelentes brancos na Espanha.

PRINCIPAIS REGIÕES PRODUTORAS DOS MELHORES GARNACHAS

ESPANHA – RIOJA: Rioja é uma antiga Denominação de Origem da Espanha, cortada pelo rio Ebro, a nordeste de Ribeira Del Duero, e recebeu fortíssima influência dos Romanos e suas tecnologias de engenharia, vinificação e desenvolvimento para a época. Depois os Monges trataram de desenvolver e aprimorar o terroir, os vinhedos e os métodos de vinificação. A região se divide em três partes bem distintas e com características bem próprias.

A Rioja Alavesa, mais ao norte, na encosta da serra da Cantábria é uma região montanhosa, mais fria e com mais umidade, sendo boa para produção de vinhos brancos. Os tintos têm característica de vinhos de montanha, mais leves e ácidos. Rioja Baixa, mais ao leste e com vinhedos plantados em zonas de menor altura e Rioja Alta, mais a oeste, ambas mais ensolaradas, secas e com solos pobres de matéria orgânica com grande diferencial de temperatura entre os dias e as noites de verão. Ideal para uvas tintas encorpadas e com belos índices de taninos e álcool, onde temos excelentes Garnachas. Na Alavessa os tintos são austeros, de clima frio. Os vinhos de Rioja Baja e Alta são plenos, excelentes para guarda. ESPANHA - PRIORATO: Os Monges da Ordem dos Cartuxos, de extremo isolamento e clausura, foram, com os da Ordem Cisterciense, as primeiras Ordens reconhecidas pelo Papa.

Sempre se instalavam em locais de muita dificuldade de acesso para atingir o objetivo desta Ordem que era a clausura e a vida de eremita. Os Cartuxos franceses instalaram-se perto de Barcelona, algo em torno de cento e poucos quilômetros montanhas acima. Região até hoje de difícil acesso, imaginem por volta dos anos de 1110 quando lá chegaram. Logo iniciaram o plantio das primeiras videiras, dando vida ao que é hoje uma das regiões de origem qualificada na Espanha.

No terreno extremamente montanhoso, com solos de origem vulcânica, e muita pedra, com pouco material orgânico na superfície, as videiras são plantadas no sistema de socalcos, assim como no Douro. Dai o cuidado com as videiras ser totalmente manual. O clima é de extremos, com grande amplitude de temperatura entre o dia e a noite, com videiras encravadas na pedra e voltadas para o sol, tendo como uvas mestras a Garnacha e a Cariñena nas tintas e a Macabeo nas brancas.

As raízes das videiras descem fácil 8 metros para buscar alimento e água, sofrem mas produzem um vinho de exceção. Os vinhedos estão plantados entre 350 metros até 600 metros acima do nível do mar, em áreas de pouquíssima chuva. Os invernos rigorosos, verões ensolarados com grande amplitude térmica criam Garnachas encorpados, densos, profundos em cor, aroma e paladar.

FRANÇA – RHÔNE SUL

No Rhône sul onde rio deságua, mudam a paisagem, as cidades, o clima e as castas em relação ao norte. Do clima continental do norte com invernos rigorosos e verões típicos, temos no sul, clima mediterrâneo com invernos chuvosos e verões quentes e secos. Aqui, no Rhône Sul, mudam as uvas. A Syrah, predominante no Rhône Norte cede lugar para a Grenache junto com suas companheiras a Mouvèdre e a Cinsault entre outras de menor expressão. Nas brancas mantêm-se a Marsanne e Roussanne e agrega-se a Grenache Blanc.

Quanto à geografia e as cidades o vale bem demarcado do norte dá lugar ao plano onde os vinhedos são plantados na volta de cidades como a de Orange, Avignon e Châteauneuf-du-Pape, famosa por seus vinhos e por estar ali o Castelo (hoje ruínas) do Papa, no período em que o Papado transferiu-se para Avignon em 1309 até 1377.

A Grenache, além de ser uma das castas mais plantadas do mundo, entra no corte dos grandes Châteauneuf-du-Pape, entre outros vinhos da região. Há vários segredos que transformaram o Châteauneuf-du-Pape em um dos vinhos mais famosos do mundo. O sudeste da França, na sua AOC, perto da cidade de Châteauneuf-du-Pape, tem condições únicas de terroir. Hoje o charme do vinho é a sua composição, nas tintas leva mais de dez tipos diferentes de uvas, mas sempre tendo a Grenache como uva mestra. Ao seu mosto são acrescentadas a Syrah (tanicidade e especiarias) e a Mouvèdre (volume e elegância) as outras mais ou menos servem para completar o volume deste vinho excepcional.

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O VINOTÍCIAS foi criado por Márcio Oliveira, com o intuito de disponibilizar em um único espaço dicas de vinho, enogastronomia, eventos, roteiros de viagens e promoções. Inicialmente era disponibilizado na forma de uma newsletter para alunos, ex-alunos e amantes do vinho, com o crescimento do mercado e o amadurecimento do projeto a necessidade de um espaço maior para tantas informações se fez necessário e assim surgiu o blog e o site.

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