• Márcio Oliveira

A ESPANHA QUE VI, COMI E BEBI – PARTE 1


Retornando recentemente de um Roteiro pelos passos de Dom Quixote, vou relatar o que vi, comi e bebi numa Espanha iluminada por muito sol. Este sol inclemente que mantem La Mancha há 5 anos sem uma única gota de chuva.

Ao longo dos 14 dias de viagens, entre almoços, visitas a Bodegas com degustações de vinhos e jantares conhecemos 84 rótulos diferentes. Se a quantidade não impressiona, em relação a Roteiros por Bordeaux com degustação de até 180 rótulos no mesmo prazo, o programa foi recheado de um profundo conhecimento da arte e cultura espalhola, com visita a importantes museus, catedrais, monumentos e sítios.

Dom Quixote é um dos livros mais populares de todos os tempos. Estima-se que só esteja atrás da Bíblia no ranking dos best-sellers mundiais. Já foi traduzido para mais de 50 línguas e pode ser lido online gratuitamente. O clássico narra a vida de um fidalgo obcecado por histórias de cavalaria que abraçou a loucura para viver aventuras fantasiosas. A obra teve diversos desdobramentos no rádio, televisão, cinema e teatro em todo o mundo. Um dos mais populares é o musical da Broadway O Homem de la Mancha, que no Brasil ganhou adaptação livre com roteiro de Miguel Falabella.

Com mais de 400 anos desde o lançamento, a obra e seu autor são envoltos por diversas curiosidades. O livro foi lançado em duas partes. A primeira em 1605, e a segunda, dez anos depois. Nesse intervalo, uma continuação não autorizada foi publicada por um autor de pseudônimo Alonso Fernández de Avellaneda, cuja verdadeira identidade até hoje não é conhecida. Miguel de Cervantes, entretanto não curtiu esta continuação. A versão o teria motivado a escrever a morte do protagonista, para que outros não pudessem continuar sua trama. Na segunda parte real oficial, o autor aparece na história – ele, Quixote e os outros personagens leram o primeiro livro, e também a falsa continuação.

Quando a primeira parte da sua obra-prima foi publicada, Cervantes tinha 58 anos e muita coisa mesmo para contar. Serviu o exército espanhol, participou da Batalha Naval de Lepanto, teve a mão esquerda inutilizada em combate e, aos 28 anos, foi feito refém por piratas turcos. Escravizado, tentou fugir sem sucesso, e só foi libertado cinco anos depois, quando o resgate foi pago (500 ducados de ouro). O livro Cervantes in Algiers: A Captive’s Tale, de María Antonia Garcés, analisa que o período em cativeiro foi crucial para a narrativa do autor. Mais tarde, Cervantes ainda foi preso por dívidas. Morreu aos 68 anos, em 1616.

A versão em espanhol do livro tem cerca de 1000 páginas (em português, são mais de 1500!). Isso não impede que, desde 1997, uma leitura pública em voz alta e sem interrupções seja feita pelo Círculo de Bellas Artes de Madrid, na Espanha. Realizado pela primeira vez durante as comemorações dos 450 anos do nascimento de Miguel de Cervantes, este passou a ser um evento anual. O Lectura Continuada del Quijote chegou à 21ª edição em 2017. É claro que várias pessoas se revezam na tarefa durante as 48 horas de declamação.


Pelo menos para 100 grandes escritores de 54 países que participaram de uma eleição promovida pelo Instituto Nobel Norueguês em 2002. Eles listaram as dez maiores obras da literatura mundial e Dom Quixote recebeu 50% mais votos do que qualquer outro livro. Quem concordaria com a afirmação também seria o escritor russo Dostoiévski, que declarou em 1876: “Nada existe de mais profundo e poderoso no mundo inteiro do que essa peça de ficção”.

Foi assim, entre histórias e lendas que fizemos nossa viagem pelas regiões de La Mancha. A Espanha é um grande produtor mundial de vinhos e tem tradição milenar no cultivo de suas videiras. Acredita-se que a origem do vinho espanhol está associada à época em que os romanos dominaram a península ibérica, mas há registros de videiras desde 4.000 a 3.000 A.C. O aprimoramento do vinho espanhol, entretanto, ocorreu somente depois do ataque da praga filoxera aos vinhedos franceses, pois alguns produtores franceses migraram para a Espanha e implementaram suas técnicas de vinificação.

A praga também chegou à Espanha, mas espalhou-se de forma gradativa, pois as regiões vitivinícolas não eram tão próximas quanto na França. Assim, o estrago causado pela filoxera na Espanha não foi tão devastador quanto foi na França.

Apesar da longa tradição, a modernização das técnicas de produção é recente, tendo começado somente na década de 90. De lá para cá muita coisa mudou, as regras foram aprimoradas e os vinhos ganharam qualidade e maior controle produtivo. Os brasileiros, entretanto, costumam beber pouco vinho espanhol quando comparado com outros do Velho Mundo e este foi um dos motivos de escrever esta série de artigos.

Bem ao centro da Espanha, país com a maior área de vinhas plantadas em todo o mundo e o terceiro maior mercado produtor de vinhos, está localizada a região vitivinícola de Castilla La Mancha. Um território com grande extensão de terra quase que completamente plana, sem grandes elevações. É nessa macrorregião que se origina quase 50% do total de litros de vinho produzidos anualmente na Espanha. O nome “La Mancha” tem origem na expressão “Mantxa” que em árabe significa “terra seca”, o que de fato caracteriza a região. La Mancha é a maior área vitivinícola contínua do mundo, abrangendo 182 municípios, num vinhedos que corresponde a 52% do vinhedo espanhol e 13% do vinhedo europeu, o que não é pouca coisa!

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por MÁRCIO OLIVEIRA

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