āNAPOLEĆO E SEUS VINHOSā
- Marcio Oliveira - Vinoticias
- 14 de out. de 2021
- 9 min de leitura
Como alguns vinhos estão ligados às personalidades que os bebiam de forma fiel, resolvi comentar sobre Personalidades e seus Vinhos, e começo por Napoleão Bonaparte.
"Nada faz o futuro parecer mais cor de rosa do que contemplÔ-lo através de uma taça de Chambertin". Napoleão Bonaparte

NapoleĆ£o era um homem de hĆ”bitos. Sua vida diĆ”ria era ritualizada. Sabemos que pouco se preocupava com a boa comida e era mais sensĆvel Ć simplicidade da gastronomia familiar ou militar. Ele sempre comia a mesma coisa, frango, costela de cordeiro, sempre se vestia da mesma maneira, e ia aos mesmos lugares, evitando qualquer mudanƧa, segundo o especialista e historiador do Consulado e do Primeiro ImpĆ©rio - Pierre Branda.
Em suas āMemórias Ćntimas de NapoleĆ£o Iā, o Camareiro Louis-Constant Wairy, primeiro entre o cĆrculo de servos napoleĆ“nicos e o mais próximo de seu mestre entre 1800 a 1814, lembra que "o imperador bebia apenas Chambertin e raramente puro". Esse criado publicou suas memórias em 1830, dando uma visĆ£o geral da vida cotidiana de NapoleĆ£o, vista de perto, pelo buraco da fechadura, pode-se dizer!

O costume Ʃ confirmado por Mademoiselle Avrillion (1774 - 1853), a primeira empregada de JosƩphine. A mistura ideal de vinho e Ɣgua equilibra metade de um e metade do outro. Com uma garrafa de 50ml para almoƧo e jantar, as garrafas tinham que ser mantidas prontas em todos os lugares que Bonaparte frequentava. O hƔbito comeƧou assim que se generalizou jƔ que era necessƔrio levar caixas desse Borgonha ao Egito.
Se a campanha foi vitoriosa para o futuro primeiro cĆ“nsul, foi desastrosa para suas garrafas, que dificilmente resistiram Ć s mudanƧas de temperatura. āNaquela Ć©poca, fazer vinho era complicado. Os preƧos de venda eram ridĆculos. Entre um pedaƧo de vinha e um cavalo como patrimĆ“nio de uma heranƧa, era melhor escolher o cavaloā, assim fala o filósofo Pierre Damoy. O vinho era vendido em barricas, sem enxofre (sulfitos) para sua preservação e assim sendo, nĆ£o viajava bem, nem tinha boas condiƧƵes para guarda.
Autor de livros que retratam āOs Gostos de NapoleĆ£oā - Grasset, chega mesmo a sugerir que o imperador nĆ£o gostava necessariamente de vinho, mas o levou por toda onde esteve, inclusive durante a campanha no Egito. NapoleĆ£o levou grandes cargas de Chambertin durante a campanha pelo deserto. O vinho acabou se estragando pelas condiƧƵes de transporte e calor excessivo, e quando ele quis servir este āvinagreā aos seus soldados em vez de pagar o seu salĆ”rio, eles nĆ£o aceitaram a proposta, acrescenta Pierre Branda.
Os relatos de Louis-Constant dizem que jantar era servido Ć s seis horas. Nas Tulherias e em Saint-Cloud, o imperador jantava sozinho com a imperatriz todos os dias, exceto aos domingos, quando toda a famĆlia era admitida para o jantar. O Imperador, a Imperatriz e a mĆ£e ficavam sozinhos sentados em poltronas; todos os outros, fossem reis ou rainhas, tinham apenas cadeiras. Nunca se fazia mais de um serviƧo antes da sobremesa. Sua Majestade geralmente bebia vinho Chambertin, mas raramente puro, e pouco mais do que meia garrafa.
Além disso, o jantar com o imperador era mais uma honra do que um prazer para os admitidos, pois era necessÔrio, como se costuma dizer, engolir rÔpido porque Sua Majestade permanecia à mesa apenas quinze ou dezoito minutos.
Em qualquer lugar e em todas as circunstâncias, no almoço, no jantar, sozinho ou com sua corte, nas Tulherias, em Fontainebleau, em Saint-Cloud, mas também em movimento e no campo, onde uma carroça, servindo de adega levava barricas de Chambertin para o imperador e bons vinhos para os oficiais.
Quer seja como Primeiro CÓnsul ou Imperador, ele consumia meia garrafa de seu néctar da Borgonha em cada refeição. Napoleão misturava seu Chambertin com Ôgua gelada, hÔbito mediterrâneo, como era costume na Córsega, onde se colocava cubos de gelo no vinho tinto. Cabe lembrar que a capacidade normal das garrafas daquela época era menor - 500 ml em vez dos 750 ml de hoje.
Para muitos crĆticos atuais de vinhos, o Chambertin, Ć© "um punho de ferro em luva de pelica, vinho escuro, concentrado, poderoso, cuja linha de base se baseia no violeta e no alcaƧuz, Ć s vezes uma pequena fruta preta nos solos mais setentrionais ou excepcionalmente na peĆ“nia muito agradĆ”vel, como na safra de 2020ā. Os Chambertin sempre foram vinhos muito sĆ©rios, e hĆ” farta documentação que comprova que NapoleĆ£o o bebia.
As opiniƵes divergem sobre como e quando ocorreu o encontro entre NapoleĆ£o e os vinhos da Borgonha. Foi durante sua estada na Escola Militar em Autun com seu irmĆ£o Joseph, como sugere o historiador do vinho Jean-FranƧois Bazin em seu DicionĆ”rio Universal do Vinho da Borgonha? Mas a esta sugestĆ£o, Pierre Branda ā especialista e historiador ā favorece a uma ocorrĆŖncia posterior, porque āEm Autun, os irmĆ£os Bonaparte eram crianƧas. NapoleĆ£o tinha 10 anos, Ć© um pouco cedo para beber. Mas, entre 18 e 20 anos, ele jĆ” estava na Borgonha e na regiĆ£o de BesanƧon. Quando estourou a Revolução Francesa, NapoleĆ£o Bonaparte era oficial em Auxonne e depois em Valence. O vinho Chambertin era provavelmente uma bebida popular entre os jovens tenentesā.
Quem quiser reconstituir um desses jantares, em que seria necessĆ”rio engolir tudo em quinze minutos, deveria antes saborear o Chambertin, uma vez que ele nĆ£o Ć© um vinho realmente democrĆ”tico. Uma pessoa abastada e interessada na classificação dos vinhos da Borgonha, do mesmo nĆvel de sutileza das regras na Ć©poca dos jantares de NapoleĆ£o, teria entĆ£o duas possibilidades: ou comprar uma garrafa de Chambertin (Ć”rea do grand cru: 12,90 ha), ou uma garrafa de Chambertin-Clos-de-BĆØze (15,40 ha), a segunda pode ser vendida com o rótulo da primeira, nĆ£o sendo permitida a recĆproca.
Chambertin ou Chambertin-Clos-de-Bèze, era o verdadeiro vinho que Napoleão raramente bebia puro e, portanto, cortado com um pouco de Ôgua? Não. Na época do Primeiro Império, foi permitido um truque bastante inteligente chamado de prÔtica de equivalências. O comerciante borgonhês substituiu uma denominação por outra, considerada equivalente, desde que respeitasse os usos seculares, leais e constantes, basicamente para que todos pudessem ter este vinho nas suas adegas.
Para compreender totalmente a sutileza, devemos nos aprofundar na tese de doutorado de Christophe Lucand, historiador, professor da Universidade da Borgonha e ex-prefeito de Gevrey-Chambertin (Les NƩgociants en vin de Bourgogne, ediƧƵes FƩret).
āOs vinhos tintos da CĆ“te de Nuits, do segundo e terceiro lotes cuvĆ©e dos municĆpios de Morey, Brochon ou Fixin, sĆ£o comercializados sob o nome muito mais proeminente de Gevrey-Chambertin. Em Fixin, os vinhos classificados como primeiro cuvĆ©e dos climats (terroirs) de La PerriĆØre, Clos du Chapitre, Les Arvelets, Les Hervelets ou Aux Cheusots, representam excelĆŖncia e sĆ£o considerados equivalentes aos climats de Chambertin e Chambertin Clos de BĆØze. Ambos podem ser livremente associados e, dependendo da solicitação do cliente, substituĆdos. "
Desvendado o truque, e sabendo que NapoleĆ£o bebeu apenas Chambertin, entendemos que poderia ser feito a partir de certos climats de Fixin, que nĆ£o fica longe, mas que tambĆ©m nĆ£o Ć© Gevrey. A prĆ”tica das equivalĆŖncias parece enganosa em nosso tempo, quando as denominaƧƵes e a origem geogrĆ”fica foram sagradas, mas era bastante aceitĆ”vel cento e trinta anos āantesā do estabelecimento das referidas denominaƧƵes (1936 para Gevrey-Chambertin e 1937 para Chambertin).
ā O GOSTO PELO CHAMPAGNE - O gosto de NapoleĆ£o pela frugalidade estĆ” bem estabelecido e o champagne Ć© um dos raros prazeres gastronĆ“micos de que ele realmente gostava. Prova disso estĆ” nos arquivos da casa MoĆ«t, que mantĆ©m os registros contĆ”beis das encomendas feitas por ele.
"Na vitória merecemos o Champagne e na derrota precisamos deleā
Napoleão Bonaparte
Embora frase seja frequentemente atribuĆda a outro grande estrategista e bon vivant - Winston Churchill.
Aparentemente, NapoleĆ£o era um mestre da sabragem - a arte de ādecapitarā uma garrafa de champanhe com uma espada de cavalaria, que era costume entre os oficiais do exĆ©rcito na Ć©poca, logo após as batalhas.
O primeiro registro estĆ” em nome de NapoleĆ£o Bonaparte, Primeiro CĆ“nsul de Paris na data de 27 Thermidor ano 9 (15 de agosto de 1801, o aniversĆ”rio de seus 32 anos!). Poucos meses antes da Batalha de Austerlitz, no inĆcio de setembro de 1805, um pedido do Imperador foi enviado a Estrasburgo e, sem dĆŗvida, ele estava se preparando para comemorar um grande momento da história.
NapoleĆ£o sempre defendeu os produtos franceses. O conhaque, que reinava supremo na Europa, comeƧava a enfrentar a concorrĆŖncia do uĆsque, apesar do bloqueio imposto aos ingleses.

ā NAPOLEĆO E SEU EXĆLIO - Quando Bonaparte foi exilado em Santa Helena em 1815, para onde foi enviado após a derrota em Waterloo e onde morreu em 1821, sua vida cotidiana foi naturalmente virada de cabeƧa para baixo. Seu Chambertin nĆ£o suportava a viagem e os ingleses serviram-lhe um clarete (Vinho tĆpico de Bordeaux na Ć©poca) que o imperador nĆ£o apreciou. Documentos encontrados relatam que Bonaparte e sua entourage consumiam por dia 50 garrafas de vinho, alĆ©m de vĆ”rios destilados.
Na verdade, os ingleses tiveram dificuldades para fornecer ao recluso em Santa Helena sua bebida favorita. Nunca se atreveram a servir-lhe Chambertin, para que o prisioneiro não pensasse que queriam envenenÔ-lo.
O Conde de Las Cases relata uma anedota de NapoleĆ£o, que, sentindo-se doente, atribui sua situação "a um vinho novo ruim". E, a este respeito, confiou ao seu memorialista o conselho que lhe foi dado por "Corvisart, Berthollet e outros mĆ©dicos e quĆmicos", de cuspir imediatamente se o vinho tivesse um gosto ruim.
Um vinho branco doce da Ćfrica do Sul, o Constancia - Grand Constance, que ainda hoje Ć© conhecido como "vinho de NapoleĆ£o", era trazido da Cidade do Cabo para ele. HĆ” registros de que mais mil litros de Vin de Constance foram enviados a Bonaparte em Santa Helena. Em seu leito de morte, NapoleĆ£o recusou todos os outros alimentos e bebidas oferecidos a ele, solicitando apenas um Ćŗnico copo de Vin de Constance.
Em 2016, uma garrafa de Grand Constance datada de 1821 e destinada a Bonaparte foi vendida por ⬠1.550. Uma frÔgil memória do cotidiano dos últimos dias do Imperador.
ā JOSĆPHINE E A ADEGA DAS MARAVILHAS DE MALMAISON - Josefina de Beauharnais foi Imperatriz da FranƧa de 1804 a 1810 e Rainha da ItĆ”lia de 1805 a 1809, como primeira mulher de NapoleĆ£o Bonaparte, sendo, portanto, a mulher mais influente da FranƧa durante o Primeiro ImpĆ©rio FrancĆŖs.
Nascida na Martinica em 23 de junho de 1763, com a idade de quinze anos, foi para a França para casar-se com o Visconde de Beauharnais. Após ter dois filhos com Josefina, Alexandre foi guilhotinado em consequência dos anos de Terror, em meio a Revolução Francesa.
No ano de 1796, viúva e com dois filhos voltou a casar, dessa vez com o general Napoleão Bonaparte, que mais tarde viria a se tornar o primeiro Imperador dos Franceses. à sabido que Napoleão gostava muito dos seus filhos, ao ponto de os adotar oficialmente como seus, não permitindo que os chamassem de adotivos.
A cerimÓnia de coroação de Napoleão, presidida pelo papa Pio VII, teve lugar na Catedral de Notre Dame, em 2 de dezembro de 1804. Num ato de egocentrismo, Napoleão tomou a coroa das mãos do papa e coroou-se, em seguida colocou a coroa na cabeça de Josefina, proclamando-a sua rainha e imperatriz dos franceses.
Em 1809, o imperador decidiu divorciar-se dela ā Josefina teria ficado estĆ©ril, nĆ£o podendo dar Ć FranƧa um herdeiro ā, ocasiĆ£o em que a imperatriz se retirou para o seu lugar preferido, o Castelo de Malmaison.
Josefina faleceu no ano de 1814 aos 51 anos. O inventÔrio de sua adega revela a extensão do gosto refinado da proprietÔria de Malmaison. Mais de 13.000 garrafas estavam listadas na morte da ex-imperatriz, com destaque para muitos vinhos doces de vinhas que vinham da Andaluzia a Portugal, passando pela costa do Languedoc, as ilhas da Madeira e das CanÔrias. Estes vinhos, apreciados pela sua doçura, foram servidos durante o lanche da tarde ou como sobremesa nas numerosas recepções e refeições organizadas por Joséphine.
Um importante ponto de encontro para a elite e aqueles próximos Ć famĆlia imperial, a reputação da mesa de Malmaison resistiu ao teste do tempo. Certamente Ć© um marco na história da gastronomia francesa. JosĆ©phine de Beauharnais, habilmente aconselhada pelos melhores paladares do ImpĆ©rio (CambacĆ©rĆØs e Talleyrand em primeiro lugar), brilhou com uma escolha ousada de vinhos prestigiosos e destilados exóticos, uma memória da sua Martinica nativa.
Vinhos de Bordeaux e Borgonha, champagnes, CÓtes du RhÓne e Reno, Muscats de Lunel e Roussillon, Vermute, licores italianos e da ilha eram regularmente servidos à mesa. Especialmente o rum era uma excentricidade crioula que encantava os hóspedes, principalmente quando servido como ponche, bebida jÔ em voga no século XVIII, mas que se tornou referência no Império.
Joséphine adorou, tendo-o preparado escrupulosamente com os cinco ingredientes essenciais: chÔ, açúcar, canela, limão e rum. Motivo pelo qual a tigela de ponche fazia parte dos ... jogos de chÔ! Para agradar às senhoras, o ponche era servido gelado. Alguns dizem que se bebia primeiro esse ponche bem fresco porque atenuava o gosto do Ôlcool e, portanto, agradou mais às mulheres.
Sabe-se que a Imperatriz nĆ£o bebia muito de bebidas alcoólicas, mas a história conta que muitas vezes ela bebia um pequeno copo de ponche antes de dormir. NĆ£o Ć© de admirar, porque esta bebida foi creditada por garantir um sono tranquilo especialmente numa noite mais fria. NĆ£o havia nada de incongruente na presenƧa de uma tigela de ponche em um quarto no inĆcio do sĆ©culo XIX.
SaĆŗde!!! Aproveite para comentar se gostou ou nĆ£o!!! (baseado em artigos disponĆveis na internet e minhas consideraƧƵes)

