“AS FACES DO PINOT NOIR – PARTE I”
- Marcio Oliveira - Vinoticias
- há 12 horas
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A impressionante variedade de vinhos produzidos torna impossível - e inútil - definir qual personalidade representa a melhor expressão da casta.

Como de costume, os apreciadores de um estilo específico estão absolutamente convencidos da superioridade de sua preferência, por ser a Pinot Noir, a variedade que melhor reflete o “terroir” e a mão do enólogo, produzindo uma gama variadíssima de estilos em todos os cantos do planeta.
A maioria dos aficionados por Pinot Noir sente-se atraída pela variedade por sua capacidade de produzir vinhos que expressam o “terroir” como poucos. Vinhedos separados por apenas alguns metros produzem vinhos surpreendentemente diferentes na região da Borgonha. Curiosamente, esse mesmo amor pela diversidade maravilhosa e o fascínio constante pelas nuances do “terroir” parecem criar uma visão limitada em muitos degustadores, sendo que alguns consideram seus vinhos mais leves, como vinhos “aguados”.
Em vez de se abrirem para a infinidade de estilos proporcionada pela diversidade de “terroirs”, uma marca registrada desta casta, eles se prendem a um leque restrito de estilos, demonstrando um desprezo quase agressivo por vinhos de outros estilos ou, mais precisamente, de outras regiões, esquecendo-se rapidamente que a própria razão pela qual amamos a Pinot Noir implica, por definição, que os vinhos serão - e devem ser - muito diferentes quando cultivados em locais distintos.
É importante degustar os vinhos pelo que eles são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Não se pode forçar um Pinot Noir de Sonoma Coast a ter os mesmos aromas e sabores de um Pommard 1er Cru; afinal, além de não dever ter o gosto de um Pommard, por que alguém desejaria isso? O aspecto interessante da Pinot Noir e, aliás, de todas as variedades de uvas viníferas, reside justamente nessas diferenças entre os vinhos de regiões distintas.
É claro que cada um de nós tem suas preferências pessoais, mas preferência de paladar não é sinônimo de superioridade. Após ter mergulhado no universo da Pinot Noir, preparando uma apresentação homônima a este artigo e material para um Programa de Visitas pela Borgonha, fiquei impressionado com a diversidade maravilhosa e o nível excepcionalmente alto de vinificação que existe com esta casta.
♦ UM POUCO DE HISTÓRIA - Estudos ampelográficos sugerem que a Pinot Noir é uma variedade muito antiga, com origens que remontam ao século I d.C. Acredita-se que os romanos tenham trazido a uva consigo durante a expansão de seu império, mas os ancestrais naturais e selvagens da Pinot Noir provavelmente já existiam muito antes disso.
Já na Idade Média, a Borgonha havia se estabelecido como um centro de viticultura. Os monges cistercienses e clunicenses, proprietários de vastas áreas de vinhedos, perceberam diferenças marcantes na qualidade dos vinhos produzidos em diferentes parcelas de terra. Eles classificaram esses vinhedos com diligência e lançaram as bases para o conceito de "terroir", um termo que permanece fundamental para a compreensão do vinho até hoje. Os monges reverenciavam a Pinot Noir, valorizando sua capacidade de expressar as nuances sutis de cada vinhedo.
Esse sistema de classificação evoluiu, com o tempo, para a famosa hierarquia de "crus" da Borgonha, que indica a qualidade e o potencial dos vinhos com base na geologia, no microclima e na reputação histórica. No topo dessa hierarquia estão os vinhedos "Grand Cru", como o renomado Romanée-Conti, conhecido por produzir alguns dos vinhos Pinot Noir mais cobiçados e caros do mundo.

Com a chegada do Renascimento, o vinho da Borgonha - e a Pinot Noir, em particular - tornou-se o favorito da realeza e da aristocracia. Diz-se que Luís XIV, o Rei Sol, recebeu de seu médico a recomendação de consumir vinho da Borgonha devido aos seus benefícios para a saúde. Nesse período, o vinho da Borgonha era mais valorizado do que o de Bordeaux, um testemunho do prestígio da Pinot Noir.
O século XIX trouxe tanto inovações quanto calamidades. Por um lado, os produtores da Borgonha continuaram a aperfeiçoar suas práticas de viticultura e vinificação, refinando ainda mais seu estilo único de Pinot Noir: perfumado, de corpo leve a médio, porém intensamente complexo. Por outro lado, a crise da filoxera devastou vinhedos em toda a França, alterando para sempre o cenário da viticultura.
As videiras de Pinot Noir da Borgonha não foram poupadas, o que levou a esforços de replantio em larga escala no final do século XIX e início do século XX. Esse foi um momento decisivo na história da Pinot Noir, pois resultou no cultivo de diversos clones da variedade - um tema de grande interesse na ampelografia moderna. Cada clone possui atributos específicos, incluindo resistência a certas doenças, níveis de produtividade e perfis aromáticos e de sabor distintos. Entre os clones notáveis da Borgonha, destacam-se os clones Dijon, como o 115, o 667 e o 777, todos amplamente cultivados ao redor do mundo atualmente.
A crise da filoxera foi um divisor de águas para toda a viticultura europeia, incluindo a da Borgonha. A Phylloxera vastatrix, uma praga minúscula semelhante a um pulgão e nativa da América do Norte, surgiu na Europa em meados do século XIX; acredita-se que tenha atravessado o Atlântico em videiras americanas importadas.
Nos vinhedos, os insetos da filoxera alimentavam-se das raízes das videiras, fazendo com que as plantas murchassem lentamente e acabassem morrendo. Como as videiras europeias - incluindo a Pinot Noir - não possuíam resistência natural a essas pragas, a filoxera disseminou-se rapidamente. Na década de 1870, a praga atingiu a Borgonha, devastando vinhedos e causando perdas catastróficas na produção. Esse fato marcou o início de um período devastador para os vinhos da Borgonha, com o abandono de vinhedos e o colapso econômico enfrentado por algumas áreas.
A solução para o problema da filoxera surgiu por meio da enxertia em porta-enxertos resistentes. As espécies de videiras americanas, que haviam evoluído em coexistência com a filoxera, eram amplamente imunes aos seus efeitos. Ao enxertar as videiras europeias da espécie Vitis vinifera - como a Pinot Noir - em porta-enxertos americanos, foi possível salvar os vinhedos.
No entanto, essa não foi uma tarefa simples. Envolveu o replantio de todo o vinhedo, um processo que exigia muita mão de obra e era dispendioso. Havia também a preocupação sobre se as videiras enxertadas produziriam vinhos da mesma qualidade. O “terroir” da Borgonha, fundamental para o caráter distinto de seus vinhos Pinot Noir, estava intrinsecamente ligado à interação entre a videira e o solo. Temia-se que a introdução de porta-enxertos estrangeiros pudesse perturbar esse equilíbrio delicado.
Apesar disso, a transição para videiras enxertadas foi realizada por necessidade, e o processo de recuperação foi lento. Somente no início do século XX a produção de vinho na Borgonha começou a se recuperar.
Curiosamente, essa reviravolta levou a uma reavaliação e reestruturação da propriedade dos vinhedos na Borgonha. As dificuldades econômicas fizeram com que muitos vinhedos mudassem de mãos nesse período, e as leis de sucessão napoleônicas levaram à fragmentação da propriedade das terras - uma característica marcante da região da Borgonha até hoje. Essas pequenas parcelas de terra, frequentemente cultivadas por famílias ou viticultores individuais, reforçam ainda mais a importância do “terroir” na Borgonha, uma vez que cada lote pode expressar suas qualidades únicas.
Além disso, a crise da filoxera levou indiretamente à exploração e ao uso de diferentes clones de Pinot Noir. À medida que os vinhedos eram replantados, os viticultores selecionavam as videiras que apresentavam as melhores características para o seu local específico, e essas videiras selecionadas eram então propagadas. Esse processo permitiu uma compreensão maior da diversidade dentro da variedade Pinot Noir e abriu caminho para uma seleção clonal mais científica no século XX.
O século XX trouxe o reconhecimento global para a Pinot Noir da Borgonha. Após duas guerras mundiais, a região da Borgonha começou a se recuperar e, com isso, a qualidade e a reputação de sua Pinot Noir dispararam. Safras excepcionais alcançavam preços incríveis em leilões, e a demanda global pelos vinhos da Borgonha superava a oferta - uma tendência que perdura até os dias de hoje.
♦ ANCESTRALIDADE - Estudos científicos contínuos sobre a Pinot Noir também revelaram descobertas intrigantes. Análises genômicas confirmaram que a Pinot Noir é uma das variedades de uva mais antigas, atuando essencialmente como uma "bisavó" de muitas outras variedades por meio de cruzamentos naturais. Acredita-se, por exemplo, que ela tenha cruzado com a Gouais Blanc - uma uva trazida para a França pelos romanos - para dar origem a variedades como Chardonnay e Gamay.
Além disso, estudos sobre clones de Pinot Noir revelaram uma instabilidade genética significativa, levando a uma proliferação de variações clonais distintas. Essa fluidez genômica talvez tenha contribuído para a capacidade única da Pinot Noir de sofrer mutações e se adaptar, gerando uma gama de estilos e expressões que variam conforme as características específicas do local de cultivo.

♦ A EXPANSÃO PARA FORA DA BORGONHA - A expansão global da Pinot Noir ganhou força a partir da década de 90. A casta se espalhou para regiões vinícolas do Novo Mundo, como Califórnia, Oregon, Nova Zelândia e Austrália. Apesar das condições de cultivo variadas nessas regiões, o estilo borgonhês era frequentemente visto como o auge a que essas novas regiões aspiravam. No entanto, cada região começou a desenvolver sua própria expressão única de Pinot Noir, oferecendo diversidade ao mercado global de vinhos.
A Pinot Noir da Califórnia, por exemplo, frequentemente apresenta sabores de fruta mais evidentes, maior maturação e corpo, devido ao clima mais quente do estado; já a Pinot Noir do Oregon - região de clima mais frio - exibe notas de fruta mais sutis e qualidades terrosas e minerais pronunciadas, remetendo ao estilo borgonhês.
A Pinot Noir de Central Otago, na Nova Zelândia, ganhou reconhecimento por sua intensa concentração de fruta e elegância estrutural, enquanto a Península de Mornington, na Austrália, oferece um estilo estruturado e com notas saborosas e complexas.
No cenário do século XXI, a Pinot Noir permanece na vanguarda da produção de vinhos premium. O mercado de vinhos da Borgonha tem sido particularmente influenciado por tendências de investimento e colecionismo. Em 2018, uma única garrafa de Romanée-Conti de 1945 estabeleceu o recorde de garrafa de vinho mais cara já vendida em leilão, alcançando a cifra astronômica de US$ 558.000!
♦ EFEITOS DAS ALTERAÇÕES DO CLIMA - Ademais, as mudanças climáticas tornaram-se uma grande preocupação para todas as regiões vinícolas, e a Borgonha não é exceção. À medida que as temperaturas continuam a subir, o desafio para os produtores de Pinot Noir é preservar a elegância e a complexidade que são a essência dessa uva. Em resposta, as práticas de viticultura estão em constante adaptação. Alguns produtores optam por locais mais frescos, ajustam o manejo da copa da videira para garantir a exposição solar ideal ou experimentam diferentes clones para preservar as qualidades que definem a Pinot Noir.
Ao refletir sobre a trajetória da Pinot Noir, percebe-se que seu apelo duradouro reside em sua natureza paradoxal. Ela é, ao mesmo tempo, delicada e intensa, sutil e profunda. Suas diversas expressões - desde os vinhos etéreos dos “Grand Crus” da Borgonha até os exemplares exuberantes da Califórnia - continuam a cativar tanto apreciadores de vinho quanto colecionadores. A rica história da Pinot Noir está presente em cada garrafa, narrando a história de sua terra de origem, a passagem do tempo e das pessoas que conviveram com ela.
♦ CARACTERÍSTICAS DOS VINHOS DA PINOT NOIR - À primeira vista, a maioria dos vinhos Pinot Noir apresenta uma coloração que varia de pálida a rubi de média intensidade. A Pinot Noir possui um perfil único, dominado por compostos aromáticos conhecidos como ésteres. Eles conferem ao vinho uma gama complexa de sabores, que vão desde a cereja madura e a framboesa até notas de fundo intrigantes, como solo de floresta, folhas de chá e, por vezes, até cravo.
No nariz, a Pinot Noir destaca-se pela sua sinfonia de frutas vermelhas. No entanto, também revela camadas de terra e especiarias e, quando envelhecida em carvalho, notas suaves de baunilha e fumaça. Com o envelhecimento, podem surgir nuances de cogumelo e couro. No paladar, a Pinot Noir apresenta, geralmente, corpo leve a médio, taninos menos agressivos e acidez elevada, características que fazem dela apropriada para criar um vinho elegante e sutil. Os níveis de álcool tendem a ser moderados, situando-se tipicamente entre 12% e 14%, o que contribui para uma sensação sedosa e elegante na boca.
São justamente essas diferenças que tornam seus vinhos tão fascinantes e, tão “pinot noir”. Então, já provou um vinho diferenciado de Pinot Noir? Saúde!!! Que tal comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).

