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“AS FACES DO PINOT NOIR – PARTE II”

Foto do escritor: Marcio Oliveira - Vinoticias
Marcio Oliveira - Vinoticias
28 de ago.
9 min de leitura

Terroir é uma palavra francesa sem tradução para o português e que significa o conjunto entre solo, clima, variedade de uva e a ação do ser humano ao cultivar o vinhedo e elaborar o vinho. Na Borgonha há um termo ainda mais específico, que é o climat.



Também sem tradução literal, a palavra climat é definida como parcelas de vinhedos delimitadas com precisão nas encostas da Côte de Nuits e da Côte de Beaune.

 

● O EFEITO SIDEWAYS NO PINOT NOIR - Em 2004, o filme Sideways – Entre Umas e Outras chegou aos cinemas como uma comédia dramática independente. O que ninguém esperava é que essa história sobre dois amigos em uma viagem de “despedida de solteiro” pelas vinícolas da Califórnia na região de Santa Bárbara, teria um impacto tão profundo no mercado global de vinhos - especialmente sobre a uva Pinot Noir.


O resultado foi quase imediato deste filme é que as vendas de Pinot Noir dispararam nos Estados Unidos e em outros mercados influenciados pela cultura americana.


Antes de Sideways, a Pinot Noir era considerada uma uva “difícil” – tanto no cultivo quanto na vinificação. Exigia climas específicos, solos adequados e um cuidado extremo na produção. O filme despertou curiosidade e o desejo de provar a uva “preferida dos entendidos”. Vinícolas aumentaram suas vinhas, produtores investiram em qualidade, e regiões como Oregon, Califórnia e até mesmo o Chile e a Nova Zelândia começaram a se destacar com ótimos rótulos de Pinot Noir.

 

● A PINOT NOIR NOS ESPUMANTES - A Pinot Noir é uma das uvas protagonistas na elaboração de espumantes de alta qualidade, incluindo o Champagne, onde é combinada com Chardonnay e Pinot Meunier. Em regiões como a França, Itália (Franciacorta), Alemanha (Sekt) e o Brasil, a Pinot Noir produz espumantes finos, com acidez marcante e notas frutadas que vão desde frutas vermelhas frescas até brioche e frutos secos, conforme o tempo de amadurecimento sobre as borras.


A uva também aparece em espumantes feitos pelo método Charmat, especialmente em países do Novo Mundo, oferecendo versões mais frutadas e acessíveis.


Com essas diferentes formas de expressão, a Pinot Noir mostra porque é uma das uvas mais reverenciadas do mundo. Seja em um tinto complexo, um rosé delicado ou um espumante refinado, essa variedade encanta pelo seu caráter elegante, pela sensibilidade ao terroir e pela incrível versatilidade na taça.

 

● O SERVIÇO DO VINHO - O Pinot Noir pode - e em certos casos - deve ser apreciado ligeiramente mais fresco que a temperatura ambiente, melhor entre 12 e 15 °C. Esse equilíbrio acentua o perfil aromático, evitando que o álcool domine os sentidos.


Uma taça de vinho com seu bojo largo e borda mais estreita é perfeita para Pinot Noir. Ela permite que o vinho respire e direciona os aromas sutis diretamente para o seu nariz. O vinho se beneficiará de 30 minutos de decantação. O Pinot Noir desenvolve notas ricas e terrosas, com uma complexidade que lembra o solo úmido de uma floresta.


A maioria dos vinhos evolui muito bem ao longo de 5 a 10 anos. Os vinhos de alta qualidade podem amadurecer por 20 anos.

 

● A CLASSIFICAÇÃO DOS TINTOS NA BORGONHA - A Borgonha desenvolveu um sistema hierárquico de classificação dos vinhedos que é referência mundial:

♦ Régionales – rótulos mais amplos, que levam o nome genérico da região (como “Bourgogne Pinot Noir”).

♦ Villages – vinhos produzidos dentro dos limites de uma comuna específica (como “Gevrey-Chambertin”).

♦ Premiers Crus – de vinhedos de alta reputação dentro das comunas (como “Gevrey-Chambertin 1er Cru Clos Saint-Jacques”).

♦ Grands Crus – mais prestigiados e caros, criados de parcelas reconhecidas por sua qualidade excepcional (como “Chambertin Clos de Bèze Grand Cru”).

 

● O CORAÇÃO DOS TINTOS NA BORGONHA - É na sub-região de Côte de Nuits que a Pinot Noir atinge seu auge. Lar de vilarejos lendários que produzem vinhos de altíssima reputação, como:

♦ Gevrey-Chambertin: Vinhos potentes e estruturados, que envelhecem bem, muitas vezes por longos períodos.

♦ Morey-Saint-Denis – Com equilíbrio entre força e finesse. São vinhos que têm corpo e estrutura, e também muita fruta e taninos macios.

♦ Chambolle-Musigny – Famosos pela elegância, são considerados os mais delicados e perfumados da Côte de Nuits.

♦ Vosne-Romanée – Considerado por muitos o ápice da Pinot Noir, com nomes como Romanée-Conti, La Tâche e Richebourg. Os vinhos podem parecer um pouco austeros em sua juventude, precisando de tempo na garrafa para desenvolver suas melhores características.

 

● OS VINHOS DA PINOT NOIR FORA DA BORGONHA - Fora da Borgonha, a Pinot Noir é cultivada em outras regiões francesas, principalmente no nordeste do país. Na Alsácia, Jura e Savoie, a uva é bastante usada na produção de vinhos que são frescos, leves e frutados.


O Vale do Loire, por sua vez, se destaca com seus rosés elegantes à base de Pinot Noir produzidos em Sancerre.


Por fim, em Champagne a uva tem papel fundamental na produção de espumantes (inclusive em exemplares Blanc de Noirs.

 

♦ Alemanha – a força do Spätburgunder: Na Alemanha, terceiro país que mais cultiva a Pinot Noir no mundo, a uva é chamada de Spätburgunder e é a variedade tinta mais importante. No país, destacam-se as regiões de Ahr, Pfalz e Rheinhessen, onde os produtores vêm refinando a qualidade dos seus vinhos com uso controlado de carvalho e foco no terroir.

As Regiões de Maior Destaque:

Baden: A região mais quente do país, especialmente a área vulcânica de Kaiserstuhl. Produz os Spätburgunders mais encorpados, ricos e estruturados da Alemanha, rivalizando com grandes rótulos da Borgonha.

Pfalz (Palatinado): Oferece vinhos com perfil muito aromático, equilibrando fruta fresca, acidez vibrante e um toque de especiarias.

Rheingau: Famosa pelos Rieslings, também elabora Pinot Noirs finos, minerais e incrivelmente elegantes.

Principais Produtores e Rótulos - Bernhard Huber: Conhecido como o "Rei do Pinot Noir" na Alemanha, seus rótulos, como o Malterdinger Alte Reben Spätburgunder, são reverenciados internacionalmente.

Franz Keller: Referência absoluta em Baden, elabora vinhos de terroirs vulcânicos que esbanjam mineralidade.

Knipser e Jürgen Leiner: Grandes nomes em Pfalz, oferecem desde Pinot Noirs de excelente custo-benefício (como o Handwerk) até vinhos de corte de alto padrão.

August Kesseler: Produz a linha The Daily August, uma porta de entrada fantástica e acessível para o estilo alemão.

 

♦ Estados Unidos – entre o frio do Oregon e a neblina californiana: O Oregon pode ser considerado a principal referência norte-americana em Pinot Noir, que é a casta mais cultivada no local. Os melhores Pinot Noirs do Oregon são produzidos principalmente no Willamette Valley, ao sul de Portland, é famoso por conhecido por seus solos vulcânicos e clima fresco que resultam em vinhos com vibrantes frutas vermelhas, taninos aveludados e nuances terrosas, vinhos elegantes, com acidez viva e perfis aromáticos terrosos que lembram a Borgonha. Nomes de destaque incluem Antica Terra Botanica, Roserock Zephirine, Thomas e rótulos da Domaine Drouhin.


Na Califórnia, apesar do clima geralmente mais quente, áreas como Russian River Valley (Sonoma), Carneros (Napa) e Santa Bárbara apresentam microclimas mais frescos graças à influência do Oceano Pacífico. Os vinhos tendem a ser mais frutados, intensos e de corpo médio.


Os melhores Pinot Noirs da Califórnia destacam-se pelo frescor e pela elegância de regiões de clima frio, como Santa Rita Hills, Sonoma Coast e Russian River Valley. Entre os rótulos de maior prestígio estão o cobiçado Sea Smoke Southing Pinot Noir, o aclamado Littorai Platt Vineyard, o Hirsch Vineyards Raschen Ridge Estate e o Las Alturas Belle Glos.

Destaques e Regiões de Origem:

Sta. Rita Hills: Localizada no Condado de Santa Bárbara, esta área é fortemente influenciada pelos ventos do Pacífico. É a casa do renomado Sea Smoke, conhecido por seus vinhos intensos, com notas de cereja escura e fundo terroso.

Sonoma Coast: Famosa por seus vinhedos próximos ao mar, produzem vinhos como os da Hirsch Vineyards, reconhecidos pelo perfil aromático complexo, taninos finos e frescor.

Russian River Valley: Mais conhecido pelos seus Pinot Noirs frutados, sedosos e de acidez brilhante.

 

♦ Nova Zelândia – elegância do outro lado do mundo: A Nova Zelândia consolidou-se como uma das maiores referências mundiais em Pinot Noir, produzindo vinhos admirados por sua combinação entre finesse, profundidade aromática e extraordinária expressão de terroir.


É considerada por muitos o melhor lugar fora da França para a produção de Pinot Noir. O país construiu, com uma rapidez impressionante, uma excelente reputação na produção de Pinot Noir de qualidade. Em regiões frias como Central Otago e Martinborough, o clima continental, a altitude e a grande amplitude térmica favorecem a produção de Pinot Noir vibrantes, minerais e extremamente elegantes, frequentemente comparados a grandes vinhos da Borgonha.


Alguns produtores de destaque são a lendária Ata Rangi que tornou-se referência absoluta em Martinborough, elaborando vinhos de enorme profundidade, longevidade e precisão. Em Central Otago, os cultuados Pinot Noir da Burn Cottage, incluindo o sofisticado Moonlight Race e o icônico Burn Cottage Vineyard, expressam um estilo biodinâmico refinado e profundamente ligado ao terroir. Já a histórica Rippon, às margens do lago Wānaka, produz vinhos de enorme delicadeza mineral, incluindo parcelas especiais como Emma’s Block e Tinker’s Field, consideradas algumas das mais fascinantes expressões de Pinot Noir do Hemisfério Sul. Sem esquecer a elegante interpretação da Palliser Estate, em Martinborough.


Os grandes Pinot Noir da Nova Zelândia costumam revelar aromas de cereja, framboesa, flores secas, especiarias finas, ervas alpinas e nuances terrosas sutis. Em boca, destacam-se pela combinação entre textura sedosa, acidez vibrante, taninos extremamente refinados e extraordinária pureza aromática, criando vinhos de enorme elegância e precisão.

 

♦ Austrália – crescimento consistente nas regiões mais frias: Embora o clima australiano nem sempre favoreça a Pinot Noir, algumas regiões vêm mostrando excelentes resultados. Yarra Valley, Geelong, Mornington Peninsula e Tasmânia possuem clima mais frio e vêm se destacando na produção de vinhos tintos expressivos e também espumantes de método tradicional, onde a Pinot é protagonista ao lado da Chardonnay.


Os rótulos mais aclamados incluem o icônico Bass Phillip Reserve Pinot Noir, o prestigiado Stefano Lubiana La Roccia, os cobiçados By Farr Sangreal e o elogiado Giant Steps Applejack. Para entender a excelência desses vinhos, vale a pena conhecer os destaques de cada região:

Tasmânia: Reconhecida como a região mais promissora para a casta. Produz vinhos sofisticados, com acidez vibrante e pureza de frutas vermelhas. O destaque vai para o Stefano Lubiana La Roccia Pinot Noir 2022, eleito Vinho Australiano do Ano.

Vale de Yarra (Victoria): Uma das áreas mais tradicionais. Seus vinhos possuem aromas perfumados de cereja, especiarias e toques defumados. O Giant Steps Applejack 2024 é frequentemente considerado um dos melhores do país, seguido pelo aclamado Mount Mary Pinot Noir 2021.

Geelong e Mornington Peninsula (Victoria): Localidades de influência costeira que produzem rótulos encorpados, complexos e com excelente potencial de guarda. O By Farr Sangreal Pinot Noir 2023 lidera as avaliações no ranking da Vivino.

Gippsland (Victoria): Lar do lendário Bass Phillip Reserve, um vinho escasso e de produção ultra limitada, famoso pela riqueza equilibrada com a acidez e notável capacidade de envelhecimento.

 

♦ Chile – potencial crescente: O Vale de Casablanca, principal região produtora de Pinots do Chile, sofre influência marítima do Oceano Pacífico e recebe uma névoa matinal fria, que favorece a produção de vinhos frescos. No Vale de San Antonio (especialmente Leyda), as condições são ótimas para criar um Pinot Noir cheio de frutas, acidez e mineralidade. Já os Vales de Bío-Bío e Malleco, oferecem clima frio ideal para vinhos com frescor, acidez viva e boa estrutura.

Os melhores pinot noir têm origem em áreas mais frescas. Do norte, os destaques foram alguns exemplares do Vale de Limarí, como P.S. Garcia e o Amelia da Concha y Toro, e do Atacama, o Tara da Ventisquero.

Da região costeira, mais próxima às águas frias do Oceano Pacífico, há excelentes como os magníficos Ventolera, do Vale de Leyda, e Terranoble e Casas del Bosque, do Vale de Casablanca.

Do extremo sul vieram grandes vinhos como os pinot Sol de Sol, os de Francisco Baettig, os da Morandé e P.S. Garcia.

 

♦ Argentina – o poder da latitude da Patagônia: A Patagônia argentina, com destaque para Neuquén e Río Negro, apresenta clima seco, pouca chuva e forte incidência solar. Essas regiões estão localizadas a baixa altitude, não ultrapassando os 415 metros, mas como consequência da latitude, a temperatura noturna nessas áreas é baixa, tendo um efeito compensatório.

Principais Destaques e Produtores:

Bodega Otronia: Localizada no extremo sul (Chubut), seus vinhedos orgânicos enfrentam ventos de até 110 km/h. O Otronia Pinot Noir tem grande caráter, estrutura tânica e é um dos ícones da região.

Bodegas Chacra: Localizada em Río Negro, é um dos projetos mais reverenciados da região. Seu vinho Barda Pinot Noir reflete a finesse e a pureza de frutas vermelhas.

Bodega Del Fin Del Mundo: Situada em Neuquén, oferece vinhos elegantes e macios. Você pode encontrar rótulos como o Fin Single Vineyard Pinot Noir que combina notas de morango, framboesa e sutis especiarias.

Ernesto Catena (On The Road): Elaborado em clima fresco, resultando em um rótulo que mistura o caráter clássico da Borgonha com toques

 

♦ Brasil – vinhedos de altitude e ótimos espumantes: No Brasil, a Pinot Noir é cultivada com maior foco na produção de espumantes. No entanto, diversas vinícolas têm produzido ótimos vinhos em regiões mais altas do Rio Grande do Sul, como Campos de Cima da Serra e regiões de altitude em Santa Catarina - que oferecem clima ameno e noites frias, favorecendo uvas com boa acidez e delicadeza.


A Pinot Noir encontra terroirs excepcionais no sul e sudeste do Brasil, destacando-se pela elegância. Entre os rótulos mais aclamados estão o Fúlvio (Atelier Tormentas), premiado e comparado aos Borgonhas, o Sfera (Vinícola Arbugeri), eleito o melhor do país, e o Da'Divas (Lidio Carraro). A produção brasileira de Pinot Noir destaca-se por rótulos elegantes, frescos e frutados, ideais para consumo jovem.

Os destaques nacionais:

Atelier Tormentas Fúlvio 2020: Produzido em Canela (RS) com uvas de Encruzilhada do Sul. É aclamado por críticos, como os da ABS São Paulo, pela complexidade que remete aos grandes rótulos franceses.

Vinícola Arbugeri Sfera 2021: Eleito o melhor Pinot Noir na Avaliação Nacional de Vinhos, destacando-se pelo equilíbrio e tipicidade.

Lidio Carraro Da'Divas Pinot Noir: Elaborado em Encruzilhada do Sul (RS), apresenta taninos macios, frutas vermelhas frescas e excelente frescor.

Outros destaques regionais: Marcas como Casa Valduga e Villa Francioni também entregam rótulos de altíssimo nível, cultivados na Serra Catarinense e na Serra Gaúcha.

 

As diversidades da Pinot Noir tornam seus vinhos tão fascinantes! Na próxima semana continuaremos explorando o tema!!! Saúde!!! Que tal comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).

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O VINOTÍCIAS foi criado por Márcio Oliveira, com o intuito de disponibilizar em um único espaço dicas de vinho, enogastronomia, eventos, roteiros de viagens e promoções. Inicialmente era disponibilizado na forma de uma newsletter para alunos, ex-alunos e amantes do vinho, com o crescimento do mercado e o amadurecimento do projeto a necessidade de um espaço maior para tantas informações se fez necessário e assim surgiu o blog e o site.

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