• Marcio Oliveira - Vinoticias

“D. PEDRO II E O BAILE DA ILHA FISCAL”

Nestes artigos recentes, descrevendo os vinhos que algumas personalidades beberam, faltava dar uma pincelada sobre o Brasil. Há poucos relatos sobre o que se bebia, menos pelo último jantar oficial no Rio de Janeiro, durante o reinado de Dom Pedro II. O baile da Ilha Fiscal marcou a sociedade da época pelo luxo e requinte, e antecedeu em quase uma semana a Proclamação da República.

Inicialmente marcado para o dia 19 de outubro, foi adiado por ocasião da morte do rei Luís I de Portugal (1861-1889), sobrinho de Pedro II do Brasil. O jantar foi planejado em homenagem aos oficiais do navio chileno “Almirante Cochrane” e celebrando as bodas de prata da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, numa festa preparada com muito cuidado pelo Visconde de Ouro Preto - Afonso Celso de Assis Figueiredo, Presidente do Conselho de Ministros de Dom Pedro II, já que o Imperador era pouco afeito a festividades (a última festa da Casa Imperial foi em 1849, ou seja, em 40 anos antes deste. O imperador Dom Pedro II tinha hábitos alimentares muito simples e apreciava as aves encontradas no Brasil.


Para muitos historiadores, este evento – chamado de Baile da Ilha Fiscal, foi uma pá de cal para a monarquia brasileira, por ter dado mais ânimo aos republicanos, por conta dos questionamentos da população e principalmente dos partidários da república, pelo gasto exorbitante com a festa. Teria sido um ato político para demonstrar o poder do governo frente aos constantes ataques republicanos. A festa teria custado 250 réis aos cofres públicos, o que hoje corresponderia a alguns milhões de reais. Em termos proporcionais, o valor correspondia a 10% do orçamento destinado a toda província do Rio de Janeiro! O cardápio, guardado até hoje no acervo da Biblioteca Nacional, dá uma ideia da grandiosidade do evento e o menu de bebidas deixaria qualquer enófilo de queixo caído.


♦ O PLANEJAMENTO DA FESTA

O cardápio do banquete, com enfeites nas cores das bandeiras do Brasil e do Chile, foi escrito em francês e a forma de servir também seguia as regras oficiais da França. Uma das coisas que estava acontecendo na época era o protocolo dos serviços da mesa. Em Portugal, ele ainda era novo. Na França, porém, já havia o costume de o garçom levar o prato à mesa.


Uma lista de planejamento da festa conta com 3.000 pratos de sopa, 50 caixas de peixes, 800 latas de lagosta, 800 quilos de camarões, 100 latas de salmão, 3.000 latas de ervilhas, 1.200 latas de aspargos, 800 latas de trufas, 3.500 peças de caça, 1.500 costeletas de carneiro, 1.200 frangos, 250 galinhas, 500 perus, 64 faisões, 80 patos, 23 cabritos, 25 cabeças de porco, 18 mil frutas, 20 mil sanduíches, 12 mil porções de sorvetes.


Foram separados para a festa 12 mil garrafas de vinho, licores e cervejas, 200 caixas do mais autêntico champagne francês, 500 pratos de doces, mil peças de caças e milhares de sorvetes para serem servidos.


Toda a decoração foi feita em verde, amarelo, azul e vermelho, lembrando as cores das bandeiras de Brasil e Chile. Milhares de velas e lanternas iluminavam o local.


A equipe de serviço se compunha de 150 copeiros que trabalhariam sem parar. E 48 cozinheiros se dedicaram durante três dias seguidos para preparar o banquete. Segundo os jornais da época, enormes toldos abrigavam várias mesas de buffet e, no lado oeste, havia enormes mesas para a ceia enfeitadas com coroas de flores artificiais. O serviço foi feito pela empresa Casa Pascoal. Toda a porcelana usada foi produzida especialmente para a ocasião. Existia um buffet separado para as senhoras e outro exclusivo para a família imperial.


A distribuição dos 5 mil convites começou no dia 4 de novembro. As roupas finas das lojas do Rio de Janeiro se esgotaram. Setenta e duas horas antes do baile já não havia vagas nos cabeleireiros. As senhoras lotavam as lojas de roupas finas e os cavalheiros recorriam aos alfaiates, para ajustar suas casacas e às barbearias, para cortar o cabelo ou aparar os bigodes e barbas.


♦ O DIA E A FESTA

Era o sábado 9 de novembro de 1889, e o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, parou. As lojas do Centro foram fechadas mais cedo e as barbearias estavam cheias. As mulheres aguardavam os cabeleireiros e maquiadores em casa.


Pouco antes das 20h, o porto estava lotado. Não se sabe ao certo quantas pessoas foram convidadas, mas a impressão era que todos os 500 mil moradores da capital estavam ali. Barcos e lanchas carregados de lanternas cruzavam de um lado para o outro na Baía de Guanabara. A comitiva imperial desembarcou na ilha por volta das 22h.


A Ilha Fiscal contava com um gerador, instalado num barracão ao lado do palacete, que forneceu eletricidade para milhares de lâmpadas dentro e fora do edifício. Além das milhares de velas, balões e lanternas venezianas, os holofotes do couraçado Almirante Cochrane e de outros navios da Marinha ancorados ali perto faziam com que a ilha fosse o lugar mais iluminado do mundo, como escreveram os jornais da época.


Entretanto, apenas os convidados mais importantes tiveram acesso ao jantar. Os outros degustaram um luxuoso coquetel. Nas mesas de servir das autoridades, peças inteiras de caça e peixe eram exibidas. Em um canto, enormes castelos com um metro de altura feitos de açúcar e com torres que guardavam delicadíssimos bombons.


No jantar, foram servidos 32 pratos e 28 tipos de bebida. A realidade daquele tempo era o exagero. As festas da corte costumavam ter de 30 a 40 variedades de pratos. Era uma verdadeira “bagunça culinária”, quando se ficava na mesa por horas e horas, com muita comida ao redor.


♦ O MENU SERVIDO

O coquetel tinha sanduíches com foie gras e sorvete de frutas, a grande novidade da época. O anfitrião da festa, Visconde de Ouro Preto, propôs um brinde depois que o champagne foi servido. “Viva o Chile” foram as últimas palavras do discurso. Depois, o jantar foi servido.


Entre os pratos com grafia francesa: Crême à la Richelieu, Jacutinga et pigeons sauvages à la Guanabara, Galantine à la Province de Minas, Veau à la Siberienne, Grand pudding à la Diplomate, podem ser entendidos como badejo e bijupirá com purê, perdiz com licor e língua de boi. Jacutingas (ave da Mata Atlântica muito usada na culinária da época), pombo selvagem e peru recheado com castanhas e presunto também foram servidos.


As técnicas de cocção eram francesas, mas alguns ingredientes, brasileiríssimos. Apesar do faisão ser uma comida francesa típica para grandes jantares, usaram-se aves brasileiras, por conta da própria preferência do imperador.


Dom Pedro II preferia os pratos mais simples. Uma das histórias mais conhecidas sobre ele é que gostava muito de escaldado, uma receita que leva farinha com água. Ele era um homem discreto, e neste momento, ao final de 58 anos de reinado, sua imagem estava desgastada, assim como sua relação com a elite.


Ele era visto de forma muito afável pela grande massa da população. Não era um imperador odiado, apenas não era muito questionado. Foi um grande investidor em tecnologia e trouxe muitas transformações para o Brasil.


A sobremesa era uma parte muito valorizada da refeição. O sorvete era novidade, um luxo. Os doces do último banquete também foram feitos para agradar ao monarca. Eram europeus com toques brasileiros. Foram servidas frutas e castanhas açucaradas, bombons, manjares, creme de chocolate e frutas cobertas com fondant. E quase todas as receitas tinham frutas tropicais.


♦ OS VINHOS SERVIDOS

Pelas contas das bebidas servidas, sabe-se que cada convidado bebeu pouco menos que uma garrafa de vinho e cerca de 2 litros de cerveja. Além de beber em profusão, os participantes do jantar puderam provar vinhos de qualidade. O menu tinha uma página dedicada somente aos vinhos com uma lista requintada: Madeira, Jerez, Grec Blanc, Marsala, Haut Sauternes Château d’Yquem, Johannisberg Liebfraumilch, Marcobrunner Auslese, Chablis, Moscato, Passito d’Asti, Pontet Canet, Margaux, Château Lafitte, Château Léoville, Château Bécheret, Château Duplessis, Falerno, Lacrima Christi, Madeira Tinto, Chambertin-Pomard-Nuits-Romanée.


A lista ainda continha Portos: Vicomte Vellar y Ellen 1834, Vieux Exposition, Extra Especial, e vinhos doces: Moscatel, Moscatel de Siracusa, Tokay, Vin de Constance, Mosel Mousseux, Lacrima Christi Mousseux. E, por fim, Champagnes: Clicquot, Heidsièch Monopol, Heidsièch Grimum-Dry e Louis Röederer.


Esta lista está repleta de grandes nomes que perduram até hoje entre os melhores rótulos que podemos beber. Entre os Bordeaux estão alguns dos mais famosos vinhos de todos os tempos, como os Château Margaux e Lafite. Outros também renomados como Pontet-Canet e Léoville, que também fazem parte da classificação de Bordeaux de 1855. O histórico Château Duplessis também estava no menu. Para os amantes da Borgonha, a seleção parecia promissora, com vinhos de Chambertin, Pommard, Nuits Saint Georges e Romanée, só não se sabe o produtor ou negociante.


Na lista dos Champagnes estão verdadeiros ícones como Veuve Clicquot, Heidsieck & CO Monopole e Louis Roederer. Entre os doces, impossível não notar o mítico Château d’Yquem, de Sauternes, Tokay e um Porto de 1834, com nada menos que 55 anos nas costas.

Tudo foi feito com muito luxo, requinte e exagero. Segundo os relatos da época, muitos convidados perderam objetos de valor por causa da bebedeira. A comitiva imperial ficou no local até as 3h. Os convidados madrugaram. Às 5h, os barcos iluminados ainda passeavam pela baía carioca.


Os valores gastos na época obviamente foram alvo de crítica da imprensa e dos republicanos e apressou o fim do Império, mas não se pode dizer que a nobreza brasileira tenha aproveitado mal seus últimos dias.


Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (baseado em artigos disponíveis na internet e minhas considerações)

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