“LONGEVIDADE E PRODUTIVIDADE DAS VIDEIRAS”
- Marcio Oliveira - Vinoticias

- 27 de dez. de 2025
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Escrevi o artigo “LONGEVIDADE E PRODUTIVIDADE DAS VIDEIRAS” – A videira é um exemplo de planta perene; ela cresce ou floresce durante a primavera e o verão, morre durante o outono e o inverno e retoma o ciclo a partir de sua raiz na primavera seguinte.

Sem intervenção humana, as videiras crescem naturalmente, formando uma densa folhagem e galhos. A poda e a condução meticulosas ajudam as videiras a se manterem organizadas e a concentrarem sua energia no cultivo de uvas de excelente qualidade.
Existem mais de sessenta espécies diferentes de videiras, mas a maior parte da produção mundial de vinhos de qualidade provém de um único tipo, a Vitis vinifera. Videiras de origem norte-americana raramente são usadas exclusivamente para a produção de vinho, sendo utilizadas principalmente por suas raízes para criar-se mudas ou para o cultivo de uvas de mesa.
O primeiro ano de crescimento da videira tem como objetivo acumular reservas de nutrientes, para crescerem fortes e saudáveis. Para que a videira concentre sua energia no desenvolvimento de um sistema radicular robusto, os cachos de flores são podados. Produzir frutos tão cedo é uma meta ambiciosa, em detrimento da vida futura da videira.
Normalmente, por volta do terceiro ano de crescimento, a videira está pronta para produzir frutos com a qualidade adequada para a produção de vinho. Uma videira amadurece por até 30 anos, antes de seu vigor diminuir drasticamente, sendo que o termo comercial "videiras velhas" ou “vinhas velhas” pode ser aplicado por algumas vinícolas.
Durante os primeiros anos de vida de uma videira, o crescimento da madeira permanente (tronco) e a construção de um sistema radicular robusto são o foco principal. As videiras precisam de diferentes tipos de cuidados.
Uma videira é produtiva por muitos anos, podendo ser considerada uma planta de longevidade excepcional que vive até 100 anos ou mais, com produção contínua anual. A partir de 3 a 4 anos após o plantio, ela começa a produzir frutos, e a produtividade pode aumentar com o tempo, chegando a ser muito alta com manejo adequado.
Há vários fatores que influenciarão na longevidade e produtividade das videiras. A geografia é um fator importante – algumas regiões são simplesmente mais difíceis de cultivar uvas do que outras. Isso pode ser devido à topografia da região, à estrutura e drenagem do solo, bem como às suas condições climáticas, como níveis de umidade ou temperaturas extremas. Portanto, os viticultores precisam garantir que escolheram o local ideal para as variedades específicas de uva e o tipo de clones que pretendem plantar.
A videira requer solo bem drenado, fértil e com pH adequado (entre 5 e 6) para um desenvolvimento saudável das raízes. A correção correta do solo antes do plantio é essencial para o estabelecimento do vinhedo. Além disto, fatores ambientais como temperatura, luz e umidade do solo afetam o crescimento e a fisiologia da videira. Em regiões de clima temperado, com estações bem definidas, as plantas têm um período de dormência que contribui para sua maior longevidade, podendo produzir por até 50 anos ou mais em alguns casos.
A genética e porta-enxerto também fazem parte destes fatores: a variedade da uva e, crucialmente, o tipo de porta-enxerto (a parte da planta que forma o sistema radicular) influenciam diretamente a resistência a doenças de solo (como a filoxera) e a longevidade geral da planta.
● As práticas de manejo adequadas são cruciais. Isso inclui:
Poda: A arte e a técnica da poda (de produção e verde) são vitais para direcionar o crescimento e a produção da planta, evitando estresse desnecessário.
Nutrição e Adubação: Adubações corretas e balanceadas (como o uso de NPK e micronutrientes como o boro) estimulam o crescimento inicial e o vigor da planta, garantindo que ela receba os nutrientes necessários ao longo de seu ciclo de vida.
Irrigação: O manejo da água, especialmente em períodos de seca ou défice hídrico, é fundamental para o funcionamento da vinha e a composição dos frutos, prevenindo estresse hídrico que pode reduzir a longevidade.
Controle de Pragas e Doenças: A prevenção e o manejo eficiente de doenças e pragas, como podridões dos cachos, evitam danos que comprometam a saúde e a vida útil da videira.
● Os principais fatores que influenciam a produtividade da videira são:
Variedade: O ciclo de produção da uva varia de acordo com a cultivar, que pode ser precoce (90 a 120 dias) ou tardia (até 130 dias ou mais).
Região: O clima e as características de cada região influenciam o ciclo da videira e sua produtividade.
Manejo: O manejo adequado, incluindo a poda correta, é crucial para garantir uma boa produtividade ao longo dos anos. Há manejos que permitem uma colheita por ano - a videira produz uma safra anual, geralmente no verão. Há manejos que permitem duas safras por ano. Com técnicas específicas, é possível obter duas colheitas por ano e até mesmo produção contínua ao longo do ano, dependendo da região.
● O impacto da idade da videira na produção de vinho - A idade da videira pode ter um impacto significativo na produção de vinho. Videiras jovens, geralmente com menos de 10 anos de vida, apresentam vigor elevado, crescimento acelerado e altos rendimentos. Contudo, este vigor também se traduz em uvas mais diluídas, cachos grandes e menos concentração de açúcares, ácidos e compostos aromáticos. A produção tende a ser volumosa, porém, com menor intensidade e tipicidade. Vinhas jovens podem gerar entre 8 e 12 toneladas de uvas por hectare, dependendo da variedade e região.
Já as videiras mais velhas tendem a equilibrar seu ciclo vegetativo e reprodutivo. O crescimento desacelera e o sistema radicular se aprofunda, podendo chegar a 8 metros. Além de garantir a sobrevivência em condições adversas, estas raízes profundas proporcionam uma expressão mais complexa do terroir. Com o tempo, o tronco e os galhos tornam-se mais grossos, o fluxo de seiva se regula, e a planta então passa a priorizar a qualidade da fruta em detrimento da quantidade.
Quando uma videira alcança 30, 50 ou até mesmo 100 anos, sua produção atinge níveis muito baixos – cerca de 2 a 4 toneladas por hectare. As uvas tornam-se menores, com cascas mais espessas em relação à polpa, aumentando a concentração de compostos fenólicos, taninos, antocianinas e polifenóis.
Estes componentes são fundamentais para a complexidade aromática e o potencial de envelhecimento dos vinhos. Embora menos produtivas, as vinhas antigas costumam ser mais estáveis, entregando safras consistentes mesmo em anos desafiadores ou difíceis.
● Vinhas velhas resultam em vinhos melhores? A associação entre vinhas velhas e vinhos excepcionais é frequente e, em muitos casos, verdadeira. Mas a resposta a essa pergunta não é simples e depende de diversos fatores. Videiras mais antigas podem gerar frutos de maior qualidade e complexidade. No entanto, tal potencial depende do manejo do vinhedo, da variedade da uva, do terroir e dos objetivos do produtor. É possível produzir vinhos ruins a partir de uvas de ótima qualidade com origem em vinhas velhas se houver descuidos na vinificação. Da mesma forma, vinhas jovens bem conduzidas em ótimos terroirs podem gerar vinhos excelentes.
Os vinhos criados a partir de uvas de vinhedos antigos frequentemente se destacam pela intensidade aromática, profundidade de sabor, textura densa e complexidade. Essa concentração é resultado do baixo rendimento natural das plantas velhas, que direcionam a energia para poucos cachos de uva, conferindo-lhes maior riqueza sensorial.

Vinhas antigas, contudo, exigem manejo cuidadoso e, muitas vezes, técnicas de cultivo quase artesanais. A baixa produção faz com que o custo por litro gerado seja maior, tornando esses vinhos mais caros no mercado. Além disso, se a videira velha não for bem cuidada, pode produzir uvas de qualidade inferior, apesar da idade avançada.
● O que é uma vinha velha? Na verdade, não existe uma definição legal universal do que constitui uma vinha antiga. Dito isso, vale ressaltar que as videiras podem viver por mais de 125 anos, com sua produção tendendo a diminuir gradualmente após atingirem cerca de 20 a 25 anos de idade.
Não há uma lei ou regra internacional sobre quando uma videira passa a ser considerada “velha”. A definição pode variar dependendo da região e do produtor. Em algumas áreas, considera-se videiras com mais de 25 anos velhas, enquanto em outras, o limiar pode ser de 40 anos ou mais. O consenso é que, a partir de 25 anos, as videiras começam a apresentar características que podem melhorar a qualidade do vinho.
Na França, por exemplo, videiras costumam ser consideradas velhas a partir dos 45 anos. Já na Espanha, utiliza-se o termo “viejas” (velhas) para videiras com pelo menos 30 anos. Em Portugal, especialmente na região do Douro, são consideradas “vinhas velhas” aquelas com mais de 50 anos, refletindo a extraordinária longevidade das videiras nesta região histórica.
Na Austrália, o Barossa Old Vine Charter – uma das poucas regulamentações sobre o assunto – estabeleceu uma classificação gradual:
“Old Vine”: 35+ anos
“Survivor Vine”: 70+ anos
“Centenarian Vine”: 100+ anos
“Ancestor Vine”: 125+ anos
Já na Califórnia, onde a viticultura comercial é relativamente mais recente, vinhas com 30-35 anos já podem ser classificadas como “velhas”, embora regiões como Sonoma e Lodi orgulhosamente preservem blocos de Zinfandel e outras variedades centenárias.
Vale lembrar que os termos “vinhas velhas”, “vieilles vignes”, “old vines” ou “vinhas antigas” muitas vezes não têm regulamentação. Em vários países, produtores podem usar o rótulo livremente, mesmo com plantas de idade relativamente baixa. Por isso, é recomendável pesquisar a reputação do produtor e as práticas da vinícola.
● Por que as vinhas antigas são tão valorizadas pelos viticultores e apreciadores de vinho? Além do prestígio que envolve as vinhas antigas e seu lugar na história da viticultura, existem muitas razões práticas pelas quais elas são tão valorizadas. Embora as vinhas produzam menos frutos à medida que envelhecem, os frutos que produzem tendem a ser mais concentrados, resultando em um vinho mais concentrado.
Quanto mais tempo vivem, mais profundas são suas raízes, portanto, as vinhas mais velhas também são menos propensas a serem afetadas negativamente por condições de seca ou variações de temperatura, resultando em menos variação de safra para safra. Elas também amadurecem de forma mais consistente. E, assim como qualquer outra coisa que consegue atingir uma "idade avançada e madura", uma vinha antiga provavelmente será saudável.
A idade da videira é, sem dúvida, um fator relevante na qualidade do vinho. Videiras antigas, quando bem cuidadas, oferecem menor rendimento, mas uvas de altíssima qualidade, resultando em vinhos mais complexos, elegantes e com capacidade de envelhecimento. Suas raízes profundas, maturidade fisiológica e estabilidade são atributos que refletem diretamente na taça.
Por outro lado, é importante não cair na máxima de que apenas vinhas velhas produzem bons vinhos – ou de que sempre produzirão ótimos vinhos. Plantas jovens, quando aliadas a um bom terroir e práticas enológicas adequadas, também podem originar rótulos de altíssimo nível, especialmente com foco na expressão frutada, frescor e leveza.
A grande dica, portanto, ao escolher um vinho, será tentar conhecer a idade do vinhedo, especialmente para quem busca vinhos mais profundos, complexos e estruturados! Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).





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