“VINHOS DO EXTREMO CALOR”
- Marcio Oliveira - Vinoticias

- 27 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Já que escrevemos sobre vinhos de clima extremamente frios como a Suécia, agora é hora de escrever sobre vinhos de clima extremamente quentes.

As mudanças climáticas estão tornando a produção de vinho um negócio cada vez mais instável. Muitas regiões vinícolas ao redor do mundo podem se tornar impróprias para o cultivo de uvas caso o planeta ultrapasse 2 graus Celsius de aumento climático causado pela ação humana, segundo um relatório de 2024. A corrida está em andamento para os produtores de vinho: alguns deles estão arrancando vinhas para substituí-las por variedades mais resistentes, como o francês Chapoutier no Rhône, arrancando vinhas e plantando agave.
Alguns produtores europeus estão olhando para o norte em busca de terras com condições de cultivo semelhantes para garantir a sustentabilidade de seus negócios no futuro, como por exemplo a instalação de “maisons” de champanhe comprando terras e plantando vinhas em Kent, no Reino Unido.
Quando, entretanto, pensamos em climas quentes, a África vem a mente. A Namíbia é um país do sul da África, banhado pelo Oceano Atlântico Sul a oeste, limitada por fronteiras com Angola e Zâmbia ao norte, pela África do Sul ao sul e por Botsuana a leste. Estendendo-se entre as latitudes sul de 16 e 28 graus, grande parte da Namíbia é quente e seca demais para sustentar uma viticultura produtiva.
Entretanto, uma pequena quantidade de vinho é produzida na Namíbia, principalmente a partir de uvas Shiraz, Colombard e Ruby Cabernet de mudas importadas da região vinícola do Cabo, na África do Sul. Essas vinhas cobrem apenas alguns hectares. A maioria dos vinhedos da Namíbia é utilizada para a produção de uvas de mesa, e não para fins enológicos.
As vinhas estão localizadas principalmente no sul do país, ao longo do Rio Orange, que flui para oeste a partir da região do Cabo Setentrional, na África do Sul. O rio não só fornece uma fonte vital de irrigação, como também oferece um grande volume de água que modera as temperaturas e proporciona um efeito refrescante.
A Namíbia foi colonizada pela Alemanha em 1884, e os primeiros vinhedos foram plantados por padres católicos alemães em Windhoek, a capital do país. A primeira vinícola comercial de pequena escala foi fundada por Helmuth Kluge em Omaruru, em 1990. O local ainda está em operação hoje, com a vinícola Kristall Kellerei produzindo uma variedade de vinhos de frutas e brandy (conhaque).

A vitivinicultura na Namíbia ainda é pouco conhecida, mas guarda uma história fascinante de resiliência em pleno deserto. Em meio a um dos climas mais áridos do planeta, onde temperaturas podem ultrapassar 50 °C, projetos como o Neuras Wine & Wildlife Estate mostram que é possível produzir vinhos de personalidade a partir de irrigação minimalista, noites surpreendentemente frias e solos arenosos que desafiam qualquer viticultor. O resultado são rótulos que expressam a personalidade do terroir extremo e que merecem serem provados por alguém que procura fugir do óbvio.
♦ NEURAS WINE & WILDLIFE ESTATE - Começando pelas vinhas mais antigas, Neuras está situada no sopé das montanhas Naukluft e é conhecida como a vinícola com o segundo terroir mais seco do mundo (o terroir mais seco do mundo do vinho está localizado no Deserto de Atacama). O nome Neuras tem origem na língua local Koikoi, que significa "lugar de água abandonada", em referência às cinco nascentes que brotam ao longo de uma falha geológica.
Durante a era colonial alemã na Namíbia, um agricultor chamado Ernst Hermann começou a cultivar vegetais e cereais em Neuras em 1894 para alimentar a Schutztruppe (tropas coloniais) que patrulhavam a região. Ele também plantou algumas uvas de mesa. Mais de um século depois, essas mesmas videiras ainda produzem frutos e inspiraram Allan Walkden-Davis, antecessor do atual proprietário, a plantar um vinhedo e produzir um vinho de terroir árido.

Walkden-Davis e sua esposa, Sylvia, plantaram Shiraz, Merlot e Petit Verdot em 1998 e engarrafaram os primeiros vinhos Neuras em 2001. Em 2012, a Neuras foi adquirida por seus atuais proprietários, N/a’an ku sê, que desde então aumentaram os 1,2 hectares originais de vinhedos para quase 4 hectares. A N/a’an ku sê também expandiu seus negócios, combinando sua marca de ecoturismo com a produção de vinhos e a conservação da vida selvagem.
A linha Neuras consiste em três vinhos tintos: Neuras Shiraz, o Neuras Triple Cultivar Blend (Shiraz, Mourvèdre e Grenache) e o Neuras Triple Clone Shiraz (três clones diferentes de Shiraz cultivados no mesmo bloco de vinhedo). Com uma produção de cerca de 5.000 garrafas por ano, esta não é uma vinícola comercial, mas, como as outras vinícolas da Namíbia, é justamente isso que a torna especial. É interessante notar que o primeiro rum e o primeiro brandy do país foram destilados na Neuras.
A vinícola boutique é, segundo seus proprietários, o vinhedo mais seco fora do Deserto do Atacama, no Chile. Lidando com um clima hostil e com babuínos famintos, a Neuras trilhou um caminho que a levou do entusiasmo amador à produção de vinhos premiados, colocando este canto remoto da África no mapa da viticultura. Nos últimos anos, a pequena vinícola conquistou medalhas internacionais, incluindo ouros e duplas medalhas de ouro, por seu vinho tinto, vinho de sobremesa rubi e "nappa" (uma bebida destilada semelhante à grappa).
As uvas são cultivadas sob redes para protegê-las dos famintos babuínos e kudus (grandes antílopes) que vagam pela região. Todo mês de janeiro, meia dúzia de funcionários colhe as uvas manualmente entre 6h e 7h30 da manhã, em ponto, antes que o calor do dia se intensifique. Após a fermentação em barricas por 12 a 18 meses, uma linha de engarrafamento manual "bem tradicional" é instalada, para finalizar os vinhos produzidos na temporada.
A Neuras está atenta às mudanças necessárias. O vinhedo está explorando o cultivo da Pinotage, uma uva tinta conhecida por sua resistência e menor necessidade de água, plantada em um sistema de treliça não convencional mais adequado para as condições de seca.
Além de oferecer acomodações encantadoras na fazenda, Neuras também abriga sete guepardos resgatados em decorrência de conflitos entre humanos e animais selvagens. Os hóspedes podem observar a alimentação desses felinos e aprender mais sobre os esforços de conservação da N/a’an ku sê.
♦ VINÍCOLA ERONGO MOUNTAIN - A mais recente vinícola da Namíbia e a maior, a Vinícola Erongo Mountain, foi fundada por Wolfgang e Esther Koll. Sua primeira safra foi produzida em 2014. O terreno de 9 hectares originalmente possuía um olival com cerca de 3.500 oliveiras, mas devido às temperaturas extremamente baixas em uma noite de inverno, a maioria das plantas morreu. Decidiu-se então plantar um vinhedo e iniciar uma vinícola.

A vinícola orgulha-se de ter quatro vinhos tintos, três vinhos brancos e um espumante aromatizado com frutas, feito com a fruta nativa maguni (uma fruta com polpa doce, rica em sementes e encontrada principalmente no sul da África, ela tem uma casca grossa que precisa ser aberta para se comer a polpa que circunda as sementes), colhida na região de Kavango, situada na margem norte do rio Omaruru, a oeste da cidade. A pitoresca sala de degustação e o restaurante oferecem vista para o pequeno vinhedo. Sendo a única vinícola com sua própria pequena instalação de engarrafamento e maquinário de rotulagem, pode-se considerá-la a vinícola mais comercial da Namíbia.
A sugestão de almoçar após a degustação é válida. A culinária franco-alemã com influências mediterrâneas, especialidades locais e raridades preparadas pelo chef Frederic Lutz, premiado com estrela Michelin, é o acompanhamento perfeito para a sua seleção de vinhos.
♦ KRISTALL KELLEREI - Protegida por antigas acácias-camelthorn, a Kristall Kellerei e seus vinhedos estão situados a dois quilômetros a leste de Omaruru, na margem sul do rio Omaruru. Ali, é comum ver vagens de acácia-camelthorn espalhadas entre as videiras.
A Kristall Kellerei teve início em 1990, quando o apaixonado por vinhos Helmut Kluge plantou as primeiras videiras em um terreno escolhido pela disponibilidade de água e pela ausência geral de geadas. A primeira safra foi em 1996, tornando-o o primeiro vinicultor da Namíbia depois da missão católica de Windhoek.
No início de 2008, outro apreciador de vinhos, Michael Weder, comprou a Kristall Kellerei de Kluge e adicionou Malbec, Mourvèdre, Shiraz e Barbera às variedades já existentes de Colombard e Tinta Barroca. Além do Sunbird Late Harvest Colombard, do Rüppels Parrot Colombard e do blend tinto Paradise Flycatcher (Cabernet Sauvignon, Ruby Cabernet e Tinta Barroca), os visitantes também podem degustar a impressionante gama de bebidas espirituosas produzidas na Destilaria Naute Kristall, a 550 km ao sul de Windhoek, perto de Keetmanshoop, onde Weder reside atualmente.
Ainda não temos notícias de vinhos da Namíbia no Brasil, mas não será surpresa se em breve aparecer algum rótulo por aqui! Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).





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