• Marcio Oliveira - Vinoticias

“OS VINHOS DE THOMAS JEFFERSON”

Thomas Jefferson foi o terceiro presidente dos Estados Unidos, principal autor da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América e fundador da Universidade da Virginia, além disto, foi o primeiro embaixador americano na França, um grande inventor e mestre jardineiro. Ele pode ser considerado o primeiro grande conhecedor de vinhos da América do Norte - algo sobre o qual os historiadores estão cada vez mais se surpreendendo enquanto estudam adega de Jefferson.

Apesar do calor que costuma fazer no verão, no centro da Virgínia, os historiadores de Monticello se mantiveram frios na adega subterrânea, tentando descobrir como seria a vida deste estadista quando Jefferson morou na propriedade. Monticello é um casarão localizado nas proximidades de Charlottesville, na Virginia. Ela foi construída conforme o projeto do próprio Jefferson e situa-se num cume com 255 metros de altura da parte Sul da “Rivanna Gap”, nas Montanhas do Sudeste. Não é à toa que Monticello, em italiano significa "pequena montanha".

A importância deste casarão na história dos Estados Unidos é tanta que uma imagem da fachada Oeste de Monticello foi reproduzida no reverso das moedas de 5 cêntimos de dólar dos Estados Unidos, cunhada entre 1938 e 2003 (a imagem regressou ao reverso do desenho da moeda em 2006), e no reverso da nota de 2 dólares dos Estados Unidos imprimida entre 1928 e 1966. Desde 1987 Monticello foi designado como Patrimônio Mundial da Humanidade, uma honra que partilha com a vizinha Universidade da Virginia. É a única residência dos EUA a merecer tal classificação. Também já havia sido listada como um edifício no Registro Nacional de Lugares Históricos em 15 de outubro de 1966 e um Marco Histórico Norte Americano em 19 de dezembro de 1960.


A Adega de Jefferson em Montecillo com cerca de 20 metros quadrados, fica no subterrâneo do casarão, atrás de uma porta de duas camadas de espessura, com correias de ferro, fortificada e trancada com duas chaves, o que é uma boa indicação do valor do que estava sendo guardado ali dentro.


Nos primeiros dias, Jefferson bebeu o que a maioria dos ingleses gostava: vinhos pesados e doces como o Porto e Jerez. Mas Gabriele Rausse, que veio da Itália para Monticello para cuidar de seu vinhedo, diz que os gostos de Jefferson começaram a mudar durante a Guerra Revolucionária. Foi quando ele entrou em contato com mercenários alemães conhecidos como Hessians, que lutaram pelos britânicos e estavam sendo mantidos prisioneiros perto de sua casa.


Os Hessians apresentaram a Jefferson o vinho alemão e deram-lhe caixas para levar com ele durante sua estadia como embaixador na França. Foi neste período que Jefferson descobriu os vinhos franceses e se encantou, e ainda realizou pelo menos duas longas viagens às regiões vinícolas da França, Itália e Alemanha


Então, o que Jefferson bebeu? Muitas coisas: Madeira, Porto, Sauternes, Bordeaux (ele gostava particularmente do Château Haut-Brion), Champagne, Hermitage, Riesling do Reno e Mosel, Jerez, tintos da Toscana, Volnay e Montrachets da Borgonha, o que corresponde a vinhos de algumas de melhores regiões de produção até hoje.


Quando voltou aos Estados Unidos, Jefferson encomendou garrafas de vinho diretamente dos melhores vinhedos e produtores franceses. Encomendar garrafas era incomum em uma época em que a maioria dos vinhos viajava em barris de madeira. Mesmo que as garrafas pudessem se quebrar no trânsito, elas ainda estavam mais seguras de intermediários que poderiam diluir o conteúdo de um barril de madeira ou de marinheiros que poderiam ficar com sede durante a longa viagem transatlântica.

Jefferson fez vinho com uvas nativas cultivadas em casa, mas ele tentou e falhou repetidamente até optar para vinificar com uvas viníferas com mudas importadas da França. Toda a história do cultivo de uvas no leste da América do Norte é a história de uma catástrofe e falha, uma após a outra. Acredita-se que insetos nativos e doenças podem ter matado as vinhas importadas da Europa, ou as vinhas podem ter secado durante semanas de trânsito. Há também o fato da phylloxera ser natural nos solos norte-americanos e poder ter atacado as mudas de videiras europeias.


Pode-se pensar que Jefferson tenha sido o primeiro grande produtor de vinho da América. "Houve, como de costume, uma dissertação sobre vinhos", observou John Quincy Adams em seu diário após jantar com Jefferson em 1807. Entretanto, seus vinhos foram considerados como "Não é muito edificantes”.


Thomas Jefferson afirmou, em 1818, que "em nada os hábitos do paladar têm influência mais decisiva do que em nosso gosto pelos vinhos". Seus próprios hábitos haviam sido formados mais de trinta anos antes - nas mesas dos filósofos parisienses e nos vinhedos da Borgonha e Bordeaux.


Antes da sua viagem para a França em 1784, Jefferson, como a maioria dos seus conterrâneos, era consumidor da Madeira e do Porto, com uma ou outra taça de "vinho tinto". Como ele lembrou em 1817, "[O] gosto deste país foi artificialmente criado por nossa longa restrição sob o governo inglês aos vinhos fortes de Portugal e Espanha."


A revolução em seu próprio gosto de vinho seguiu rapidamente a quebra dos laços do governo colonial britânico. Posteriormente, Jefferson rejeitou os vinhos alcoólicos preferidos dos ingleses, bem como os brindes que habitualmente os acompanhavam. Ele escolheu beber e servir os vinhos finos mais leves da França e da Itália, e esperava que seus compatriotas seguissem seu exemplo.


Após seu retorno à América, ele continuou a encomendar grandes quantidades de Bordeaux para si e para George Washington, e estipulou em uma carta de 1790 que suas respectivas remessas deveriam ser marcadas com suas iniciais. Durante seu primeiro mandato como presidente, Jefferson gastou 7500 dólares - cerca de cento e vinte mil dólares na moeda atual - em vinho, e ele é geralmente considerado o primeiro grande conhecedor de vinhos da América.


Embora muitas vezes seja difícil distinguir os vinhos que Jefferson preferia para seu próprio paladar daqueles que comprava para o conforto de seus convidados, as citações a seguir devem ajudar a identificar alguns de seus favoritos pessoais, bem como ilustrar os padrões de referência para seu gosto pelo vinho e seus esforços para resgatar o gosto de seus conterrâneos.


Escrevendo a um correspondente na Espanha, em 1803 Jefferson confessou que um certo Jerez pálido tinha "muito particularmente ligado meu gosto a ele. Agora não bebo mais nada, e estou apreensivo de que, se eu falhar nos meios de obtê-lo, será uma privação que sentirei sensatamente uma vez por dia. Provavelmente se referindo a um Fino de Jerez.


Em 1806 Jefferson descreveu um carregamento recente de Nebbiolo, e um vinho espumante do Piemonte italiano, como "superlativamente bom". Essa importação procedeu de sua memória de ter bebido Nebbiolo em Turim em 1787, quando o descreveu como "tão doce quanto o Madeira sedoso, adstringente no paladar como um Bordeaux e vivo como Champanhe. É um vinho agradável.


Em 1815, quando depois de anos de guerra terem impedido as importações, o estoque envelhecia e estava quase esgotado, escreveu a um comerciante de vinhos buscando por Hermitage branco de M. Jourdan de Tains, que ele expressou ser sedoso, macio, liso, em contraste com o seco, duro ou áspero que havia recebido antes.


O Hermitage, que ele importava regularmente enquanto presidente, foi descrito por Jefferson em 1791 como "o primeiro vinho do mundo sem uma única exceção". O Bellet de Nice ele chamou de "o vinho mais elegante do mundo para todos os dias". O Roussillon, que continuou a importar, foi comprado evidentemente para o bem dos seus convidados como uma fase intermédia do processo de deixar de beber os Madeiras.


Falando dos vinhos franceses de Hermitage, Ledanon, Roussillon e Nice, Jefferson afirmou estar "ansioso por introduzir aqui estes bons vinhos no lugar dos vinhos alcoólicos de Espanha e Portugal; e com a aprovação universal de todos os que os provam na minha mesa irá, estou convencido, mudar gradualmente a corrente de demanda desta parte de nosso país, que continuará a se espalhar de pouco a pouco, revelando a delicadeza e a sutileza desses vinhos que irão mudar o hábito do beber vinhos pesados e inebriantes até então conhecidos por aqui.


Já em 1816, escrevia que no futuro ou no presente limitava-se à falta física de algum bom Montepulciano ..., sendo este um vinho muito favorito, e hábito que tornou os vinhos leves e de alto sabor uma necessidade de vida dele. Jefferson já havia importado esse vinho tinto da Toscana como presidente numa remessa de 1805, que ele declarou como "superlativamente boa".


O CASO DO “VINAGRE” MAIS CARO DA HISTÓRIA DO VINHO - A garrafa de vinho mais cara já vendida em leilão foi oferecida na Christie’s em Londres, em 5 de dezembro de 1985. A garrafa era de vidro verde escuro soprado à mão e tampado com um selo protuberante de cera preta espessa. Não tinha rótulo, mas gravado no vidro por uma mão fina estava o ano de 1787, a palavra "Lafitte" e as letras "Th.J."


Quase dois séculos depois, a adega de Jefferson teria sido achada durante uma reforma de um prédio em Paris. Estava atrás de uma parede. Essas informações foram repassadas a Broadbent pelo descobridor da adega emparedada, Harry Rodenstock, um colecionador alemão acima de suspeitas. Para Rodenstock, as garrafas eram de Jefferson por causa das iniciais “Th.J.” gravadas no vidro.

Os vinhos traziam os nomes dos principais vinhedos - junto com Lafitte (que agora se chama "Lafite"), havia garrafas de Châteaux d’Yquem, Mouton e Margaux - e essas iniciais, "Th.J. As garrafas foram separadas em lotes para serem leiloadas e de acordo com o catálogo, as evidências sugeriam que o vinho Lafitte Th J pertencera a Thomas Jefferson e que a garrafa em leilão poderia "ser considerada uma das maiores raridades do mundo com razão". O nível do vinho era "excepcionalmente alto" para uma garrafa tão velha - apenas meia polegada abaixo da rolha - e a cor "incrivelmente profunda para sua idade". O valor do vinho foi listado como "inestimável".


Antes de leiloar o vinho, Michael Broadbent, chefe do departamento de vinhos da Christie's, consultou os especialistas em vidro da casa de leilões, que confirmaram que tanto a garrafa quanto a gravura eram no estilo francês do século XVIII. Jefferson serviu como Ministro da América (embaixador) na França entre 1785 e a eclosão da Revolução Francesa, e desenvolveu um fascínio pelo vinho francês.


Além de pesquisar o material histórico relevante, Broadbent havia provado duas outras garrafas da coleção. Algumas safras do século XIX ainda têm um sabor delicioso, desde que devidamente armazenadas. Mas o vinho do século XVIII é extremamente raro e não estava claro se as garrafas marcadas com o selo Th.J. garrafas aguentariam tanta guarda. Broadbent é um Master of Wine, uma certificação profissional para escritores, negociantes e sommeliers de vinhos, que denota uma vasta experiência com vinhos finos e julgamento discriminatório. Ele avaliou um Th.J. Yquem de 1784 como “perfeito em todos os sentidos: cor, buquê, sabor.”


Às duas e meia daquela tarde de dezembro, Broadbent abriu a licitação, a dez mil libras. Menos de dois minutos depois, seu martelo caiu. O licitante vencedor foi Christopher Forbes, filho de Malcolm Forbes e vice-presidente da revista Forbes. O preço final foi de cento e cinco mil libras - cerca de cento e cinquenta e sete mil dólares. Ao final do leilão, ele declarou que “É mais divertido do que os óculos de ópera que Lincoln segurava quando foi baleado”, acrescentando: “E nós também os temos”.


Após o leilão, com o passar dos anos, outras garrafas dos demais lotes foram a leilão e outros colecionadores sérios procuraram as garrafas Th J. O editor da Wine Spectator comprou uma garrafa através da Christie's. Um misterioso empresário do Oriente Médio comprou outro. E no final de 1988, um magnata americano chamado Bill Koch comprou quatro garrafas. Filho de Fred Koch, que fundou a Koch Industries, ele morava em Dover, Massachusetts, e dirigia sua própria empresa de energia altamente lucrativa, a Oxbow Corporation.


Embora a autenticidade das garrafas de vinho nunca tenha sido comprovada, ela também não era questionada abertamente. Isso até o bilionário americano Bill Koch ter gastado meio milhão de dólares em quatro delas. Koch comprou um Branne Mouton 1787 da Chicago Wine Company em novembro de 1988. No mês seguinte, ele comprou um Branne Mouton 1784, um Lafitte 1784 e um Lafitte 1787 de Farr Vintners, um varejista britânico. Ele os instalou em sua adega espaçosa e climatizada e os tirou ocasionalmente durante os quinze anos seguintes para exibi-los aos amigos.


Colecionador compulsivo, Koch possui quadros de Picasso, Degas e Renoir, além do rifle do general Custer, do revólver de Jesse James e de uma adega com 40 mil garrafas. Só existe uma coisa que ele aprecia mais que suas coleções: vingança.


A coleção de arte e antiguidades de Koch está avaliada em várias centenas de milhões de dólares e, em 2005, o Museu de Belas Artes de Boston preparou uma exposição de muitos de seus bens. A equipe de Koch começou a rastrear a proveniência das quatro garrafas que teriam sido de Thomas Jefferson e descobriu que, além da autenticação de Broadbent da garrafa Forbes, eles não tinham nada em arquivo. Em busca de corroboração histórica, eles se aproximaram da Fundação Thomas Jefferson, em Monticello, em Charlottesville, Virgínia. Vários dias depois, a curadora de Monticello, Susan Stein, telefonou. “Não acreditamos que essas garrafas tenham pertencido a Thomas Jefferson”, disse ela.


Quando Koch soube que as garrafas podiam ser falsas, contratou um agente aposentado do FBI para investigar Rodenstock. Desde 2005, Koch já torrou mais de US$ 1 milhão na investigação, o dobro do que perdeu com suas quatro garrafas.


O livro “O Vinho Mais Caro da História” (Jorge Zahar, 280 páginas, tradução de Maria Luiza Borges), do jornalista americano Benjamin Wallace conta o mistério da garrafa de vinho mais cara do mundo. É a história da investigação - e de um mundo de cifras milionárias, degustadores obsessivos e falsários de alta classe. Vale a pena conferir!!! Saúde!!!


Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (baseado em artigos disponíveis na internet e minhas considerações)

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