“OS VINHOS DO REINO UNIDO”
- Marcio Oliveira - Vinoticias

- 1 de dez. de 2025
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Acredite: os romanos introduziram a vinificação na Inglaterra, num período com clima relativamente quente.

Há evidências que os romanos cultivavam vinhedos na “Britannia” já no primeiro século depois de Cristo. E, quando o assunto é espumante, há inclusive uma disputa sobre a “paternidade” do método moderno de produção.
Os vinhedos na época dos romanos estendiam-se até o norte de Northamptonshire e Lincolnshire, com outros em Buckinghamshire e Cambridgeshire, e provavelmente em muitos outros locais. Os vinhos eram provavelmente frutados e doces, fermentados com adição de mel e consumidos no prazo de seis meses. A vinificação continuou pelo menos até a época dos normandos, com mais de 40 vinhedos na Inglaterra mencionados no Domesday Book; sendo grande parte do vinho destinado para a Eucaristia.
A partir da Idade Média, o mercado inglês foi o principal consumidor de vinhos “clarets” de Bordeaux (França), durante o reinado Plantageneta, que incluía a Inglaterra e grandes províncias em França. Quando Henrique VIII foi coroado em 1509, registaram-se 139 vinhedos, 11 dos quais produziam vinho para a casa real. No início do século XVI, o vinho era caro para a maioria das pessoas comuns; portanto, uma lei de 1536 decretou que o vinho importado da França teria um preço máximo, sendo que os importados da Grécia e, principalmente, da Espanha teriam um preço máximo de venda ainda maior, provavelmente devido à sua qualidade percebida como superior.
Muita gente aponta o monge francês Don Pérignon, que assumiu o posto de mestre de adega da Abadia de Hautvillers em 1668, como precursor do método tradicional. Porém, evidências parecem indicar o contrário. Já havia referências de produção de espumantes ingleses em 1662. Foi quando os cientistas Christopher Merret e Sir George Downing apresentaram um artigo sobre o assunto à Royal Society. Eles descreveram detalhadamente o processo de adição de açúcares para produzir vinhos espumantes.
No século XVIII, o Tratado de Methuen de 1703 impôs altas taxas sobre o vinho francês. Isso fez com que os ingleses se tornassem os principais consumidores de vinhos fortificados doces, como o Jerez, o vinho do Porto e o vinho da Madeira, provenientes da Espanha e de Portugal. O vinho fortificado tornou-se popular porque, ao contrário do vinho comum, não se deteriorava durante a longa viagem de Portugal para a Inglaterra.
Assim que o vinho inglês começou a se recuperar das epidemias de filoxera e oídio em meados do século XIX, trazidas pelos exploradores da América, o vinho comercial inglês sofreu um duro golpe. Em 1860, o governo, sob a liderança de Lord Palmerston (do Partido Liberal), apoiou o livre comércio e reduziu drasticamente o imposto sobre vinhos importados de 1 xelim para 2 pence, uma diminuição de 83%. O vinho inglês, portanto, passou a ser superado pela concorrência de produtos estrangeiros superiores que podiam ser vendidos a um custo menor para o consumidor.
Com o início da Primeira Guerra Mundial, quando a necessidade de colheitas e alimentos, e o racionamento de açúcar, se tornaram prioritários em relação à produção de vinho, pela primeira vez em 2000 anos, os vinhos ingleses deixaram de ser produzidos.
A produção de vinho passou a ser algo caseiro, e em 1936, George Ordish plantou vinhas em Wessex e no sul da Inglaterra. Com muitas pessoas interessadas em produzir seus próprios vinhos em casa, e com equipamentos e métodos disponíveis, o governo proibiu a produção de álcool caseiro no início da década de 1960, apenas para revogar a lei cinco anos depois, à medida que a moda da produção caseira de bebidas alcoólicas crescia consideravelmente.
Outros pequenos vinhedos comerciais na Grã-Bretanha seguiram o exemplo na década de 1960, com produtores como Joy e Trevor Bates em Kent, Norman Cowderoy em West Sussex, Nigel Godden em Somerset, Gillian Pearkes em Devon e Philip Tyson-Woodcock em East Sussex. O País de Gales também teve George Jones, Lewis Mathias e Margaret Gore-Browne.
● EFEITO DO AQUECIMENTO GLOBAL? - A viticultura inglesa foi revitalizada a partir da década de 1970, possivelmente impulsionada pelo aumento da temperatura local devido ao aquecimento global, tornando muitas partes de Hampshire, Sussex, Kent, Essex, Suffolk, Berkshire, Nottinghamshire e Cambridgeshire secas e quentes o suficiente para o cultivo de uvas de alta qualidade. Os primeiros vinhos ingleses foram influenciados pelos vinhos doces alemães, como Liebfraumilch e Hock, que eram populares na década de 1970, e eram vinhos doces, misturas de vinho branco e tinto, chamados de “creams”. O maior vinhedo da Inglaterra era a Denbies Wine Estate, em Surrey, com 1,07 km² de vinhedos.
De um pico de mais de 400 vinhedos no final da década de 1980, em 2000 o plantio acelerou desde então, impulsionado pelo crescente sucesso dos vinhos espumantes ingleses. Em 2004, um júri de vinhos espumantes europeus concedeu a maioria das dez primeiras premiações a vinhos ingleses – sendo a premiações restantes para Champagnes franceses. Resultados semelhantes incentivaram uma explosão no plantio de vinhedos para produção de vinhos espumantes. Os vinhos tranquilos ingleses também começaram a ganhar prêmios em grandes competições de vinhos, notadamente o Decanter e o IWSC.
Desde então, a produção de vinho se espalhou do Sudeste e Sudoeste para as Midlands e o Norte da Inglaterra, com Yorkshire, Nottinghamshire, Shropshire, Derbyshire, Leicestershire e Lancashire ostentando pelo menos um vinhedo cada, em 2007.
Os vinhos nacionais se tornaram os queridinhos dos entusiastas e críticos de vinho do Reino Unido. De manchetes proclamando "Vinho inglês supera o Champagne em degustação às cegas" a anfitriões de jantares declarando "É do vinhedo aqui perto", é quase impossível dar um passo sem esbarrar em uma garrafa de vinho inglês ou um vinhedo local.
Considerando que o país parecia já estar coberto de vinhedos em 1981, não é de se surpreender que o conceito de enoturismo – visitar vinhedos ou vinícolas para degustar vinhos e aprender sobre sua produção – estivesse começando a se desenvolver. Este renascimento da viticultura na Inglaterra e no País de Gales começou na década de 1960, ganhando seu impulso atual na década de 1970. Em 1981, já existiam quase 405 hectares de vinhedos na Grã-Bretanha.
Embora a aparente ascensão desses vinhos ingleses frescos e vibrantes possa parecer um capítulo recente na história consagrada do vinho, não é tão nova quanto você pensa. O clima na Inglaterra, tradicionalmente, não tem sido propício para a produção de vinhos excelentes. Faz frio e há uma umidade agradável, mas sempre houve algo maravilhoso escondido sob a cobertura vegetal dos terrenos: um belo solo calcário, com ótima drenagem, especialmente no extremo sul da Inglaterra. É esse solo maravilhoso que outrora foi compartilhado com a região de Champagne, na França, antes que as placas tectônicas separassem as ilhas do Continente Europeu.
As coisas mudaram em 1988, quando um casal norte-americano, Stuart e Sandy Moss, reconheceu o paralelo entre os solos de calcário do sul da Inglaterra com aqueles de Champagne. Eles decidiram plantar Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier em sua propriedade Nyetimber em Sussex, com a noção explícita de fazer vinho espumante de método tradicional. Esse foi o principal “insight” que desencadeou tudo.
Hoje, os números chegam a 3.758 hectares de vinhas na Inglaterra e mais de 900 vinhedos, o que ainda pode ser considerado como uma pequena área produtiva (em termos comparativos a área de vinhedos no Brasil é de 89.000 mil hectares), mas que seus produtos já enchem os britânicos de orgulho. Quatro regiões inglesas se destacam: Kent (que lidera o ranking, com quase 900 hectares plantados), West Sussex, Essex e East Sussex.
Outra explicação para o crescimento da viticultura no Reino Unido é o movimento de valorização dos alimentos locais e o desejo dos consumidores de reduzir a distância percorrida pelos alimentos que compram, incluindo o vinho produzido localmente.
O vinho inglês ganhou ainda mais prestígio quando a Duquesa da Cornualha se tornou a nova Presidente da Associação de Vinhedos do Reino Unido em 25 de julho de 2011. Em junho de 2012, o vinho inglês também recebeu um impulso durante a celebração do Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II.
Desde o Brexit e a mudança na legislação, a rotulagem de origem geográfica deixou de ser obrigatória e é possível consumir vinhos com menos de 8,5% de álcool, incluindo vinhos sem álcool.
● VARIEDADES DE UVAS - De acordo com a WineGB, os novos plantios mais significativos são de variedades para a produção de vinho espumante. Em 2004, a vitivinicultura estava baseada em vinhos doces alemães, então a Seyval Blanc era a variedade mais cultivada, seguida pela Reichensteiner, com a Müller-Thurgau e a Bacchus logo atrás. No entanto, a Müller-Thurgau, uma das primeiras variedades a ser cultivada durante o renascimento do século XX perdeu popularidade.
Em termos de variedades plantadas, três uvas correspondem a cerca de 71% dos vinhedos: Chardonnay (1.179 hectares), Pinot Noir (1.164 ha) e Pinot Meunier (327 ha). Elas foram também responsáveis por 82% dos novos vinhedos plantados nos últimos cinco anos. As demais uvas relevantes são todas híbridas ou cortes alemães, como Bacchus (264 ha), Seyval Blanc (117 ha) e Solaris (93 ha). Há também pequenas áreas plantadas com Reichensteiger, Rondo, Pinot Gris e Müller-Thurgau.
● PRODUÇÃO DE VINHOS - Sendo uma região sujeita a fortes variações climáticas, o volume produzido varia bastante de acordo com a safra. A produção total de vinhos no Reino Unido em 2017 foi de 5,3 milhões de garrafas, explodindo para 13,10 milhões em 2018 e 10,5 milhões em 2019. Desde então, está estável em uma faixa próxima a 9 milhões de garrafas. Entre os espumantes, em 2021 81% eram brancos e 19% rosés, com 98% do total sendo elaborado pelo método tradicional.

Pesquisadores indicam que, nas próximas duas décadas, o clima de boa parte da Inglaterra e do País de Gales deve se tornar adequado para o cultivo confiável de variedades usadas em vinhos espumantes. As condições observadas no ano de 2018, quando se registrou o recorde de produção de vinho do Reino Unido, devem se tornar a “norma” em diversas regiões britânicas. Isso significa temperaturas equivalentes a algumas das famosas áreas produtoras de vinho da França e da Alemanha.
No período até 2040, áreas em East Anglia, Lincolnshire, centro-sul da Inglaterra, nordeste do País de Gales e áreas costeiras no sudoeste da Inglaterra e no sul do País de Gales devem ter condições equivalentes a 2018 em torno de 60-75% do tempo. Assim, a safra excepcional vista naquele ano de 2018 serve de incentivo para o crescimento da viticultura local.
Há pouca disponibilidade de espumantes ingleses no Brasil, e infelizmente, se a qualidade do vinho inglês é comparável com Champagne, também o é no preço. O Gusbourne Exclusive Release Brut 2019, custa R$ 576 no site da importadora Divvino. Não vai ser pela via do preço que o espumante inglês vai se estabelecer no mercado brasileiro, mas pela qualidade!
Aproveitando que a “Black-Friday” está batendo as portas, quem sabe em breve você poderá provar um espumante inglês? Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).





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