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  • Foto do escritorMarcio Oliveira - Vinoticias

“PORQUE SERÁ QUE TANTAS DENOMINAÇÕES DE ORIGENS, DOMÍNIOS E RÓTULOS DE VINHOS TEM NOMES DE SANTOS?”

Desde que Jesus transformou água em vinho, em seu primeiro milagre, nas bodas de Canaã, a pedido de Maria, preocupada que não houvesse mais vinho para servir aos convidados, a ligação desta bebida com a religião cristã se materializou.

De qualquer forma, Jesus entendeu a importância do vinho num momento de comemoração, de alegria, de compartilhamento. Afinal, o último copo cheio de suco da videira, bebido na Última Ceia, não seria consagrado como seu sangue? O vinho e a religião católica têm ligações inseparáveis. Na Bíblia, existem 440 passagens que mencionam vinho, vinha ou viticultor.

Assim sendo, não é difícil imaginar a primeira das razões para que os nomes de santos estejam, presentes em rótulos, vinícolas e denominações de origem.


Mas há outras referências importantes, como a história de São Martinho e seu burro. São Martinho é um dos (muitos) padroeiros da vinha e dos viticultores. Graças, em particular, ao seu burro, que teria pastado alguns galhos da vinha perto de Tours (no Loire), enquanto São Martinho visitava um mosteiro. O burro na realidade, devia estar com muita fome e praticamente devorou a vinha que estava por perto de onde ficou preso. Mas curiosamente, na colheita do ano seguinte, os benefícios da poda feita pela fome do burro, eram visíveis e daí para frente, a poda passou a ser feita com regularidade, dando força e mais vitalidade para o vinhedo.


Além disto, André Deyrieux nos revela em seu livro “Cinquenta dias para entender o vinho de forma diferente” (Editora Elipses, 2019), que São Martinho teria, no ano 380, realizado outro milagre muito útil para compensar uma colheita fraca. Ele teria cavado, na abadia de Marmoutier em Tours, uma fonte que dava vinho em vez de água !


Há santos em todas as regiões vinícolas. Seja através de denominações de origem protegidas ou nomes de propriedades, verdadeira herança de uma Europa profundamente católica e vitivinícola.


Em Bordeaux, os santos estão por toda parte. Com seus 5.400 hectares de videiras, Saint-Emilion (e seus grands crus) é o mais poderoso. Também pode contar com suas denominações satélites: Lussac-Saint-Émilion, Montagne-Saint-Émilion, Saint-Georges-Saint-Émilion e Puisguin-Saint-Émilion. Em Entre-Deux-Mers, ao sul de Libournais, você pode ver Sainte-Foy-Bordeaux (como acima, eles fazem vinho tinto), Saint-Macaire e Sainte-Croix-du-Mont (ambos dedicados ao branco suave). Do lado do Médoc, finalmente, Saint-Julien e Saint-Esthèphe – necessariamente tintos – são coroados de prestígio.


Outras regiões francesas também estão na linha da santidade. No Sudoeste, os Saint-Sardos são expressos principalmente em tintos (e um pouco em rosé), os Saint-Mont estão nas três cores. No Languedoc, a denominação Saint-Chinian (e suas denominações Roquebrun e Berlou) abençoa todas as cores de vinhos, mas as denominações santificadas complementares à DOP Languedoc veem quase exclusivamente em tinto: Saint-Christol, Saint-Drézéry, Saint-Georges- d´orques, e Saint Saturnin. Só o Moscatel de Saint-Jean-de-Minervois dá graças ao doce branco.

No Vale do Rhône, Saint-Péray é dedicado ao vinho branco. Saint-Joseph, do alto de seus 1.000 hectares de videiras, não se preocupa com a cor, seja tinto ou branco. Finalmente, podemos listar as denominações que completam algumas Côtes-du-Rhône-Villages: Saint-Andéol, Sainte-Cécile (exclusivamente tinto), Saint-Gervais, Saint-Maurice, Saint-Pantaléon-les-Vignes. Beaujolais tem o mais adorável dos crus, Saint-Amour (tinto como um coração). O Loire celebra seu Saint-Nicolas-de-Bourgueil em Touraine em tinto e rosé, e seu Saint-Pourçain em três cores no Allier.


Vamos terminar nosso passeio hexagonal pela França com a piedosa Borgonha, que conta entre seus AOP e seus vinhos o suficiente para completar nosso calendário de santos: morey-saint-denis, nuits-saint-georges, saint-romain, saint-aubin, e também romanée- saint-vivant (exclusivamente tinto), saint-véran e saint-bris (exclusivamente branco). Perdoe-me se esqueci de alguém...


Muito leitores pensariam neste momento, que muitas das vinícolas chilenas tem seu nome em devoção aos santos e santas, como o caso da Viña Santa Rita, nascida pelas mãos do empresário e político Domingo Fernández Concha, em 1880, a Viña recebeu esse nome como uma forma de homenagear a santa homônima. Mas levando em conta outras vinícolas, nem sempre isto será verdade.


Segundo a tradição cristã, Santa Helena - também conhecida como Helena de Constantinopla, mãe do Imperador Constantino - foi quem descobriu o local de crucificação de Cristo. Foi ela quem, após uma peregrinação pela Palestina, teria ordenado a construção de importantes igrejas, como a da Natividade, em Belém, e a do Santo Sepulcro, em Jerusalém.


Já na tradição grega, Helena é o nome da mulher mais bela do mundo - filha de Zeus, esposa de Menelau, rei de Esparta, também conhecida como Helena de Troia. Helena é o símbolo maior da beleza, do encanto. A Viña Santa Helena (que possui como símbolo a imagem de uma mulher, como se fosse uma deusa) vale-se muito mais da parte grega, apesar do "Santa" no nome. Na história da Viña a propriedade foi salva por Helena, filha do fundador, que vendo como o campo perdeu seu encanto, partiu para reviver todas as videiras do vale. Com determinação e dedicação, ela conseguiu devolver a vitalidade e qualidade da vinha e seu pai, uma vez recuperado, decidiu batizar seus vinhos com o nome "Santa Helena", em homenagem a sua filha.


Outra famosa vinícola chilena, a Santa Carolina recebeu este nome num gesto singelo que acabou eternizando o nome de dona Carolina Iñiguez no mundo do vinho. Afinal, foi em homenagem a ela que seu marido, o senhor Luis Pereira, batizou a vinícola que fundou em 1875.


Seria negligente se terminasse esta liturgia do vinho sem mencionar o mais respeitado padroeiro dos viticultores: São Vicente.


Há muitas teorias para explicar a escolha do santo como padroeiro da vinha e do vinho na França, até mesmo porque o seu nome verdadeiro é San Vicente de Zaragoza, nascido na Espanha e martirizado no século IV d.C. É venerado por fiéis de todo o mundo, mas curiosamente apenas na França é tido como patrono das pessoas que trabalham com vinho.


Alguns escritores dizem que a lembrança se dá porque na liturgia católica o vinho é associado ao sangue de Cristo. E em francês, o nome Saint-Vincent soa como “vin sang” (vinho sangue) ou “vin saint” (vinho santo). Para outros, seria sinônimo de abundância, “vin cent” (vinho cem).


Mas pode haver outras razões para o prestígio de Saint-Vincent junto aos vinhateiros, reminiscência de velhos rituais com que o homem sempre cercou as práticas agrícolas. Para esses autores, os santos padroeiros seriam os sucessores da tradição ligada aos deuses do vinho, presente na cultura dos povos antigos.


Jean-François Gauthier, então chefe do serviço jurídico do Office National Interprofessionnel des Vins, entidade que regulamentava a atividade vitivinícola na França, observa em seu livro “Le Vin” (Editora Le Cavalier Bleu – França – 2001 – 127 páginas) que a data dedicada a Saint-Vincent, 22 de janeiro, no Hemisfério Norte cai nos últimos dias em que a geada pode ser fatal para as vinhas – daí a necessidade de uma ajuda dos céus.


Na França, a devoção dos vinhateiros a Saint-Vincent é bastante remota. A crença é atestada nos muitos ditos populares envolvendo o nome do padroeiro. “Saint Vincent notre Patron, protège notre bourgeon et dans la saison donne nous du bon”, diz um deles (São Vicente, nosso patrono, proteja nossa brotação e, na estação, nos dê tudo de bom – em tradução livre).


Como São Martinho, São Vicente não teve direito a uma denominação, mas tem sua própria celebração, particularmente seguida na vinha da Borgonha desde a Idade Média. A tradição dos festejos começou no ano de 900, perdeu força ao longo do tempo, mas foi retomada com vigor todo último fim de semana de janeiro desde 1938, após campanha da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, que tem sua sede no lendário Clos de Vougeot, no coração da Borgonha: a Festa Rotativa de São Vicente. Rotativo porque é organizado em uma vila diferente a cada ano. Mesmo que não tenha o nome de um santo !!!


Saúde !! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).

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