“PROCURANDO FUGIR DA MESMICE...”
- Marcio Oliveira - Vinoticias

- há 6 dias
- 4 min de leitura
Por que continuar bebendo sempre os mesmos vinhos se a diversidade de estilos e rótulos convida a provar novos aromas e sabores?

Apesar do inverno atípico e escaldante em algumas semanas, a primavera começa a dar mostras com os ipês floridos, e junto com as flores o calor clama vinhos espumantes, brancos e rosados que refresquem nossa sede. Amigos pedem sugestões de vinhos brancos e procuro pensar em rótulos que fujam da mesmice. A maioria dos vinhos que tenho degustado, estão muito parecidos e poucos ficam na memória por seu caráter diferenciado.
A observação não é só minha. Boa parte dos amantes de vinho está dizendo que os vinhos estão iguais. Um Chardonnay do Cone Sul (Argentina e Chile) é muito parecido a um Chardonnay sul-africano, australiano, neozelandês e ou um californiano. O que parecia ser uma vantagem (ser tão bom quanto!) agora se torna defeito. Aliás, o berço de tudo foi a Califórnia, o que explica boa parte dessa história.
Em 1976, na célebre prova que ficou conhecida como “O Julgamento de Paris”, o crítico inglês Steven Spurrier, organizou um evento, no qual um grupo de conhecedores degustou às cegas vinhos franceses e californianos. O resultado desta prova é que os vinhos americanos ganharam dos franceses (nos brancos e nos tintos). O vinho tinto vencedor foi o Stag´s Leap Wine Cellars 73, que bateu bordeaux como Chateau Mouton-Rothschild 70, Chateau Montrose 70 e Chateau Haut-Brion 70, para citar apenas uma parte do time. Nos vinhos brancos, o californiano Chateau Montelena ficou em primeiro lugar, seguido do Mersault-Charmes 73, do produtor francês Roulot, e de dois outros chardonnays americanos, o Chalone Vineyard 74 e o Spring Mountain Vineyard 73. Para conhecer em detalhe esta prova, leia o excelente livro de George M. Taber, “O julgamento de Paris” já editado no Brasil pela Ed. Campus.
O interessante é que os vinhos brancos norte-americanos tentavam imitar os brancos da Borgonha, criados a partir da casta Chardonnay, destacando-se por sua exuberante potência. Desde então os produtores de brancos da uva Chardonnay trataram de imitar o que fizeram Montelena e Chalone. Buscaram mudas francesas, clones adaptados às condições climáticas de regiões do Novo Mundo, estudaram novas formas de condução de vinhedos, tostaram barricas como os produtores borgonheses.
O resultado visto é uma globalização dos aromas e sabores, num fenômeno que alguns jornalistas também têm chamado de “parkerização” do mundo do vinho, uma vez que este reconhecido crítico norte-americano - Robert Parker Jr. é mais influenciado pela potência que pela elegância dos rótulos.
Para o crítico Matt Kramer, também americano, o debate sobre terroir, e o efeito da mão do homem lembra a história da Bela Adormecida. O príncipe leva a fama de ter acordado a moça com um beijo. Sem ele não teria acontecido nada. Mas onde estão as Belas Adormecidas que despertam daquele eterno sonho e encantam seus súditos com a elegância e complexidade dos grandes vinhos?
Sabemos que os americanos estão entre os maiores consumidores de vinho, ditando com os ingleses os preços da bebida de Baco e as tendências deste mundo líquido. Nem de longe têm a exclusividade do bom gosto, bastando lembrar o fenômeno criado pelo filme Sideways (“Entre Umas e Outras”), num claro debate entre potência x elegância, alusão entre as marcantes Chardonnay e Merlot em relação a “frágil” Pinot Noir.
O pessoal que se faz de príncipe, (que são enólogos) ainda acredita que é o toque final que conta. Mas percebe-se pelos vinhos produzido, que não é apenas isto. A beleza está no solo, que cria a uva dos grandes vinhos. O que conta é o terroir, que a vinificação cuidadosa consagra em um grande vinho.

O mercado global de vinhos vive um momento de transição, com o consumo total em volume estabilizado ou em leve queda (que pode até ser maior!). O setor aposta em sustentabilidade extrema, vinhos com menor teor alcoólico, valorização de rótulos brancos e experiências imersivas no enoturismo.
Produtores tradicionais adotam metas rígidas de redução de emissões de carbono para atender a novas exigências de exportação, a exemplo de iniciativas na Argentina e Europa. As ondas de calor e alterações climáticas forçam regiões históricas (como Bordeaux e Catalunha) a repensar o manejo dos vinhedos e até a flexibilizar regras de teor alcoólico mínimo.
Rótulos com certificação limpa e processos éticos continuam em alta na preferência do consumidor consciente. Há profundas mudanças no consumo e estilos dos vinhos no momento, com menos álcool, mais leveza. Cresce a procura por vinhos com graduação alcoólica reduzida ou versões desalcoolizadas, impulsionada por buscas de bem-estar.
Regiões como Rioja criaram selos específicos para essa categoria. Os vinhos brancos ganham cada vez mais espaço de destaque nas mesas, dividindo as atenções que antes eram quase exclusivas dos tintos. O foco do consumidor mudou de quantidade para qualidade, com forte apelo à história por trás da garrafa e a curadorias especializadas.
Para nós mineiros, a safra de 2026 dos vinhos de inverno consolida a revolução da técnica da dupla poda no Brasil, com expectativa de alta de 15% na produção e expansão em regiões de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Nordeste, acumulando medalhas internacionais de destaque. Com esta técnica de condução dos vinhedos a maturação ocorre no outono e inverno, período seco e com grande variação de temperatura, o que melhora a qualidade da uva. Mais de 50 vinícolas associadas à Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin) impulsionam o cultivo fora do eixo Sul do Brasil.
Rótulos como o Udu de Coroa Azul Grande Reserva Cabernet Franc 2023, de Goiás, ganharam medalhas de ouro em concursos mundiais como o da Decanter. A Serra da Mantiqueira (entre Minas Gerais e São Paulo) atrai turistas com roteiros de degustação e eventos ligados à colheita de inverno. Lojas e adegas no interior paulista e no Sul de Minas registram alta procura por rótulos da própria região, fora o que se vende em enoturismo nas visitas nas vinícolas.
Se você quer fugir da mesmice, só há uma regra: opte por vinhos que procurem resgatar o caráter de fruta e toques minerais em detrimento ao excesso de madeira. Certamente você irá descobrir e despertar Belas Adormecidas.
Valorize o seu bom senso e sobretudo o seu gosto pessoal! Prove novos aromas e sabores! Saúde!!! Que tal comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).





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