“QUANDO O VINHO E ARTE ANDAM JUNTOS”

Hoje, o rótulo de um vinho reflete duas grandes tendências em um mundo dividido entre conservadorismo e vanguarda. Por um lado, os grand crus optam pela simplicidade com rótulos que muitas vezes retratam a propriedade; por outro, propriedades menos tradicionais tentam se destacar com rótulos altamente originais, mas que em algumas situações flertam com o mau gosto.

A fusão entre o mundo dos vinhos e as artes plásticas transformou garrafas em verdadeiras peças de coleção. Embora o pioneiro absoluto dessa ideia tenha sido o Château Mouton Rothschild na França (que desde 1945 convida gênios como Picasso, Dalí e Warhol para ilustrar suas safras), dezenas de outras vinícolas pelo mundo adotaram essa filosofia. Este gesto, longe de ser uma mera estratégia de marketing, está enraizado na história e nos laços que unem a família Rothschild ao mundo da cultura.
Filha do Barão Philippe, Philippine de Rothschild foi membro da Comédie-Française e dedicou-se a fomentar o diálogo entre vinho e arte, iniciado por seu pai. Hoje, é seu filho mais novo quem cultiva esse legado. Julien de Beaumarchais de Rothschild é responsável pelas atividades artísticas e culturais da propriedade e pelas relações com os artistas.
Nessa função, ele tem a missão de explorar a história do vinho, indissociavelmente ligada à da arte. “Como comprovam milhares de obras de arte sacras e seculares, a vinha e o vinho têm sido inúmeras fontes de inspiração para artistas de todos os tipos. A união entre vinho e arte perdura há séculos, senão milênios”, ele explica.

Para refletir a natureza histórica dessa conexão, os proprietários da Mouton Rothschild criaram o Museu do Vinho na Arte, “um lugar mágico que testemunha o diálogo eterno e frutífero entre arte e vinho”, e que se enriquece a cada ano com as obras de arte que adornam o rótulo da nova safra - uma tradição que nasceu na encruzilhada das práticas vitivinícolas em evolução e das transformações da história.
“Em 1924, para celebrar a primeira safra engarrafada inteiramente no Château, o que era muito inovador para a época, o avô, o Barão Philippe de Rothschild, encomendou ao renomado artista de cartazes Jean Carlu a criação do rótulo da Mouton Rothschild.” Contudo, considerado vanguardista demais para a época, esse rótulo não foi reutilizado nas safras subsequentes.
Foi somente em 1945 que a tradição do rótulo realmente se consolidou. Após a guerra, e para celebrar o retorno da paz, o Barão Philippe decidiu adornar o rótulo da safra com o "V" de Vitória, baseado em um desenho do jovem pintor Philippe Jullian. "Assim, de uma circunstância excepcional, nasceu uma tradição. Desde 1945, um artista diferente a cada ano é convidado a criar uma obra original para a safra."

Após colaborações recentes com David Hockney e David Richter, Julien de Beaumarchais de Rothschild convidou a artista Joana Vasconcelos para colaborar: uma parceria que revela a estreita ligação entre o vinho e a arte. “Por meio de suas criações, Joana Vasconcelos destaca objetos do cotidiano, materiais tradicionais e o artesanato português. Essa ligação entre arte e artesanato ecoa o trabalho realizado no Château Mouton Rothschild, que exige uma expertise artesanal excepcional e, através do caráter único de cada safra, também incorpora uma forma de arte.”
Embora, como qualquer obra de arte, uma safra seja única e seja difícil comparar as diferenças, perguntamos a Julien de Beaumarchais de Rothschild quais três rótulos ele particularmente apreciava. “Em primeiro lugar, menciono a colaboração com Braque em 1955, pois ele foi o primeiro artista de renome mundial a criar uma obra de arte original para o rótulo do Château Mouton Rothschild. A partir desse momento, os maiores nomes da arte contemporânea abraçaram o projeto do rótulo”, explica.
“Entre as suas muitas colaborações prestigiadas, há duas às quais ele é particularmente apegado: a de Barceló em 2012, porque foi para essa safra que assumiu o projeto da sua mãe, e a de Ólafur Elíasson em 2019. Este rótulo mapeia todos os nasceres e pores do sol de um ano inteiro em Mouton Rothschild. É um belo símbolo, e o seu design representou um verdadeiro desafio técnico. Além disso, a sua apresentação também foi um momento significativo.” Aconteceu no Palácio de Versalhes, em novembro de 2021, numa altura em que as pessoas estavam felizes por poderem voltar a celebrar eventos festivos.
Pelo mundo afora há outros exemplos:
♦ Herdade do Esporão (Portugal): É uma das maiores referências modernas nessa prática. Desde 1985, a cada nova safra dos vinhos Esporão Reserva e Garrafeira, um artista plástico diferente (como os portugueses Julião Sarmento, Joana Vasconcelos ou Eduardo Aires) é convidado para ilustrar os rótulos.
♦ Gut Oggau (Áustria): Um dos casos mais criativos do design de vinhos modernos. Cada vinho representa um membro de uma família fictícia, e o rótulo traz o desenho do rosto desse personagem (expressando se o vinho é jovem e rebelde, maduro, forte ou delicado).

♦ Viñedo de los Vientos (Uruguai): O cultuado vinho branco Estival traz estampado em seu rótulo um fragmento do clássico quadro "O Nascimento de Vênus", do mestre renascentista Sandro Botticelli.
♦ Quanta Terra (Portugal): Levou o conceito de exclusividade ao extremo em edições especiais (como a linha Íris), convidando o internacionalmente famoso artista urbano Vhils (Alexandre Farto) para fazer intervenções de arte e texturas diretamente nas garrafas.
♦ Matias Riccitelli (Argentina): Localizada em Mendoza, esta vinícola utiliza quadrinhos, colagens de pop-art e ilustrações excêntricas feitas por designers locais para dar uma identidade jovem, moderna e irreverente aos seus vinhos premium.
♦ Manikay Wines (Austrália): Utiliza seus rótulos para valorizar a cultura local, trazendo pinturas e expressões artísticas tradicionais feitas por artistas aborígenes australianos.
As principais vinícolas brasileiras que estampam arte em seus rótulos incluem:
♦ Villa Francioni (Santa Catarina): Tradicionalmente ligada à cultura, a vinícola possui uma galeria de arte própria. Um de seus grandes marcos foi lançar uma linha de vinhos cujos rótulos estampam reproduções de telas do renomado artista catarinense Juarez Machado.
♦ Miolo (Rio Grande do Sul): A gigante brasileira já uniu forças com a arte nacional ao estampar na safra de seu vinho Gamay a famosa obra "O Sapinho", de Tarsila do Amaral.
♦ Casa Valduga (Rio Grande do Sul): Criou uma edição especial do seu Cabernet Sauvignon em homenagem ao compositor Heitor Villa-Lobos, revertendo parte das vendas para a Academia Brasileira de Música.
♦ Vinícola Arte Viva (Rio Grande do Sul): Como o próprio nome propõe, a vinícola boutique foca na sinergia entre o fazer enológico e a expressão artística, dividindo suas linhas com conceitos e designs de forte apelo visual.
Claro que os nomes de vinícolas não acabam somente nestas que foram citadas, porque juntar vinhos e arte é valorizar a cultura em geral! Saúde!!! Que tal comentar se gostou ou não do artigo!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações em relação ao tema).





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