• Marcio Oliveira - Vinoticias

“RIOJA, A EVOLUÇÃO DO VINHO NA ESPANHA”

Rioja certamente está inserida entre as cinco regiões produtoras de vinho mais reconhecidas no mundo. Está para muitos críticos de vinho no mesmo nível de qualidade que Bordeaux, Borgonha, Toscana e Piemonte, e se você ainda não provou seus vinhos, está mais que na hora de conhecer mais informações sobre a região, e prová-los.

A Espanha é o terceiro país que mais produz vinho no mundo, atrás somente de Itália e França. No entanto, é o país com maior área de vinhedos plantada no planeta, com cerca de 1 milhão de hectares. Apesar dessa área enorme e de tantos vinhos serem produzidos em tantos locais diferentes, geralmente quando alguém fala sobre vinhos espanhóis, vem à mente da maioria dos enófilos referências como La Rioja, Ribera del Duero, Tempranillo e não muito mais do que isso.


Mas, obviamente, a Espanha não se resume a isso. Não é somente Jerez e Cava, não é só Crianza ou Reserva. Sim, foi graças a vinícolas vanguardistas especialmente de Ribera del Duero e La Rioja que essas regiões ficaram marcadas na cabeça dos apreciadores de vinho, mas há muito para ser “descoberto” em um país onde a vitivinicultura se espalhou por quase todos os cantos e, em cada um deles, apresenta características distintas e especiais, com cepas que vão muito além da Tempranillo.


Rioja é a mais famosa e tradicional região vinícola da Espanha, produzindo vinhos tintos e brancos. Os melhores produtores buscam um equilíbrio perfeito entre a fruta e a madeira, produzindo vinhos de enorme classe, elegância e complexidade, entre os melhores do mundo. Localizada ao norte da Península Ibérica, a região de Rioja desfruta de uma posição geográfica privilegiada, protegida pela Serra da Cantabria dos ventos e chuvas provenientes do Atlântico, além de sofrer menos com os extremos de temperatura comuns a outras regiões espanholas.


A região é tida por muitos especialistas como uma das cinco regiões vinícolas mais importantes do mundo, sendo chamada inclusive de “Bordeaux da Espanha”. Rioja foi a primeira região da Espanha a receber sua Denominação de Origem (DO) e, após alguns anos foi alterada para Denominacíon de Origen Calificada (DOCa), pela enorme qualidade que seus vinhos têm.


Alguns dos produtores mais progressistas da Espanha estão olhando para o modelo da Borgonha para aumentar o valor de suas garrafas, concentrando-se na qualidade específica. Esses viticultores estão tentando fazer a rotulagem em torno de certas aldeias e vinhedos aceitos na Espanha como vinhedos ou parcelas diferenciadas por sua qualidade.


Assim sendo, não é difícil entender por que Rioja lançou uma nova campanha de marketing global para destacar uma série de mudanças nos níveis de qualidade e regulamentações da região - mas o que é diferente e por quê?


O conselho regulador de Rioja criou um slogan em espanhol que significa "saber quem você é", como parte de uma reformulação da marca para a região, que segue uma série de regras regulatórias destinados a estender a oferta de Rioja.


Entre estas estão uma série de novas indicações, incluindo Vinos de Zona, Vinos de Municipio (Pueblo), Viñedos Singulares, Espumosos de Calidad de Rioja, bem como novos requisitos de envelhecimento para vinhos Reserva e Gran Reserva, e a produção permitida de vinhos brancos monovarietais.


Os critérios de classificação dos vinhos da Rioja, até 2017 era, basicamente o processo de envelhecimento. Eram 4 categorias: Joven, Crianza, Reserva e Gran Reserva. Veremos essas mudanças em detalhes e porque foram implementadas, enquanto os gráficos abaixo mostram a nova estrutura para a região, com os anéis concêntricos destacando as diferentes amplitudes das classificações relacionadas ao terroir, e a segunda imagem mostra como estas novas indicações são utilizadas em conjunto com as regras existentes, que dizem respeito ao tempo de envelhecimento de um vinho, seja em garrafa ou barrica, ou ambos.


Antes de mais nada, vale registrar que a classificação pelo método de envelhecimento não mudou. Continuam valendo as quatro categorias anteriormente citada. Apenas o nome da categoria de entrada, que era chamada de Joven, foi alterada para Genérico, o que tem trazido muita discussão sobre o termo.


A mudança se deu com a introdução de uma nova dimensão: a localização do vinhedo, que vai desde toda a região da Rioja, passando pela zona de produção, município e um vinhedo único. As novas zonas: Rioja “genérico”; Vinos de Zona; Vinos de Municipio e, no centro, Viñedos Singulares


Basicamente o que se busca é explicar melhor as diferenças de terroir. A pirâmide acima, teoricamente, reflete a qualidade do vinho. Quanto mais específico for a localização, mais nobre tenderá a ser o vinho. Esse é exatamente o conceito criado pelos monges religiosos que ao longo de séculos, desde a idade média, esquadrinharam e classificaram cada pedaço de terra na Borgonha. Nesse sentido, podemos dizer que o “Viñedo Singular” da Rioja tem como objetivo ser equivalente a um “Grand Cru” ou “Premier Cru” da Borgonha.


As classificações relacionadas ao local podem ser usadas em conjunto com as regras existentes sobre envelhecimento.


Por outro lado, a adição de uma nova categoria para os espumantes da região também merece destaque, já que os produtores que atualmente fazem o método tradicional de fizz podem rotulá-lo como DO Cava. Será que eles vão querer usar o nome de Rioja para esses vinhos no lugar de Cava?

O chefe do Consejo Regulador, José Luis Lapuente, disse que não poderá usar os dois. Ele também disse que embora o espumante Rioja seja "um produto de nicho", ele foi aprovado para aumentar a oferta da região e atender à crescente demanda por vinhos espumantes em mercados como o Reino Unido. A medida é anterior à decisão do parlamento da Catalunha de declarar independência da Espanha, portanto, não é uma reação a esse desenvolvimento político de uma região que responde por mais de 90% de toda a produção de cava.


1. Viñedos Singulares - A mudança mais significativa na natureza dos níveis de qualidade da Rioja vem com a adição de uma categoria completamente nova, chamada Viñedos Singulares. Projetado para destacar o terroir e as origens do vinho, além de refletir a diversidade da região, foi lançado em junho de 2017.


A nova categoria seguiu uma longa batalha pelo terroir espanhol entre o Conselho Regulador da Denominação de Origem Designada (DOCa) e mais de 150 produtores, que argumentaram que o sistema de denominação atual havia esquecido à diferenciação dos solos e os níveis de qualidade, e apelando para mudanças profundas para valorizar o patrimônio do país e evitar que valorizasse a quantidade em detrimento da qualidade.


A nova categoria pode ser utilizada em conjunto com a classificação de qualidade existente em Rioja, que diz respeito ao tempo de envelhecimento de um vinho em barrica e garrafa.


Aqueles que optarem por usar a nova categoria devem estar em conformidade com os seguintes requisitos na etiqueta:


• Nos rótulos comerciais constarão o nome do vinhedo, que deve ser registrado como marca.


• O termo 'Viñedo Singular' deve aparecer diretamente abaixo do nome do vinhedo, e o tamanho do texto não deve ser maior do que a palavra 'Rioja' no rótulo.


• Os selos de garantia no verso da garrafa manterão as classificações tradicionais de envelhecimento, mas agora também incluirão ‘Viñedo Singular’.


• O selo de garantia pode ser ‘Crianza Viñedo Singular’ ou ‘Gran Reserva Viñedo Singular’.


Enquanto isso, os requisitos para se tornar um Viñedos Singulares estão listados abaixo:


• Se as uvas foram adquiridas de um produtor, a vinícola deve ter uma parceria comercial de pelo menos 10 anos.


• Os vinhedos devem ter pelo menos 35 anos.


• Os rendimentos devem ser inferiores aos permitidos atualmente para Rioja (máximo de 5.000 kg / ha. Para tinto e 6.922 kg / ha. Para branco).


• O volume de vinho obtido para cada 100 kg de uva deve ser de 65%.


• Os vinhedos devem ser bem equilibrados e com vigor limitado.


• Colhido manualmente.


• Rastreabilidade da produção com verificações prévias.


• Avaliação de qualidade dupla, que envolve uma certificação inicial e, em seguida, a certificação antes do lançamento, que deve receber uma classificação de 'excelente'.


2. Vinos de Municipio e Vinos de Zona - O uso de Vinos de Municipio e Vinos de Zona é uma atualização da rotulagem de Rioja que já é permitida. As vinícolas podiam fazer referência à sua zona de produção desde 1998 e nomear a vila ou cidade desde 1999, porém os critérios não eram claros e foram aperfeiçoados. Em 2017, houve uma série de alterações a este regulamento com o objetivo de obter maior visibilidade para as aldeias / vilas e zonas.


Como essas mudanças para Vinos de Zona e Vinos de Municipio (como se fossem os villages da Borgonha), aparecerão na etiqueta?


• As sub-regiões Rioja Alta, Rioja Alavesa e Rioja Oriental (anteriormente Baja) são agora conhecidas como Zonas. No bojo das alterações o nome da zona de menor prestígio, a “Rioja Baja”, aproveitou ser rebatizada para “Rioja Orientale”, numa tentativa de deixar usar um termo considerado pejorativo pelos produtores, o que evidentemente gerou outra discussão.


• Municipios (municipalidades) / Pueblos (vilas e cidades) ou Zonas agora podem ter o mesmo tamanho de texto que Rioja no rótulo (anteriormente, eles só podiam ter dois terços do tamanho da palavra Rioja).


• Embora a rotulagem seja semelhante, haverá uma menção adicional, como ‘Vino de Haro’ ou ‘Vino de Samaniego’.


Os requisitos para Vinos de Zona (Rioja Alta, Rioja Alavesa, Rioja Oriental) são:


• Rastreabilidade da produção.


• Uma mudança legal foi submetida para permitir que 15% das uvas venham de uma zona vizinha (por exemplo, 85% de Rioja Alta e 15% de Rioja Alavesa).


• No caso de compra de uvas (até 15% conforme indicado acima), a vinícola deve ter parceria comercial há pelo menos 10 anos. Pode ter o mesmo tamanho de texto que Rioja no rótulo.


Os requisitos para Vinos de Municipio são:


• Rastreabilidade da produção.


• A vinícola deve estar localizada na aldeia.


• Uma mudança legal foi submetida para permitir que 15% das uvas venham de uma aldeia vizinha, embora uma parceria comercial de pelo menos 10 anos seja necessária.


• A menção do município pode ter o mesmo tamanho de texto que Rioja no rótulo.


3. Requisitos de envelhecimento - Em julho de 2017, o Consejo Regulador DOCa Rioja introduziu novos requisitos de envelhecimento para permitir aos produtores uma maior flexibilidade para o envelhecimento em garrafa.


Para Reserva, são:


• Envelhecido por um total de três anos, incluindo um mínimo de 12 meses em carvalho e 6 meses em garrafa (anteriormente não havia mínimo para envelhecimento em garrafa). Essa alteração foi introduzida em julho de 2017 e entrará em vigor a partir de 1º de janeiro de 2019.


Para Gran Reserva, são:


• Envelhecido por um total de cinco anos, incluindo um mínimo de 24 meses em carvalho e 24 meses em garrafa.


• Embora o período geral de envelhecimento não tenha mudado, agora há flexibilidade para o tempo gasto na garrafa, que antes era de 36 meses. Isso entra em vigor agora.


4. Vinhos brancos de uma única variedade - Após a decisão de 2007 de permitir uma gama mais ampla de uvas permitidas, os vinhos brancos produzidos em Rioja tiveram um aumento nas plantações e destaque internacional.


Atualmente, existem cerca de 1.500 hectares de uvas brancas plantadas em toda a Rioja. Os vinhos brancos representam atualmente cerca de 8% das vendas totais de Rioja, o que passou de 5% apenas cinco anos atrás.


A partir de julho de 2017, agora é possível produzir vinhos monovarietais de qualquer uma das variedades permitidas, incluindo: Viura, Malvasía, Tempranillo Blanco, Garnacha Blanca, Maturana Blanca, Turruntés, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Verdejo.


5. Vinhos Espumantes - Em junho de 2017, o Consejo Regulador DOCa Rioja anunciou que os vinhos espumantes de método tradicional poderiam ser produzidos em Rioja para complementar a gama de vinhos tranquilos da região.


Esses espumosos se chamarão Espumosos de Calidad e serão lançados a partir de 2019.


Os requisitos para a produção de vinhos espumantes são:


• Todas as variedades tintas e brancas são permitidas para vinhos espumantes brancos ou rosés.


• O teor de álcool deve estar entre 11% e 13%.


• Deve haver um período mínimo de envelhecimento de 15 meses.


• Para ‘Reserva’ são 24 meses.


• E para ‘Gran Añada’ são 36 meses.


• Todos os vinhos espumantes de Rioja devem passar por uma dupla avaliação incluindo um teste químico e sensorial.


• Eles devem ser produzidos no "método tradicional".


• O volume de vinho obtido para cada 100 kg de uva deve ser de 62%.


• O rótulo comercial deve incluir as palavras “Método tradicional” sob a doçura Brut (0–12 g / l), Extra Brut (0-6 g / l) e Brut Nature (0-3 g / l). Esta rotulagem também aparecerá nos selos de garantia no verso da garrafa.


• A intensidade da cor dos rosés deve estar entre 0,10 e 1,8 UA / cm, resultante da soma dos parâmetros A420 + A520 + A620.


• O dióxido de enxofre total máximo é 140 mg / l.


• A acidez volátil máxima é de 0,65 g / l.


• A acidez total mínima é de 5,9 g / l.


• O pH deve estar entre 2,8 e 3,3.


Parte das alterações nos rótulos de Rioja somente começam a chegar no mercado agora, porque além de tempo em barricas, termos como Crianza e Reserva exigem tempos regulamentares antes de chegar ao mercado. O mais importante é provar que a qualidade continua tão boa quanto antes. Para muitos, as mudanças têm mais a ver com marketing do que propriamente qualidade!


Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (baseado em artigos disponíveis na internet e minhas considerações)

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